A falta de informação e de confiança continua a travar a adesão dos consumidores portugueses aos produtos recondicionados. “Diria que é uma combinação de ambos os fatores”, afirma Luísa Vasconcelos, Country Manager da Swappie, em entrevista à Green Savers, explicando que “ainda existe uma lacuna de informação sobre o que realmente significa um produto recondicionado, sendo que muitos consumidores o confundem com um dispositivo simplesmente usado”. Ao mesmo tempo, sublinha, “a confiança constrói-se através do conhecimento e da experiência”, num mercado que “ainda se encontra numa fase de maturação” em Portugal.
Apesar disso, os dados revelam uma oportunidade clara de crescimento. À medida que os consumidores compreendem melhor os processos, garantias e vantagens, “a adoção tende a crescer de forma consistente”. A responsável destaca ainda o papel da sensibilização: “Queremos que todos os consumidores compreendam que recondicionar, reutilizar ou reparar dispositivos pode reduzir significativamente o lixo eletrónico que produzimos”, desafiando a ideia enraizada de que “novo é sempre melhor”.
Um em cada dez consumidores portugueses afirma não estar familiarizado com produtos recondicionados e metade nunca comprou um artigo deste tipo. Como interpreta estes dados? Falta informação, confiança ou ambas?
Diria que é uma combinação de ambos os fatores. Por um lado, ainda existe uma lacuna de informação sobre o que realmente significa um produto recondicionado, sendo que muitos consumidores o confundem com um dispositivo simplesmente usado. Por outro, a confiança constrói-se através do conhecimento e da experiência, e o mercado em Portugal ainda se encontra numa fase de maturação no que diz respeito a produtos recondicionados.
Por um lado, ainda existe uma lacuna de informação sobre o que realmente significa um produto recondicionado, sendo que muitos consumidores o confundem com um dispositivo simplesmente usado. Por outro, a confiança constrói-se através do conhecimento e da experiência, e o mercado em Portugal ainda se encontra numa fase de maturação no que diz respeito a produtos recondicionados
Estes números evidenciam sobretudo uma oportunidade: à medida que os consumidores passam a compreender melhor os processos profissionais de recondicionamento, as garantias associadas e os benefícios, – sobretudo económicos e ambientais,- a adoção tende a crescer de forma consistente, como já observámos noutros mercados europeus mais maduros.
A nossa missão passa também por continuar a informar e desmistificar a ideia de que “novo é sempre melhor”. Queremos que todos os consumidores compreendam que recondicionar, reutilizar ou reparar dispositivos pode reduzir significativamente o lixo eletrónico que produzimos.
Que mitos mais persistem em Portugal relativamente aos equipamentos recondicionados, em particular no caso dos smartphones?
Os mitos mais persistentes em Portugal continuam a estar relacionados com a confiança e com a falta de compreensão do processo de recondicionamento. Os três mais comuns são: a ideia de que os dispositivos têm uma vida útil significativamente mais curta; a perceção de que podem esconder defeitos técnicos que surgem pouco tempo após a compra; e a crença de que não oferecem garantias, apoio ou serviço pós-venda comparáveis aos de um produto novo.
Na prática, estas perceções não refletem a realidade do recondicionamento profissional. Um smartphone recondicionado por especialistas passa por um processo técnico rigoroso que inclui dezenas de testes funcionais, um diagnóstico completo de hardware e software, limpeza profunda e substituição de componentes essenciais, como a bateria ou o ecrã, sempre que não cumprem os padrões de qualidade definidos. Só depois de cumprir critérios rigorosos de desempenho e segurança é que o dispositivo regressa ao mercado.
Um smartphone recondicionado por especialistas passa por um processo técnico rigoroso que inclui dezenas de testes funcionais, um diagnóstico completo de hardware e software, limpeza profunda e substituição de componentes essenciais, como a bateria ou o ecrã, sempre que não cumprem os padrões de qualidade definidos. Só depois de cumprir critérios rigorosos de desempenho e segurança é que o dispositivo regressa ao mercado
Quando compram através de empresas especializadas como a Swappie, os consumidores beneficiam também de um enquadramento de compra transparente e seguro, que inclui uma garantia de 24 meses que cobre mais danos e defeitos do que a garantia padrão na compra de um telemóvel novo.
