Pouco passava das onze horas da manhã e o ar estava ligeiramente abafado, com pouco ou nenhum vento a soprar debaixo de um céu cinzento.
A toda a volta, as vozes – uma mais melodiosas, outras mais estridentes – de inúmeros pássaros soavam por entre os pinheiros, os cantores escondidos e longe da vista. Estávamos junto ao pinhal da Carrasqueira, na Companhia das Lezírias. O local é considerado uma bolsa de biodiversidade, tanto de fauna como de flora, pelo que a empresa adota práticas de gestão que reduzam ao máximo os impactos negativos sobre a vida selvagem e que promovam não só a conservação, mas também a regeneração dos solos e, com isso, de todo o ecossistema.
A visita pela propriedade da Companhia, a maior exploração agropecuária e florestal do país com perto dos 18.000 hectares, acontecia no âmbito do encontro anual dos signatários do pacto act4nature, uma iniciativa do Conselho Empresarial Português para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD Portugal) e cujo objetivo é ajudar as empresas a reduzirem os seus impactos na Natureza e a integrarem-na como dimensão central das suas estratégias de negócio. A Companhia das Lezírias é um os 42 signatários do act4nature e abriu as suas portas a representantes de outros membros do pacto para o encontro anual.

Ao longo de caminhos de terra, num percurso cauteloso e aos solavancos, sinal da força do temporal que semanas antes se havia abatido sobre praticamente todo o país e também sobre os terrenos da Companhia, percebeu-se que, apesar do que se possa pensar, a conservação da Natureza e o desenvolvimento do negócio não têm de ser vistos como mutuamente exclusivos.
“É o nosso desafio diário, conseguir conciliar as práticas de gestão sustentável com o racional económico, que tem de estar sempre no fim da linha das nossas decisões”, explica-nos, à margem do encontro, João Fonseca, diretor de sustentabilidade.
Com uma história cujo início remonta ao ano de 1836 e com uma extensão sem paralelo no país, a Companhia tem, talvez, um conjunto de condições que lhe permitem conseguir essa compatibilização. No entanto, João Fonseca reconhece que essa harmonia entre Natureza e negócio pode também ser conseguida em negócios agroflorestais com dimensões mais reduzidas, haja conhecimento e vontade.
Conservar e regenerar a Natureza é para a Companhia “fundamental”, diz-nos o responsável, e uma peça indispensável da estratégia de negócio da empresa.
Trabalhar com a Natureza e não contra ela
Em 2006, foi descoberto do primeiro ninho de águia-de-bonelli, também conhecida como águia-perdigueira (Aquila fasciata), nas terras da Companhia das Lezírias, na zona do pinhal das Carrasqueira. Hoje, contam-se três casais e cinco ninhos (os casais, monogâmicos, vão mudando de ninho de ano para ano), e, segundo disse Sandra Alcobia, bióloga do departamento de Turismo, Comunicação e Imagem da Companhia, “somos orgulhosamente avós de três pintos”.

A espécie está classificada como “Em perigo” em Portugal e, ao contrário de outras populações na Europa que fazem ninhos em escarpas rochosas, as águias-de-bonelli em Portugal nidificação maioritariamente no topo de grandes árvores, em especial os casais que vivem nas regiões da Estremadura, do Alentejo e do Algarve.
Por ser um dos locais onde esse predador escolheu “assentar arraiais”, a Companhia das Lezírias é um dos parceiros do projeto LIFE Lx Aquila, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves e que pretende, precisamente, proteger essa espécie ameaçada. Inicialmente, o projeto tinha fim previsto para 2025, mas conseguiu financiamento para se estender até março de 2027.
Em linha com a visão da harmonia entre negócio e Natureza, a Companhia limita as suas intervenções nas áreas florestais onde estão os ninhos de águia-de-bonelli, o que deixa uma janela temporal de cerca de dois meses para o trabalho de gestão. Isso, porque a época de reprodução começa em novembro ou dezembro, com voos nupciais entre macho e fêmea, e termina entre agosto e setembro, quando as crias se tornam independentes dos progenitores.
Além das preocupações com a conservação dessa rapina, a Companhia tenta também evitar ao máximo perturbações nos solos das suas explorações florestais, dando, onde e quando possível, prioridade a intervenções que não necessitem de mobilizar as terras. Dessa forma, os microrganismos que vivem no solo, fundamentais para a saúde das plantas, permanecem, permitindo que serviços de ecossistema, como a retenção de água, reciclagem de nutrientes e sequestro de carbono, continuem a ser prestados.
Raposas, genetas, javalis, ratos-de-cabrera, sacarrabos, texugos e até lontras foram já avistados na propriedade, algo que os responsáveis entendem ser sinal de que as ações de conservação estão a funcionar. No total, foram já observadas na área florestal da Companhia das Lezírias cerca de 150 espécies de aves e 24 de mamíferos.

