Helena Freitas: “Os sistemas energéticos baseados em combustíveis fósseis favorecem impérios, não cooperação”

Em contraste, para a professora catedrática na área da Biodiversidade e Ecologia no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, as energias limpas “reduzem a necessidade de controlo militar e de alinhamentos forçados, apontando para uma transição energética que é também uma transição de poder, do vertical para o distribuído”.

Redação

Helena Freitas pronunciou-se, esta manhã, sobre a situação na Venezuela. Num post partilhado no LinkedIn intitulado “Do Petróleo à Transição Civilizacional”, a professora catedrática na área da Biodiversidade e Ecologia no Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra explica que o declínio do petróleo “pode ser associado à emergência de uma civilização mais pacífica porque esta matéria-prima nunca foi apenas uma fonte de energia, mas um ativo estratégico profundamente militarizado”.

Para a docente, a concentração geográfica das reservas, a fragilidade das cadeias de abastecimento e a centralidade do petróleo no sistema financeiro internacional “transformaram a energia num instrumento de coerção geopolítica”, sublinhando que a  situação da Venezuela “ilustra bem esta lógica: a posse de enormes reservas petrolíferas não se traduziu em segurança ou prosperidade, mas expôs o país a pressões externas, sanções, disputas geopolíticas e conflitos internos, mostrando como a centralidade do petróleo tende a gerar instabilidade estrutural mais do que estabilidade duradoura”.

Helena Freitas considera que “os sistemas energéticos baseados em combustíveis fósseis favorecem impérios, não cooperação”. A bióloga considera mesmo que estes “reforçam Estados altamente centralizados, premiam o controlo territorial e incentivam intervenções externas diretas ou indiretas”.

Na Venezuela, acrescenta, a dependência quase absoluta do petróleo “concentrou o poder político e económico, fragilizou outras formas de produção e tornou o país vulnerável tanto a choques de preços como a mecanismos de coerção internacional”.

Em contraste, diz ainda, as energias limpas — renováveis, distribuídas e locais — “reduzem a necessidade de controlo militar e de alinhamentos forçados, apontando para uma transição energética que é também uma transição de poder, do vertical para o distribuído”.

Para Helena Freitas, “num mundo ancorado em energias limpas, muitas das guerras e crises contemporâneas – que são, no fundo, conflitos de sobrevivência sistémica pelo acesso à energia, à moeda e aos mercados – tendem a perder intensidade”.

O caso venezuelano, adianta a docente, “demonstra como a dependência de um único recurso estratégico pode transformar divergências políticas em ameaças existenciais, amplificando sanções, bloqueios e polarização”. A descentralização energética e a pluralidade económica “tornam essas pressões menos letais e reduzem o incentivo à violência”.

E conclui: “tal como o carvão moldou o século XIX e o petróleo o século XX, a ascensão das energias limpas abre espaço para novas formas de organização económica e para uma redefinição da segurança, favorecendo uma civilização mais cooperativa e estruturalmente menos violenta”.

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