Há milhares de anos que uma população de focas vive no lago Saimaa, no sudeste da Finlândia e a poucas dezenas de quilómetros da fronteira com a Rússia. É o maior lago desse país do norte da Europa e o quinto maior do mundo.
Essa focas estavam classificadas como sendo uma subespécie da foca-anelada (Pusa hispida), com o nome científico Pusa hispida saimensis.
No passado mês de junho, num artigo publicado na revista ‘PNAS’, um grupo de cientistas defendia que as focas do Saimaa são uma espécie à parte, tendo divergido das focas-aneladas P. hispida há mais de 60 mil anos, muito antes de o lago onde agora vivem se ter formado.
Com base em análises genéticas, que permitiram reconstruir a sua história evolutiva, e no estudo de traços morfológicos, como a dentição, esses investigadores diziam que as focas-aneladas do Saimaa deveriam deixar de ser consideradas uma mera subespécie e passar a ser classificadas como uma espécie de direito próprio.
No final do último mês de julho, os seus argumentos foram ouvidos e surtiram efeito. A Sociedade Internacional de Mamalogia Marinha, responsável por supervisionar o sistema de categorização dos mamíferos marinhos, e, por exemplo, determinar a inclusão de novas espécies, decretou que a foca-anelada do Saimaa é realmente uma espécie distinta, com o nome científico Pusa saimensis.
Em comunicado, os cientistas que defendiam a nova classificação, das universidades de Helsínquia e de Eastern Finland e do Instituto Finlandês de Recursos Naturais, aplaudem a decisão, descrevendo-a como “um passo altamente importante”, especialmente porque as focas-aneladas do Saimaa são a única espécie de mamífero endémica da Finlândia “e também um dos poucos mamíferos endémicos na Europa”.
Dizem os investigadores que “reconhecer a foca-anelada do Saimaa como uma espécie distinta salienta ainda mais a sua singularidade e a importância da sua conservação”. Embora a sua população tenha aumentado ligeiramente nos últimos anos fruto de ações de conservação, avisam que a população global da recém-reconhecida espécie ronda os 500 indivíduos.
“Isso faz com que esteja extremamente vulnerável a alterações nas condições de reprodução e à mortalidade causada pela atividade humana”, dizem os especialistas, acrescentando que, dada a grande dimensão do lago Saimaa (cerca de 4.400 quilómetros quadrados), a população está altamente fragmentada.
Dessa forma, é pouco provável que haja uma troca significativa de genes de indivíduos que vivem em grupos distantes uns dos outros, o que pode resultar numa “diversidade genética reduzida e em problemas relacionados com consanguinidade, especialmente em subpopulações mais pequenas”.
De acordo com a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza, a foca-anelada do Saimaa (ainda classificada como subespécie, mas os cientistas dizem que as alterações demorarão a acontecer) está classificada com o estatuto de “Em perigo”.
Os investigadores esperam que, com este desenvolvimento invulgar em tempos em que estamos mais habituados a ouvir falar de espécies que desapareceram do que do surgimento de novas, os finlandeses “sintam orgulho nesta espécie de foca única, extraordinariamente interessante e também amorosa”. Para eles, é “um verdadeiro símbolo nacional cujo futuro, esperamos, estará agora mais bem assegurado”.









