Porque conseguem alguns animais comunicar a quilómetros de distância?

Investigadores analisaram dados de 103 espécies de mamíferos em todo o mundo, reunindo informação de 81 estudos científicos para perceber como evoluíram as chamadas de longa distância.

Redação

Dos rugidos dos leões aos cantos das baleias, os mamíferos desenvolveram ao longo da evolução diferentes estratégias para fazer chegar as suas vocalizações a longas distâncias. Um novo estudo internacional mostra agora que os fatores que explicam esse alcance variam consoante os animais vivem em terra ou no mar.

A investigação foi liderada por cientistas da UNSW Sydney e publicada na revista científica Journal of Mammalian Evolution. Os investigadores analisaram dados de 103 espécies de mamíferos em todo o mundo, reunindo informação de 81 estudos científicos para perceber como evoluíram as chamadas de longa distância.

Segundo o ecólogo evolutivo Ben Walker, principal autor do trabalho, os resultados revelam um padrão claro: em terra, o ambiente desempenha o papel principal na evolução das vocalizações, enquanto no oceano o fator determinante é o tamanho do animal.

Nos mamíferos marinhos, a relação é direta: quanto maior o animal, mais longe o seu som pode viajar. No topo desta escala está a Blue Whale, cujos cantos podem percorrer até 1600 quilómetros em condições ideais. Já espécies muito mais pequenas, como as lontras, têm vocalizações que raramente ultrapassam um quilómetro.

Em terra firme, a realidade é mais complexa. Os investigadores concluíram que o principal fator que influencia o alcance das chamadas é a dimensão do território ocupado pela espécie. Animais com áreas de vida maiores tendem a emitir sons capazes de percorrer distâncias mais longas.

O estudo indica também que o tipo de habitat, a função da vocalização e o comportamento social da espécie influenciam a distância a que o som chega. Chamadas territoriais — usadas para afastar rivais — tendem a viajar mais longe do que outras vocalizações, e espécies sociais conseguem comunicar a distâncias maiores do que animais solitários.

Um resultado inesperado surgiu na comparação entre habitats. Contrariando o que os investigadores esperavam, mamíferos que vivem em ambientes densos, como florestas tropicais, desenvolveram vocalizações que percorrem distâncias relativamente maiores do que espécies de habitats abertos, como savanas.

Os autores sublinham que compreender estes padrões pode ajudar a perceber de que forma as alterações ambientais provocadas pelo ser humano podem afetar a comunicação animal. A destruição de habitats, por exemplo, pode alterar a forma como os sons se propagam, com possíveis consequências para a sobrevivência das espécies.

No mar, mudanças no tamanho corporal de algumas espécies também podem ter impacto. Estudos recentes mostram que a North Atlantic Right Whale diminuiu cerca de 7,3% no comprimento máximo desde 1981, uma alteração que poderá reduzir a distância a que os seus sons conseguem chegar.

Para além de ajudar a compreender a evolução da comunicação animal, os resultados podem ter aplicações práticas na monitorização da biodiversidade. Ao conhecer a distância a que determinadas espécies conseguem ser ouvidas, investigadores e cidadãos podem estimar melhor a localização de animais a partir das suas vocalizações.

É o caso do Lion, cujos rugidos territoriais podem ser ouvidos até cerca de oito quilómetros, enquanto a chamada do Koala raramente ultrapassa 150 metros.

Segundo Ben Walker, esta informação poderá melhorar a interpretação de dados recolhidos por sistemas de monitorização acústica utilizados em programas de conservação. Atualmente existem cerca de 6500 espécies de mamíferos, mas dados sobre vocalizações de longa distância estão disponíveis apenas para pouco mais de uma centena.

Os investigadores esperam agora que o estudo incentive novos trabalhos sobre comunicação animal — incluindo em outros grupos, como as aves, onde existem mais de 11 mil espécies ainda por explorar neste domínio.

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