Nas últimas três décadas, a biomassa de quase 34.000 populações de peixes no hemisfério norte foi reduzida em 19,8% todos os anos por causa do aquecimento prolongado e persistente dos oceanos, sem contar com os impactos de fenómenos de curto-prazo como ondas de calor.
A conclusão é de um estudo publicado recentemente na revista ‘Nature Ecology & Evolution’, realizado por Miguel Araújo, da Universidade de Évora em colaboração com investigadores do Museu Nacional de Ciências Naturais de Espanha e da Universidade Nacional da Colômbia.
Os cientistas dizem que as ondas de calor marinhas, fenómenos cada vez mais frequentes e intensos num planeta em crise ecológica, não afetam todas os peixes da mesma forma, pois há espécies e populações que sofrem, mas há outras que prosperam. Tudo depende do intervalo de temperatura dentro do qual os peixes podem crescer e desenvolver-se melhor. Acima ou abaixo dos limites, a sobrevivência fica em risco.
Quando a temperatura em águas já quentes, como as tropicais, sobe além dos limites de tolerância máxima dos peixes, a biomassa pode cair até 43,4%, explicam os investigadores. Em sentido contrário, as espécies e populações que vivem em águas mais frias, podem, durante uma onda de calor, até prosperar temporariamente com o aumento da temperatura da água, o que faz aumentar a sua biomassa em até 176%. Pode parecer que as ondas de calor até têm um lado positivo, mas os cientistas esclarecem.
“Embora esse aumento repentino da biomassa em águas frias possa parecer uma boa notícia para a pesca, esses aumentos são temporários”, explica Shahar Chaikin, primeiro autor do artigo.
“Se os gestores aumentarem as quotas de pesca com base num aumento de biomassa causado por uma onda de calor, correm o risco de provocar colapsos nos stocks quando as temperaturas voltarem ao normal ou quando o efeito do aquecimento global a longo-prazo se consolidar, porque esses aumentos são pontuais”, avisa.
A equipa considera que o declínio contínuo na produção de biomassa oceânica, causado pelo aumento constante da temperatura, é o fator que mais pressiona atualmente as espécies marinhas.
Aponta Chaikin que, quando se retira da equação os efeitos de eventos extremos de curto-prazo, como ondas de calor, percebe-se que o aquecimento dos oceanos “está associado a um declínio anual sustentado na biomassa de até 19,8%”.
“Ao contrário das flutuações climáticas de curto-prazo, que podem variar drasticamente, esse aquecimento crónico exerce uma pressão negativa constante sobre as populações de peixes no Mar Mediterrâneo, no Oceano Atlântico Norte e no nordeste o Oceano Pacífico”, refere Juan David González Trujillo, segundo autor.
Por seu lado, Miguel Araújo recomenda que “os gestores devem equilibrar cuidadosamente os aumentos localizados com os declínios a longo-prazo para evitar a sobre-exploração”. E avisa que “com o aquecimento contínuo dos oceanos, a única estratégia viável é priorizar a resiliência a longo-prazo” e que “as medidas de gestão devem ter em conta o declínio esperado da biomassa num oceano cada vez mais quente”.









