Fora de tom: Lémures jovens cantam como as crianças humanas



Os indris (Indri indri), a maior espécie de lémure em Madagáscar, são conhecidos pelas suas cantorias entusiasmadas. Uma nova investigação vem agora mostrar que os jovens primatas e as crianças humanas são mais parecidos do que se pensava, no que toca aos seus dotes musicais.

Uma equipa de investigadores liderada pelas universidades de Turim (Itália) e de Warwick (Reino Unido) diz que, da mesma forma que as crianças humanas demoram a saber como controlar a afinação das suas vozes, também os indris, durante a infância, cantam fora de tom.

No mundo dos indris, as canções servem para delimitar e defender territórios, para comunicar com membros do grupo e para reforçar laços sociais. E, ao contrário de outros lémures, estes cantam em “coros” familiares.

Lémures cantam em coro. Fonte: Universidade de Turim

 

Para estudarem as cantorias dos indris, os cientistas gravaram e analisaram os padrões vocais de 62 primatas de várias idades em contexto selvagem e perceberam que as canções dos mais jovens contêm mais irregularidades e desafinações do que as dos adultos.

É por isso que Chiara De Gregorio, primeira autora do artigo publicado na revista ‘Philosophical Transactions of the Royal Society B’, sugere, com base nos resultados obtidos, que “cantar afinado é uma capacidade que se desenvolve” e que, como tal, não é inata nos indris, tal como não o é nos humanos.

Jovem indri a cantar “fora de tom”. Fonte: De Gregorio et al., 2025 (https://doi.org/10.1098/rstb.2024.0021).

 

E mesmo entre jovens machos e fêmeas há diferenças, com eles a cantarem fora de tom mais do que elas, algo que os cientistas dizem poder dever-se a “diferenças nos papéis sociais”. Isto, porque alguns tipos de irregularidades subarmónicas continuam a ser vocalizados pelos machos adultos, para, acredita-se, parecerem maiores e maior intimidantes do que realmente são, para protegerem melhor os seus territórios e as suas famílias de potenciais ameaças.

Além disso, a investigação revela que a desafinação tem a acontecer sobretudo no final das “frases musicais”, sugerindo que, tal como os cantores humanos, os indris também sentem e expressam o esforço nas suas vozes.

Para Daria Valente, segunda autora do estudo, os resultados obtidos permitem não só compreender e explicar a ocorrência da desafinação nas vocalizações destes lémures, mas também abrir novas vias de investigação sobre as origens evolutivas de “não-linearidades vocais” em todo o reino animal.






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