Foto: Imran Shah / Wikimedia Commons (licença CC BY-SA 2.0).
Reconstruir as teias alimentares é também parte importante da estratégia da Companhia para aliar Natureza e negócio. Ecossistemas equilibrados, com populações saudáveis e sustentáveis de presas e de predadores, são cruciais para assegurar que a produção agrícola e florestal é bem-sucedida.
A Companhia tem um projeto interno de reprodução de coelho-bravo, espécie autóctone, mas ameaçada de extinção, sobretudo pela doença hemorrágica viral e pela perda de habitat. Sendo presa de muitos predadores, das águias à raposa, pelo que são a base de uma teia trófica em bom funcionamento.
A empresa tem também apostado na colocação de caixas-ninho para atrair corujas-das-torres, que ajudam a controlar, de forma natural, as populações de ratos-cegos, espécie de roedor que tem causado prejuízos na produção de sobreiros, por exemplo. Caixas semelhantes estão também a ser usadas para fixar aves insetívoras para controlarem insetos prejudiciais, como o longicórnio-do-pinheiro, cujas larvas se alimentam de madeira de pinheiros e que transportam também o nemátodo-da-madeira-do-pinheiro, que causa a doença-da-murchidão-do-pinheiro. Não é, por isso, um inseto que seja apreciado pelos produtores florestais.
Estas são medidas que se inserem na categoria de soluções de base natural, consideradas chave para combater as crises planetárias. Contudo, há limitações, pois a Companhia reconhece que as aves insetívoras não se reproduzem com a mesma rapidez que os insetos prejudiciais, pelo que por vezes, ainda que assegure que é só em casos mesmo limite, tem de se recorrer a produtos menos naturais para proteger a produção.
Ainda assim, estão também a ser desenvolvidas, com o Instituto Superior de Agronomia, armadilhas para insetos que visem somente determinada espécie ou grupo e não afetem as demais.

Os esquilos estão também de regresso às terras da Companhia, que, como diz Sandra Alcobia, são “os melhores amigos para a regeneração da floresta”. Isso, porque enterram muitas sementes, com a intenção de delas se alimentarem mais tarde, mas acabam por se esquecer onde as esconderam, ajudando, ainda que inadvertidamente, a revitalizar os ecossistemas. “São uma espécie muito bem-vinda”, diz Sandra Alcobia, embora reconheça que alguns produtores possam ter outra opinião por verem o esquilo como competidor.
Desta forma, a Companhia tenta trabalhar com a Natureza e não contra ela, para que ambas possam beneficiar e sair a ganhar.
Negócio e Natureza não são antónimos
A Companhia das Lezírias considera ser um exemplo de que a conservação da Natureza e a geração de lucro não têm de estar em lados opostos da barricada, com o diretor de sustentabilidade João Fonseca a dizer-nos que os produtores agrícolas e florestais estão cada vez mais cientes da indispensabilidade de protegerem e regenerarem os recursos naturais dos quais dependem.
O objetivo do pacto act4nature é precisamente esse: mostrar que uma e a outra não só podem coexistir, como podem reforçar-se mutuamente.
Afonso Dinis, gestor de conhecimento do BCSD Portugal e um dos coordenadores da iniciativa act4nature, lançada em 2020 e que se orienta por cinco princípios comuns: conhecer a relação (e os impactos diretos e indiretos) entre as empresas e os ecossistemas; identificar, prevenir, reduzir e compensar esses impactos; capacitar e envolver os colaboradores e outros parceiros ao longo da cadeira de valor como parte desses esforços; comunicar de forma transparente os compromissos assumidos e os resultados das ações realizadas; e fazer das empresas parte ativa das estratégias locais e nacionais de conservação da biodiversidade.
Pode pensar-se que apenas as empresas que atuam diretamente na Natureza, como as florestais, pecuárias e agrícolas, é que têm impacto nos ecossistemas e interesse em conservá-los, mas Afonso Dinis assegura-nos que “todos os negócios, de forma mais direta ou mais indireta, dependem da natureza”, seja através das suas operações diretas ou na sua cadeia de valor.
“O tema clima já é muito falado, e bem, e o que nós achamos, e esperamos que aconteça, é que agora a Natureza tenha também um peso cada vez mais relevante e reconhecido, e que seja abordado também como um tema do negócio da mesma forma que se calhar há 20, 30 anos não se falava assim nem se sabia muito do clima e da influência que tem”, explica. Para ele, a Natureza tem de seguir também esse caminho no mundo empresarial, daí o act4nature.

Ao longo dos anos de vida da iniciativa, Afonso Dinis diz que as empresas signatárias estão a começar a perceber melhor como abordar o tema da Natureza nos seus negócios, e a esperança é que a breve trecho essa dimensão se consolide como parte fulcral das estratégias corporativas.
Numa altura em que a mitigação e a adaptação climáticas começam a permear cada vez mais os discursos e atuações das empresas, Afonso Dinis está convicto de essas entidades, tal como aconteceu com o clima, começarão a entender a Natureza como “aliado fundamental”.
“Eu diria que, às vezes, a dificuldade é um pouco saber por onde começar”, aponta, “e é aí que nós entramos”.
Primeiro que tudo, as empresas, antes de avançarem para ações, têm de saber de onde estão a partir. É preciso que conheçam bem os seus negócios e os seus impactos na Natureza, para que depois não invistam esforço, tempo e dinheiro em ações avulsas que, no final de contas, não têm grande ligação com o negócio nem impacto significativo nele. Por isso, “quando chega a altura de cortes orçamentais, às vezes temos equipas de sustentabilidade ou de responsabilidade corporativa que se queixam de que são as primeiras iniciativas a ficar para trás”.
“O nosso papel também como BCSD Portugal é apontar as empresas no caminho certo, dotá-las de ferramentas e de conhecimento para que possam aproveitar as oportunidades e mitigar os riscos”, afirma.
Ainda, por vezes pode parecer mais fácil e ter retornos mais imediatos com ações isoladas, mas que podem não ser as mais adequadas para a empresa.
“São coisas que dão trabalho, que depois terão benefícios a médio-prazo, enquanto, se calhar, essas atividades mais ad hoc, mais avulsas, são mais fáceis, têm um impacto mais local e mais específicos em algumas comunidades e são mais rápidas de comunicar. Ações mais integradas a longo-prazo exigem um bocado mais e, portanto, é mais complicado começar”, explica Afonso Dinis.
“A integração da Natureza nos modelos de negócio deve acontecer para que se tornem mais resilientes e, portanto, só beneficiará quem conseguir pegar nesses temas e desenvolver o melhor trabalho possível.”









