Nas últimas semanas, várias regiões da Austrália registaram valores próximos dos 50 graus Celsius, confirmando uma tendência preocupante: as ondas de calor estão a tornar-se mais frequentes, mais intensas e mais perigosas.
Apesar de os verões quentes fazerem parte da realidade australiana, a ciência é clara quanto ao agravamento do fenómeno. À medida que o planeta aquece, espera-se um aumento significativo destes episódios extremos. O Bureau of Meteorology define uma onda de calor como um período de pelo menos três dias consecutivos com temperaturas máximas e mínimas anormalmente elevadas, tendo em conta o clima local e os registos históricos.
Estudos financiados pela Natural Hazards Research Australia demonstraram, já há mais de uma década, que as ondas de calor são a principal causa de morte associada a perigos naturais no país, superando, em conjunto, todas as outras catástrofes naturais, como incêndios, inundações ou ciclones.
Para além dos impactos físicos, o calor extremo afeta também a saúde mental. Após uma onda de calor em Western Sydney, em 2017, 15% das pessoas inquiridas relataram sentir-se fisicamente doentes e 10% referiram níveis elevados de stress ou sintomas depressivos. Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças pequenas, grávidas, pessoas com baixos rendimentos, socialmente isoladas ou com doenças crónicas e deficiência.
Impacto económico significativo
Os custos económicos das ondas de calor são igualmente elevados e ainda pouco compreendidos na sua totalidade. As temperaturas extremas afetam infraestruturas essenciais, provocando falhas no fornecimento de eletricidade e nos transportes, com impacto direto na atividade económica. Só na última semana, mais de 100 mil habitações no Sul da Austrália ficaram sem energia.
O aumento do consumo elétrico para arrefecer as casas agrava também a pressão sobre os orçamentos familiares, sobretudo num contexto de aumento do custo de vida. No setor agrícola, os prejuízos são expressivos: produtores de fruta na Austrália Ocidental relataram perdas significativas, obrigando à adoção de medidas de emergência, como o adiamento das vindimas, o uso de sistemas de aspersão para proteger aves e ajustes nos mercados de gado para salvaguardar o bem-estar animal.
A produtividade laboral sofre igualmente com o calor extremo. Estudos indicam que quase dois terços das empresas com trabalhadores ao ar livre registam quebras de produtividade durante ondas de calor, com custos estimados em mais de 6,9 mil milhões de dólares por ano para a economia australiana.
Como preparar melhor famílias e comunidades
Especialistas sublinham que existem medidas práticas que podem reduzir os riscos. Ao nível doméstico, recomenda-se planear com antecedência: vedar frestas em portas e janelas, desligar aparelhos que geram calor e concentrar o arrefecimento apenas nas divisões mais frescas da casa. Quando não é possível manter a habitação a uma temperatura segura, deve procurar-se refúgio em espaços climatizados, como bibliotecas, centros comerciais ou centros de arrefecimento.
Manter contacto regular com familiares, amigos e vizinhos é essencial, assim como garantir o bem-estar dos animais de estimação, assegurando sombra e água em abundância.
Para as comunidades, a preparação passa por planos de continuidade de negócios, reforço do apoio a organizações comunitárias que acompanham pessoas vulneráveis e estratégias coordenadas de centros de arrefecimento. Estudos indicam que a maioria das mortes associadas ao calor ocorre em casas demasiado quentes para serem seguras, o que torna o acesso a espaços mais frescos uma medida potencialmente salvadora de vidas.
Vários municípios têm vindo a disponibilizar edifícios públicos climatizados, como bibliotecas e centros recreativos, e, mais recentemente, cidades como Sydney implementaram unidades móveis de arrefecimento para apoiar pessoas em situação de sem-abrigo.
Adaptar cidades a um clima mais quente
A adaptação às alterações climáticas já está em curso, através de iniciativas como a plantação de árvores, mas os investigadores defendem que é necessário ir mais longe. O planeamento urbano deve integrar explicitamente o risco de ondas de calor, garantindo que novos edifícios conseguem manter temperaturas interiores seguras mesmo em caso de falha dos sistemas de ar condicionado. Programas de reabilitação de edifícios antigos são igualmente apontados como uma prioridade.
A Natural Hazards Research Australia está a liderar vários projetos para reforçar a resiliência ao calor extremo, incluindo a avaliação dos sistemas nacionais de alerta, o desenvolvimento de métodos para registar mortalidade em tempo quase real, a análise dos custos totais das ondas de calor e o papel do setor elétrico na redução da vulnerabilidade das comunidades.
Num dia dedicado à sensibilização, a mensagem é clara: as ondas de calor são mortais e custam milhares de milhões. Proteger pessoas e comunidades exige mais conhecimento científico, melhor planeamento e uma preparação mais eficaz para um futuro inevitavelmente mais quente.









