As plantas desempenharam um papel central na vida dos Neandertais, que habitavam ambientes muito mais diversificados, segundo um estudo que combinou a paleobotânica e a paleoarte.
O estudo realizado pela Universidade de Múrcia, no sul de Espanha, financiado com 150 mil euros pela Agência Estatal de Investigação Espanhola (AEI), propõe uma profunda mudança na forma como a vida dos Neandertais e de outros hominídeos é reconstruída visual e cientificamente, colocando a vegetação e a paisagem no centro da narrativa através da paleoarte com base científica.
O projeto, liderado por José S. Carrión, professor de Botânica Evolutiva e autoridade internacional em paleobotânica, integrou dados paleoecológicos, como pólen fóssil, restos vegetais, carvão e outros registos, com reconstruções visuais rigorosas, apoiadas pelo trabalho artístico de vários investigadores, incluindo a paleoartista Gabriela Amorós.
O resultado não é apenas uma nova iconografia, mas também uma ferramenta científica capaz de gerar discussão, identificar lacunas no conhecimento e rever hipóteses estabelecidas.
“Não representamos uma única planta que não seja corroborada pelo registo fóssil. Traduzimos dados como a frequência do pólen, a ecologia das espécies e a sua associação na paisagem em cenas visuais baseadas em evidências, com um âmbito criativo bastante limitado”, sublinhou Carrión.
Para além do seu conteúdo claramente informativo e artístico, as imagens permitem colocar novas questões que surgem dos elementos representados e das hipóteses que até então eram aceites.
No caso dos Neandertais, tradicionalmente representados em paisagens de estepe, com uma imagem predominante dos animais dessa época, essa é uma visão zoocêntrica do passado, com grandes animais, cenas de caça e paisagens abertas e hostis, que está a ser posta em causa pelo trabalho de Carrión.
Este estudo mostra que os Neandertais habitavam ambientes muito mais diversificados, incluindo florestas temperadas e paisagens mediterrânicas.
“Os Neandertais sempre foram retratados como uma espécie associada a estepes frias e sem árvores. Mas os dados paleoecológicos indicam que viveram durante milhares de anos em paisagens florestadas e semiflorestadas, o que também está de acordo com o que sabemos hoje sobre a sua anatomia e métodos de caça”, explicou o investigador.
As reconstituições visuais desenvolvidas neste projeto mostram como a vegetação influenciou a disponibilidade de recursos, a mobilidade, as estratégias de subsistência e o próprio comportamento dos hominídeos.
As plantas não eram meramente um cenário, mas uma fonte de alimento, abrigo, microclima e estabilidade ecológica.
Em contraste com as imagens dos Neandertais, historicamente condicionadas por preconceitos herdados do século XIX, que os apresentam como figuras primitivas condenadas ao fracasso evolutivo, esta investigação destacou a sua sofisticação cognitiva, a sua capacidade simbólica e o seu papel de atores ecológicos plenamente integrados nas suas paisagens.
Longe de ser uma ilustração decorativa, a paleoarte é aqui apresentada como uma extensão metodológica da paleoecologia.
“Quando vemos uma cena completa, como um instantâneo do passado, conseguimos identificar falhas no processo científico ou lacunas no registo fóssil”, apontaram os investigadores.
Desta forma, o desenho torna-se uma forma de “verificação adicional”.
Esta abordagem permitiu, por exemplo, uma reavaliação da localização dos refúgios glaciares, tradicionalmente considerados restritos ao extremo sul da Europa.
Os dados indicaram a existência de refúgios florestais também em zonas interiores e montanhosas, com importantes implicações para a compreensão das migrações e da persistência das populações humanas.









