Povos indígenas e comunidades locais alertam que aves grandes estão a desaparecer em África, na América Latina e na Ásia

A conclusão é de um estudo que, com base na memória coletiva de dez povos indígenas e comunidades locais, revela uma redução de até 72% da massa corporal média das aves que vivem nessas três regiões entre 1940 e 2020.

Filipe Pimentel Rações

As aves que atualmente vivem em muitos territórios em África, na América Latina e na Ásia são, em média, muito mais pequenas do que aquelas que aí abundavam na década de 1940.

A conclusão é de um estudo, publicado recentemente na revista ‘Oryx’, que, com base na memória coletiva de dez povos indígenas e comunidades locais, revela uma redução de até 72% da massa corporal média das espécies de aves que vivem nessas três regiões entre 1940 e 2020.

O trabalho, que foi liderado pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Ambientais da Universidade Autónoma de Barcelona (Espanha), envolveu inquéritos a 1.434 participantes adultos. Foi possível obter testemunhos relativos a 283 espécies de aves, e, daí, comparar as espécies mais frequentemente avistadas pelos participantes durante as suas infâncias e comparar esses dados com as que atualmente vivem nos seus territórios.

A equipa de investigadores diz que os resultados são claros: espécies de aves de maiores dimensões têm vindo a desaparecer progressivamente, sendo substituídas por espécies mais pequenas. Ao passo que na década de 1940 a massa corporal média das espécies de aves reportadas ultrapassava as 1.500 gramas, na década de 2020 já rondava uma média de 535 gramas.

As cinco aves mais mencionadas nos 10 locais de estudo: à esquerda, as espécies mais abundantes no passado; à direita, as espécies mais abundantes atualmente. Entre parênteses, o número de relatos que mencionam a espécie e o peso em gramas. Fotos: Daniel Burgas (A. anser, D. adsimilis, P. pica, P. montanus and S. semitorquata), Joan de la Malla (M. tuberosum, P. jacquacu and P. colchicus), Vedant Kasambe (A. gulgula) and Andrew Bazdyrev (S. paradoxus).

Para Álvaro Fernández-Llamazares, primeiro autor do artigo, essa alteração poderá dever-se a extinções locais de espécies de aves maiores, que são mais vulneráveis à caça, à perda de habitat e a impactos humanos como o desenvolvimento de infraestruturas. Contudo, o investigador diz também que poderá estar relacionada com “transformações sociais profundas” que alteraram a forma como as comunidades locais se relacionam com o ambiente à sua volta, de tal forma que atualmente possam não reparar tanto numas espécies e atentar mais noutras.

A equipa argumenta que esta investigação pretende também destacar a importância do conhecimento próximo e longevo dos povos indígenas e das comunidades locais sobre os mundos não-humanos com os quais vivem há décadas, séculos ou mesmo milénios.

“Defendemos um diálogo respeitoso e equitativo entre os sistemas de conhecimento científico e indígena, reconhecendo o seu valor intrínseco e o seu potencial para fortalecer as políticas de biodiversidade e as práticas de conservação”, salienta Fernández-Llamazares.

Dizem os investigadores que a perda de espécies de aves de maior porte não tem apenas consequências ecológicas, como o desaparecimento de algumas funções fundamentais nos ecossistemas, como a dispersão de sementes, mas também tem implicações culturais, pois muitas dessas aves que estão a desaparecer fazem parte da identidade, da memória e das práticas cultuais de muitas comunidades pelo mundo fora.

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