Um novo soro experimental desenvolvido com recurso a proteínas recombinantes mostrou resultados promissores em ratos, protegendo contra o veneno de algumas das cobras mais perigosas do continente africano. O estudo, publicado na revista Nature, poderá abrir caminho para tratamentos mais eficazes e seguros para as vítimas de mordeduras de cobra.
As mordeduras de cobras venenosas continuam a ser um grave problema de saúde pública em África subsariana, provocando milhares de mortes e ferimentos graves todos os anos. Os antivenenos atualmente disponíveis são produzidos a partir de plasma sanguíneo de animais, o que os torna caros, difíceis de padronizar e, por vezes, responsáveis por reações adversas. Além disso, nem sempre são eficazes contra todas as espécies de cobras de importância médica ou na prevenção de danos severos nos tecidos.
Um antiveneno inovador feito a partir de nanocorpos
A equipa liderada por Andreas Laustsen criou um antiveneno a partir de nanocorpos — pequenas proteínas de origem animal, geneticamente modificadas para reconhecer e neutralizar toxinas específicas presentes nos venenos. Estes nanocorpos foram obtidos após a imunização de uma alpaca e uma lhama com venenos de 18 espécies africanas, incluindo várias cobras e mambas.
Nos testes realizados em ratos, o novo soro conseguiu evitar a morte provocada por 17 das espécies estudadas e reduziu os danos nos tecidos causados por alguns dos venenos mais potentes. Comparado com o antiveneno comercial Inoserp PAN-AFRICA, o novo composto revelou-se mais eficaz na prevenção da morte e da necrose cutânea em quase todas as espécies testadas, embora a proteção contra as mambas (género Dendroaspis) de cor verde ou negra tenha sido apenas parcial.
Menos é mais: eficácia com menos componentes
Os resultados do estudo desafiam a ideia tradicional de que os antivenenos precisam de misturas complexas de numerosos anticorpos para serem eficazes. Segundo os autores, uma combinação reduzida de componentes pode oferecer proteção ampla contra várias espécies venenosas.
A próxima fase da investigação irá concentrar-se em aumentar a estabilidade do soro e em avaliar a sua segurança em ensaios clínicos, com o objetivo de desenvolver uma nova geração de antivenenos mais seguros, acessíveis e de largo espetro.
“Estes resultados são um passo importante para garantir que, no futuro, os antivenenos sejam não só mais eficazes, mas também mais acessíveis para as populações que mais sofrem com este problema”, sublinham os investigadores.









