Lobos em espaços urbanos continuam a ter medo dos humanos, mas adaptam-se rapidamente

Um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Medicina Veterinária de Viena (Áustria) e pela Universidade de Sassari (Itália) quis perceber como é que os lobos estão a adaptar-se a um mundo que à sua volta se altera rapidamente.

Filipe Pimentel Rações

À medida que os espaços urbanos se expandem cada vez mais para os habitats de animais selvagens, esses últimos têm de aprender a lidar com novos estímulos, perigos e oportunidades.

Os lobos são, porventura, o animal selvagem mais controverso atualmente, e na Europa isso é evidente, com a redução do estatuto de proteção da espécie e com apelos a um controlo mais apertado, inclusivamente com recurso ao abate, das populações lupinas.

Um grupo de investigadores liderado pela Universidade de Medicina Veterinária de Viena (Áustria) e pela Universidade de Sassari (Itália) quis perceber como é que os lobos estão a adaptar-se a um mundo que à sua volta se altera rapidamente.

O trabalho, cujos resultados são apresentados na revista ‘PNAS’, incidiu sobre lobos que vivem no centro de Itália. A equipa estudou o comportamento de 185 lobos selvagens, cujas identidades individuais eram conhecidas, em 44 locais diferentes, uns mais urbanos e outros mais selvagens. O objetivo era perceber como é que os animais reagiam a objetos estranhos que nunca tinham visto e aos sons de vozes humanas.

Os resultados, dizem os autores, fornecem perspetivas únicas e importantes sobre como os lobos adaptam o seu comportamento a ambientes criados pelos humanos.

Medo dos humanos persiste

Poderá pensar-se que a proximidade crescente com espaços povoados por humanos faz com que os lobos acabem por perder o medo da nossa espécie. Estudos anteriores tinham já mostrado que isso não é verdade na Polónia, e agora este confirma-o em Itália.

Quando expostos a gravações de vozes humanas, 81% dos lobos estudados mostraram “fortes reações de medo”, como mudança da direção em que caminhavam, a adoção de uma postura mais cautelosa ou mesmo uma fuga veloz.

Outra parte da experiência levou os investigadores a colocarem objetos que os lobos nunca tinham visto e a registarem as suas reações. A equipa constatou que os lobos que vivem em locais mais urbanizados pareciam ter menos receio dos objetos do que lobos de zonas menos urbanizadas. Ainda assim, os “lobos urbanos” mostravam-se muito cautelosos, especialmente quando o objeto era trocado por outro pelos investigadores.

Sarah Marshall-Pescini, líder da equipa e uma das principais autoras do estudo, explica que, apesar de os lobos em áreas urbanas parecerem ter menos medo de objetos novos, os animais mostram-se mais cautelosos a mudanças no ambiente que os rodeia, talvez porque os espaços urbanos podem esconder mais perigos para a sua sobrevivência e, por isso, têm de estar mais alerta.

Apesar do receio, os investigadores dizem que os lobos adaptam-se rapidamente, demonstrando uma grande capacidade de aprendizagem. Além disso, os lobos em grupo tendem a mostrar menos medo dos objetos e vozes humanas do que os lobos que andam sozinhos.

“Os nossos resultados revelam o grande potencial dos lobos para navegarem ambientes urbanos como paisagens tanto de riscos como de oportunidades, graças a um repertório comportamental multifacetado, flexível e complexo”, escrevem os investigadores no artigo.

“A pergunta ainda sem resposta é se as sociedades humanas serão capazes de estar à altura do desafio da coexistência com soluções de eficácia e complexidade comparáveis.”

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