Não é só plantar árvores, é também onde se plantam: Cientistas revelam os locais onde a florestação mais reduz o aquecimento do planeta

Um grupo de investigadores defende que não importa só plantar em quantidade. Saber onde plantar é tão ou mais importante do que o número de árvores que se planta.

Filipe Pimentel Rações

Ações de plantação de árvores ou de recuperação de florestas que foram destruídas são vistas como fundamentais para restabelecer sumidouros de carbono naturais e, assim, contribuir para a mitigação do aquecimento global e combater as alterações climáticas.

Contudo, não importa só plantar em quantidade. Saber onde plantar é tão ou mais importante do que o número de árvores que se planta, diz novo estudo.

Uma investigação liderada pela universidade ETH Zurich, na Suíça, revela quais os locais do mundo onde a plantação de árvores é mais eficaz na redução do aquecimento global, não só analisando efeitos bioquímicos, como a absorção de dióxido de carbono através da fotossíntese, mas também outros fatores, como o albedo (o rácio de reflexão de volta para o Espaço da luz solar que incide sobre a Terra), a evapotranspiração e as alterações causadas na superfície do solo pelas ações de plantação.

Criando três modelos computacionais que simulam cenários de reflorestação com diferentes áreas e os seus efeitos até 2100, partindo do princípio de que a floresta se manterá inalterada durante 30 anos consecutivos, os cientistas perceberam que em dois cenários alcançar-se-ia os mesmos efeitos de arrefecimento global, embora a diferença de área entre eles seja de cerca de 450 milhões de hectares, o que equivale quase à área de todos os países da União Europeia combinados.

“O facto de conseguirmos alcançar o mesmo efeito de arrefecimento com muito mesmo área mostra que onde plantamos é mais importante do que quanto plantamos”, diz Nora Fahrenbach, primeira autora do estudo publicado recentemente na revista ‘Communications Earth & Environment’.

Dizem os investigadores que essa maior eficiência está associada à localização geográfica das ações de plantação de árvores e aos processos biofísicos e bioquímicos em diferentes latitudes.

Assim, com base nos resultados, dizem que as regiões onde é maior o potencial de arrefecimento são os trópicos, especialmente na bacia do Amazonas e na África Ocidental e do sudeste, com efeitos globais e locais.

“Aí, as árvores não só armazenam carbono de forma eficiente (arrefecimento bioquímico), como também arrefecem a envolvente ao nível local devido à elevada taxa de evapotranspiração (arrefecimento biofísico)”, detalha a equipa. Algo semelhante, embora com efeitos menos pronunciados, pode acontecer no sudeste asiático.

Por outro lado, a investigação revela que a plantação de árvores em latitudes mais elevadas, como na Sibéria, no Canadá, no Alasca e noutras zonas da América do Norte, os efeitos são menores, pelo que ações de reflorestação de grande escala não contribuirão significativamente para o arrefecimento do planeta.

Explicam os cientistas que essas zonas do planeta estão, habitualmente, cobertas de neve e gelo durante vários meses seguidos, o que ajuda a refletir de volta para o Espaço a radiação solar. Aquando de ações de plantação, a folhagem mais escura das árvores faz com que mais radiação seja absorvida, aumentando a temperatura ao nível local, o que poderá mesmo anular qualquer efeito de arrefecimento que as árvores possam gerar.

Dessa forma, ao evitar a plantação de árvores em latitudes mais elevadas e ao focar esses esforços nas regiões tropicais, “a reflorestação torna-se uma ferramenta muito mais eficiente no que toca à proteção climática”, argumenta Fahrenbach.

Este grupo de investigadores percebeu também que os impactos da reflorestação não se limitam ao local onde acontece, mas repercutem-se pelo mundo fora, afetando a temperatura e a precipitação em regiões a milhares de quilómetros de distância.

“Há muito que se sabe que as florestas tropicais arrefecem o clima de forma muito mais eficiente do que florestas em latitudes mais elevadas”, refere a cientista, acrescentando que este estudo fornece agora aos decisores uma “base científica” para que possam tomar as melhores decisões no que toca à plantação de árvores, “destacando que áreas a nível mundial têm o maior potencial para um arrefecimento global efetivo”.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.