Incêndios expõem fragilidades em projetos de restauro florestal

“Esta conclusão é preocupante, sobretudo num contexto em que as alterações climáticas estão a impulsionar incêndios florestais mais frequentes e severos. Uma restauração eficaz é fundamental para permitir a recuperação da biodiversidade”, afirma Ebony Cowan.

Redação

Um novo estudo da Murdoch University conclui que algumas componentes das áreas de bosque de Banksia restauradas na Austrália Ocidental têm maior dificuldade em lidar com o fogo do que os ecossistemas naturais equivalentes.

O trabalho, intitulado Ecological Resilience of Restored Mediterranean Climate Woodlands to Experimental Fire, foi liderado por Ebony Cowan no âmbito do seu doutoramento e analisou a forma como estes ecossistemas restaurados respondem a incêndios controlados.

O fogo é um elemento natural e essencial da paisagem ecológica australiana, sendo que muitas espécies autóctones regeneram após incêndios quando estes ocorrem em condições adequadas. No entanto, o estudo demonstra que nem todos os grupos de plantas recuperam da mesma forma em áreas restauradas.

“Esta conclusão é preocupante, sobretudo num contexto em que as alterações climáticas estão a impulsionar incêndios florestais mais frequentes e severos. Um restauro eficaz é fundamental para permitir a recuperação da biodiversidade”, afirma Ebony Cowan.

Queimadas experimentais ao longo de três anos

A investigação decorreu durante vários anos e testou experimentalmente a resposta de bosques de Banksia restaurados ao fogo, através de queimadas controladas de pequena escala em áreas com diferentes níveis de maturidade ecológica.

Os investigadores analisaram dados recolhidos ao longo de três anos, desde levantamentos realizados antes dos incêndios, em 2019, até à monitorização posterior, em 2022, complementando-os com bases de dados colaborativas de longo prazo.

Entre os resultados positivos, o estudo verificou que as espécies que regeneram a partir de sementes após o fogo apresentaram uma recuperação robusta nas áreas restauradas, comportando-se de forma semelhante às que se encontram em bosques naturais de Banksia.

Espécies rebrotadoras com maior dificuldade

O cenário revelou-se distinto no caso das espécies rebrotadoras — plantas capazes de regenerar novos caules ou ramos após uma perturbação como o fogo.

Segundo a investigadora, estas espécies não responderam de forma satisfatória nas áreas restauradas, sobretudo nas mais jovens. Em alguns casos, não houve rebentação após o incêndio e verificou-se uma menor diversidade destas plantas em comparação com os ecossistemas naturais. As áreas restauradas continham apenas uma parte das espécies rebrotadoras presentes no mato nativo.

Esta constatação é considerada preocupante, uma vez que as espécies rebrotadoras desempenham um papel central na resiliência a longo prazo dos ecossistemas sujeitos a incêndios frequentes.

Resiliência não é garantida com o tempo

O estudo desafia ainda uma ideia comum na prática de restauro ecológica: a de que a resiliência a perturbações como o fogo se desenvolve automaticamente com o envelhecimento da área restaurada.

“Nem sempre a resiliência aumenta com o tempo, e pode variar consoante o tipo de plantas”, explicou a investigadora, defendendo que é necessário planear e avaliar explicitamente essa dimensão.

Caso contrário, alerta, as paisagens restauradas podem evoluir para estados indesejáveis, dominados por espécies invasoras ou com menor capacidade de fornecer habitat adequado, resultando em perda de biodiversidade e utilização ineficiente de recursos.

O estudo foi publicado na revista científica Ecology and Evolution.

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