A cobertura de gelo marinho na Península Antártica poderá encolher até 20% caso se confirme um cenário de elevadas emissões de carbono, segundo um novo estudo divulgado pela revista científica Frontiers. Os investigadores alertam que tal redução poderá ter efeitos devastadores nas populações de krill — base da cadeia alimentar marinha — com consequências diretas para baleias e pinguins que dele dependem.
A investigação, publicada na revista Frontiers in Environmental Science, modelou o futuro da Península Antártica sob diferentes cenários de emissões: um cenário de baixas emissões, que limitaria o aquecimento global a 1,8°C até ao final do século, e cenários mais gravosos, com aumentos de 3,6°C e 4,4°C face aos níveis pré-industriais.
O que está em causa
A Antártida desempenha um papel crucial no equilíbrio climático do planeta. As vastas superfícies de gelo refletem a radiação solar e armazenam enormes quantidades de água doce. No entanto, a região está a aquecer a um ritmo superior à média global.
De acordo com a equipa liderada por Bethan Davies, da Universidade de Newcastle, as escolhas feitas na próxima década serão determinantes para o futuro da região durante séculos.
Num cenário de baixas emissões, o gelo marinho de inverno seria apenas ligeiramente inferior aos níveis atuais e a contribuição da Península Antártica para a subida do nível do mar limitar-se-ia a alguns milímetros. A maioria dos glaciares manter-se-ia reconhecível e as plataformas de gelo continuariam a desempenhar o seu papel estabilizador.
Já num cenário de emissões elevadas, o panorama altera-se drasticamente.
Impactos em cadeia
O aquecimento acelerado do Oceano Austral provocaria a erosão do gelo terrestre e marinho. O colapso de plataformas de gelo tornar-se-ia mais provável, contribuindo para a subida do nível médio das águas do mar.
A redução de até 20% do gelo marinho afetaria profundamente o krill antártico, espécie essencial para o equilíbrio do ecossistema. A diminuição desta população teria repercussões em predadores como baleias e pinguins, além de poder amplificar o aquecimento dos oceanos a nível global.
Os investigadores admitem que é difícil prever como estas alterações ambientais interagirão entre si, mas antecipam deslocações de várias espécies para sul, em busca de temperaturas mais baixas. Predadores de sangue quente poderão adaptar-se ao aumento térmico, mas ficarão vulneráveis se as suas presas não sobreviverem.
Alterações irreversíveis
Um dos aspetos que mais preocupa os cientistas é a possível irreversibilidade das mudanças num cenário de altas emissões. A recuperação de glaciares e ecossistemas poderá não ocorrer em qualquer escala temporal humana.
Além disso, o próprio trabalho científico na região poderá tornar-se mais difícil e perigoso, devido à degradação de infraestruturas causada por fenómenos extremos.
Segundo os autores, o mundo encontra-se atualmente numa trajetória intermédia a intermédia-alta de emissões. Ainda assim, sublinham que uma redução significativa nas emissões poderá mitigar os impactos mais severos.
“Se não agirmos agora, as consequências serão suportadas pelas próximas gerações”, alertam os investigadores, sublinhando que as alterações na Antártida não se limitam ao continente gelado, tendo efeitos globais ao nível do clima, das correntes oceânicas e da subida do nível do mar.









