As autoridades moçambicanas defenderam ontem o reforço da cooperação regional na gestão das bacias hidrográficas partilhadas, lembrando que o país está a jusante em oito das nove existentes na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
“O nosso país encontra-se a jusante em oito das nove bacias hidrográficas partilhadas a nível da SADC e mais de 90% das cheias registadas no território nacional ocorrem em bacias hidrográficas compartilhadas”, disse Hélio Banze, secretário permanente do Ministério das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, durante a 8.ª Conferência Internacional sobre Gestão Fluvial e Ambiental, em Maputo.
Para o responsável, a cooperação transfronteiriça é uma prioridade estratégica para o Governo moçambicano, tendo em conta que a região da África Austral enfrenta desafios crescentes de escassez de água, cheias cíclicas e pressão sobre os ecossistemas hídricos, o que exige uma “cooperação mais forte, mais inclusiva e baseada tanto no conhecimento científico, mas também no conhecimento indígena”.
“Proteger e gerir bem os recursos hídricos é, em última instância, proteger a vida, a economia e o futuro das comunidades”, sublinhou o secretário permanente.
Já o diretor da Administração Regional de Águas do Sul (ARA-Sul), Edgar Chongo, alertou para desafios a nível da qualidade da água e para a necessidade de se monitorar a quantidade recebida nas bacias.
“Precisamos monitorar as bacias hidrográficas em termos de quantidade do que recebemos e dos respetivos impactos que esta quantidade pode vir a criar a nós que estamos a jusante”, referiu o responsável.
Nos últimos anos, episódios de cheias provocadas por descargas da barragem Pongolapoort, na África do Sul, têm afetado a região sul de Moçambique, danificando infraestruturas, estradas e plantações agrícolas, especialmente nas zonas ribeirinhas do distrito de Matutuíne, província de Maputo.
Em setembro, as autoridades moçambicanas alertaram para cheias de “grande magnitude” no país e inundações em pelo menos quatro milhões de hectares agrícolas durante a época das chuvas que se iniciou em outubro.
Segundo o diretor nacional de Gestão de Recursos Hídricos, Agostinho Vilankulos, as barragens de países vizinhos de Moçambique, entre os quais África do Sul e Essuatíni, estão a 99% do nível de armazenamento e, por isso, com pouca capacidade de encaixe, situação que obrigará ao escoamento e consequentes inundações no país.
“Se as barragens estão cheias, então, não tem capacidade de encaixar, então, qualquer chuva que caia nos países vizinhos, transforma-se em escoamento e vem para o nosso país”, alertou Vilankulos, apontando os municípios da Matola, Maputo, Beira e Quelimane como de “elevado risco de ocorrência de inundações”.
Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis e severamente afetados pelas alterações climáticas, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa.
O país registou, de 2000 a 2023, mais de 75 eventos climáticos extremos, causando perdas económicas superiores a 3,8 mil milhões de euros, colocando o país entre os 10 mais vulneráveis do mundo, avançou este mês o Governo.









