Formiga parasita usa “hipnose química” para levar obreiras a matarem a sua própria rainha e mãe
No mundo das formigas parasitas, fêmeas que se infiltram noutras colónias para destronarem as respetivas rainhas e poderem tomar o trono, os golpes costumam envolver uma luta feroz e até à morte entre a monarca residente e a conquistadora.
Contudo, um estudo publicado este mês na revista ‘Current Biology’, revela uma tática mais sublime que reduz os riscos enfrentados pela invasora. Um trio de cientistas japoneses descobriu que as fêmeas das formigas parasitas das espécies Lasius orientalis e Lasius umbratus são capazes de levar as obreiras de Lasius flavus e Lasius japonicus a matarem as suas próprias rainhas e mães. De recordar que, nas colónias de formigas, apenas as rainhas se reproduzem, pelo que todas as obreiras são, na verdade, irmãs umas das outras e filhas da rainha.
De acordo com os investigadores, já desde o início do século XX que se sabia que as formigas do género Lasius eram capazes de cometer matricídio, mas não se sabia o que motivava esse comportamento inusitado no mundo animal. Esse mistério está agora resolvido.
Revelam os cientistas que as fêmeas das formigas invasoras, tanto as L. orientalis como as L. umbratus, usam uma substância química para fazer com que as obreiras da colónia que pretendem conquistar entrem um frenesim matricida. Depois de assassinada a rainha residente, a invasora é prontamente acolhida pelas obreiras e começa a produzir os seus próprios ovos, que serão cuidados pelas formigas agora órfãs.
Vídeo mostra como, em laboratório, as formigas invasoras conseguem levar as obreiras a matarem a rainha da sua própria colónia. Fonte: Shimada et al., 2025, Current Biology.
Os autores sugerem que a substância em causa, que provoca um tipo de “hipnose química”, é ácido fórmico, uma defesa usada por muitas espécies de formigas para afastarem predadores ou para alertarem as suas parcerias de colónia para perigos. No entanto, neste contexto de invasão, o que se pensa ser ácido fórmico parece ser usado para enganar as obreiras da colónia invadida.
Pertencendo ao mesmo género, tanto invasoras como invadidas reconhecem o ácido fórmico como sinal de perigo, mas quando a rainha a ser derrubada é borrifada com uma grande quantidade dessa substância pela conquistadora as obreiras, pensa-se, passam a considerar a progenitora como uma ameaça para a colónia, sendo desencadeada uma resposta defensiva agressiva.
Mas como é que as formigas invasoras conseguem entrar na colónia sem serem detetadas e travadas? As aspirantes a rainhas passam algum tempo com obreiras da colónia que querem tomar para si, roubando o cheiro desse grupo e, assim, levando-as a pensar que são apenas mais um membro da família.
Em laboratório, os cientistas perceberam que as fêmeas L. orientalis borrifam a rainha L. flavus mais de 16 vezes ao longo de cerca de 20 horas. A rainha é atacada pelas suas obreiras até morrer quatro dias depois. No caso das L. umbratus, as invasoras borrifam as rainhas de L. japonicus apenas duas vezes antes de as obreiras matarem a sua progenitora em menos de um dia.