Reciclar vidro: a circularidade perfeita que nos está a escapar



Portugal vive um momento crucial de transição para uma economia circular e aquilo a que assistimos é um verdadeiro paradoxo que não pode ser ignorado. Se a circularidade da economia é assumidamente uma prioridade estratégica e ambiental, porque é que a reciclagem está abaixo do seu verdadeiro potencial, nomeadamente no que toca às embalagens de vidro?

Este é, comprovadamente, um dos raros materiais que é 100% reciclável e infinitamente reutilizável, capaz de regressar ao mercado exatamente sob a mesma forma, sem perda de qualidade. Poucos materiais oferecem esta garantia de circularidade perfeita! Ainda assim, continuamos a desperdiçá-la.

Cada embalagem de vidro, como as garrafas, que é devolvida ao vidrão transforma-se em matéria-prima secundária, o chamado casco de vidro, para ser reintroduzida no processo de produção de novas garrafas.

As nossas garrafas de cerveja de cor âmbar são um exemplo concreto desta realidade: em 2024, o fabrico de cada uma incorporou, em média, 59% de casco de vidro, permitindo reduzir o uso de matérias-primas virgens e o consumo de energia associado à produção, com a consequente diminuição das emissões de CO₂. Esta percentagem poderia ser significativamente superior, uma vez que Portugal dispõe de capacidade instalada e de infraestruturas industriais preparadas para este processo. O entrave surge antes, numa fase crítica: a devolução e a recolha seletiva.

As metas que o País tem de cumprir e o patamar em que atualmente se encontra tornam esta realidade evidente. Em 2025, Portugal deveria estar a reciclar 70% de todas as embalagens de vidro colocadas no mercado. No entanto, os números ficam aquém desse objetivo. Em 2024, a taxa de retoma rondou os 50%, muito abaixo do estipulado, o que levou o País a solicitar uma derrogação de cinco anos à União Europeia, ajustando temporariamente a meta do vidro em menos 5%, de 70% para 65%.

Este pedido de derrogação é um sinal claro do que está a acontecer: a reciclagem de embalagens de vidro não cresce ao ritmo necessário e os desafios persistem. Apesar do investimento crescente no setor, nomeadamente em inovação tecnológica e em ações de sensibilização, esse esforço ainda não se traduz numa mudança estrutural de comportamentos.

Para os cidadãos, reciclar vidro implica um esforço adicional, desde o armazenamento das garrafas vazias em casa até à sua devolução ao vidrão, um esforço que nem sempre é reconhecido ou valorizado. No canal HORECA, onde o consumo de embalagens de vidro é elevado e diário, os desafios são ainda mais expressivos. Espaços limitados, rotação de staff, tarefas de final do dia, peso das embalagens vazias, ruído para a vizinhança, logística complexa e custos operacionais tornam a devolução do vidro um processo pouco eficiente para muitos estabelecimentos.

O vidro colocado fora do circuito correto perde-se irremediavelmente. Ir “para o lixo” significa, na prática, a deposição em aterro, onde o vidro não se decompõe biologicamente, podendo permanecer durante milhares de anos ou por tempo indeterminado, fragmentando-se sem nunca desaparecer por completo.

Portugal tem condições para fazer melhor. Transformar vidro usado em novas embalagens não é apenas uma obrigação ambiental ou uma meta europeia: é uma oportunidade económica, industrial e climática. Mas para a concretizar, é essencial valorizar o vidro, saber que é produzido à base de matérias-primas naturais, como areia e calcário, ou de embalagens recolhidas seletivamente, e agir para a sua valorização.

Enquanto continuarmos a tratar um recurso infinito como se fosse descartável, continuaremos também a adiar a construção de círculos perfeitos, rumo à circularidade plena.

Porque todos os gestos contam, devolva todas embalagens de vidro, garrafas ou frascos ao vidrão! Não quebre o ciclo!






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