O secretário-geral da ONU, António Guterres, insistiu ontem que a reforma da arquitetura financeira global e a ação climática são prioritárias para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e, consequentemente, “um mundo melhor”.
No evento anual da ONU para destacar os ODS, em Nova Iorque, Guterres recordou que construir um mundo mais justo, onde as pessoas e o planeta prosperem, faz parte da promessa de atingir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.
Contudo, faltando apenas cinco anos para essa meta, o líder das Nações Unidas admitiu que há ainda um “longo caminho a percorrer”, uma vez que vários conflitos ao redor do mundo continuam a gerar destruição, o financiamento para o desenvolvimento está a esgotar-se e a crise climática “desfere golpe atrás de golpe”.
Guterres observou que o caminho exato para se alcançar os ODS varia consoante os contextos nacionais, pelo que, em primeiro lugar, o mundo precisa de reformar a arquitetura financeira global.
“Isto significa proporcionar um alívio real da dívida, triplicar a capacidade de empréstimo dos bancos multilaterais de desenvolvimento e garantir que os países em desenvolvimento têm uma maior influência nas instituições que governam o seu destino económico”, defendeu.
Além disso, a ação climática “também deverá ocupar o centro do palco”, com a humanidade a dever agir imediatamente para que o aumento da temperatura média global se mantenha na meta dos 1,5 graus Celsius e aproveite todo o potencial das energias renováveis, apelou.
Nesse sentido, o antigo primeiro-ministro português pediu a todos os líderes que apresentem planos climáticos nacionais ambiciosos e que os países desenvolvidos honrem os seus compromissos em matéria de perdas e danos e de adaptação climática.
O chefe da ONU alertou também que o mundo se deve preparar para a transformação tecnológica, indicando que as novas ferramentas digitais têm o potencial de impulsionar o desenvolvimento sustentável, mas frisando que são necessárias “barreiras de proteção” para garantir a segurança e a inclusão, assim como financiamento para eliminar as desigualdades digitais.
A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, adotada por todos os Estados-membros das Nações Unidas em 2015, é um projeto compartilhado para a paz e a prosperidade das pessoas e do planeta.
No seu cerne estão os 17 ODS, que representam um apelo urgente à ação de todos os países – desenvolvidos e em desenvolvimento – numa parceria global.
Os ODS reconhecem que a erradicação da pobreza e de outras privações deve ser acompanhada por estratégias que melhorem a saúde e a educação, reduzam a desigualdade e impulsionem o crescimento económico, ao mesmo tempo em que se combatem as mudanças climáticas e se trabalha para preservar os oceanos e florestas.
Guterres observou hoje que, apesar do momento turbulento que o planeta atravessa, há sinais de progresso, esperança e oportunidade.
Exemplo disso é o número recorde de raparigas que frequenta a escola e as taxas de conclusão escolar a aumentar.
Também a mortalidade infantil diminuiu, assim como a mortalidade materna, as infeções pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH) estão a cair, e a eletricidade atinge agora 92% da população global, com a região da Ásia-Pacífico a caminho do acesso universal à energia.
“Nenhum destes progressos é por acaso. É o resultado de decisões deliberadas. Estes e muitos outros exemplos mostram como investir no desenvolvimento compensa”, sublinhou o secretário-geral da ONU.
Guterres defendeu que o sucesso do progresso está na interligação dos próprios ODS, uma vez que os ODS seguem a lei dos rendimentos crescentes: “Quanto mais avançamos em cada objetivo, mais fácil se torna alcançar outros”.
A educação promove a igualdade de género, a estabilidade climática reforça a segurança alimentar e o combate à fome abre caminho à paz, afirmou.
Contudo, “em tudo o que fazemos, devemos fazer da paz uma prioridade”, salientou o secretário-geral, lamentando que, em 2024, a despesa militar global tenha sido 13 vezes superior à ajuda oficial ao desenvolvimento.
“Por outras palavras, não se trata de uma questão de recursos – é uma questão de escolhas. É por isso que a boa governação é essencial”, acrescentou, apelando à intensificação dos esforços para concretizar a Agenda 2030 e alcançar os ODS.
“Temos de nos reagrupar, voltar a comprometer-nos e reorientar-nos”, concluiu.









