Um novo estudo internacional identificou um fóssil encontrado no Brasil como um dos líquenes mais antigos da história da Terra, revelando que estes organismos já eram comuns há mais de 410 milhões de anos. A descoberta ajuda a explicar como a vida conseguiu prosperar em terra firme.
A investigação, publicada na revista Science Advances e liderada por Bruno Becker-Kerber, investigador da Universidade de Harvard, analisou um fóssil do período Devónico conhecido como Spongiophyton (datado entre 419 e 359 milhões de anos). Usando técnicas de imagem por raios X de última geração e outros métodos modernos, os cientistas conseguiram observar uma combinação de fungos e algas semelhante à dos líquenes atuais.
“As nossas descobertas mostram que os líquenes não eram organismos marginais, mas sim pioneiros fundamentais na transformação da superfície da Terra”, explica Becker-Kerber. “Foram eles que ajudaram a criar o solo que permitiu às plantas e aos animais estabelecer-se e diversificar-se em terra”, acrescenta.
Os resultados indicam que os primeiros líquenes terão evoluído nas regiões polares frias do supercontinente Gondwana, correspondentes ao que hoje são a América do Sul e África.
O professor Jochen Brocks, da Universidade Nacional Australiana (ANU), descreve Spongiophyton como “um fóssil extraordinário, com preservação excecional”.
“Está praticamente mumificado, com matéria orgânica intacta. O material resistente nas plantas simples é a celulose, mas os líquenes são muito diferentes — são compostos por quitina, o mesmo material que torna os insetos duros”, explica o investigador.
Essa característica foi confirmada através de análises químicas que revelaram um sinal de azoto nunca antes observado. “Foi um momento de euforia científica — um verdadeiro momento ‘Eureka’”, acrescenta Brocks.
Os líquenes continuam hoje a desempenhar um papel crucial na formação do solo, na reciclagem de nutrientes e na captura de carbono, sobretudo em ambientes extremos, desde desertos até regiões polares. No entanto, a sua origem permanecia um enigma devido à fragilidade destes organismos e à raridade dos seus fósseis.
A coautora Nathaly L. Archilha, do Laboratório Brasileiro de Luz Síncrotron, destaca a importância da combinação de técnicas tradicionais com tecnologias avançadas:
“As medições iniciais orientaram-nos para as regiões mais promissoras, permitindo depois recolher imagens 3D a nível nanométrico, que revelaram as complexas redes de fungos e algas características dos líquenes”, explica.
O estudo envolveu mais de 20 instituições e centros de investigação no Brasil, Austrália, Estados Unidos, Reino Unido e França, numa colaboração que lança nova luz sobre o papel dos líquenes na história evolutiva do planeta — os primeiros a preparar o terreno, literalmente, para toda a vida terrestre que se seguiu.