Isto significa que a experiência de compra é cada vez mais semelhante à de um dispositivo novo, mas com a vantagem adicional de um preço mais acessível e de um impacto ambiental significativamente menor.
Num país onde o preço continua a ser um fator decisivo na compra de tecnologia, o argumento financeiro é o principal motor para a escolha de um iPhone recondicionado ou o fator ambiental começa a ganhar peso?
O fator financeiro continua a ser o principal ponto de entrada de muitos consumidores portugueses no mercado de recondicionados. No entanto, temos observado uma evolução clara nas motivações dos clientes, com o argumento ambiental a ganhar relevância, especialmente entre os consumidores mais jovens.
O fator financeiro continua a ser o principal ponto de entrada de muitos consumidores portugueses no mercado de recondicionados
A consciência sobre a economia circular e os benefícios ambientais dos produtos recondicionados está a crescer, juntamente com a procura por opções que não só ofereçam um preço mais acessível, mas que também contribuam para um consumo mais sustentável.
Nesse sentido, o nosso foco passa por contribuir para a redução do lixo eletrónico e, consequentemente, da pegada associada à produção de novos dispositivos. Muitas pessoas começam pela poupança e ficam pela consciência ambiental. Quando percebem que podem ter um dispositivo premium de elevada qualidade enquanto reduzem o impacto ambiental, a proposta torna-se ainda mais forte.”
De que forma é que a Swappie procura aumentar a literacia dos consumidores sobre o que significa, na prática, um equipamento “recondicionado”? Que diferenças existem face a um produto usado vendido entre particulares?
Na Swappie, acreditamos que a literacia do consumidor começa pela clareza naquilo que apresentamos. Ainda existe alguma confusão entre o que é um dispositivo usado e o que é verdadeiramente um dispositivo recondicionado, razão pela qual investimos continuamente em explicar todo o processo de forma simples, transparente e acessível, desde a origem dos dispositivos até aos testes técnicos, critérios de qualidade e garantias associadas.
Quando um smartphone é comprado diretamente a outro utilizador, o consumidor não tem visibilidade sobre o estado real do dispositivo nem acesso a garantias ou apoio técnico em caso de problemas. Com o recondicionamento profissional, existe validação técnica independente, transparência sobre o estado do equipamento, cobertura de garantia, direito de devolução e apoio pós-venda
A diferença em relação às vendas entre particulares reside sobretudo na previsibilidade e na proteção. Quando um smartphone é comprado diretamente a outro utilizador, o consumidor não tem visibilidade sobre o estado real do dispositivo nem acesso a garantias ou apoio técnico em caso de problemas. Com o recondicionamento profissional, existe validação técnica independente, transparência sobre o estado do equipamento, cobertura de garantia, direito de devolução e apoio pós-venda.
O Global E-Waste Monitor 2024 revela que apenas 22,3% do lixo eletrónico mundial é reciclado formalmente. Que papel concreto pode o mercado de recondicionados desempenhar na redução deste problema?
O recondicionamento atua antes da reciclagem e isso é essencial. A forma mais sustentável de gerir um dispositivo eletrónico é prolongar o seu ciclo de vida, mantendo-o em utilização durante o máximo de tempo possível.
Ao reintroduzir no mercado smartphones com vários anos de potencial de utilização, reduz-se a necessidade de produzir novos dispositivos e adia-se a geração de lixo eletrónico
Ao reintroduzir no mercado smartphones com vários anos de potencial de utilização, reduz-se a necessidade de produzir novos dispositivos e adia-se a geração de lixo eletrónico. Além disso, como a maior parte do impacto ambiental de um smartphone ocorre durante o processo de fabrico, cada dispositivo recondicionado significa menos extração de matérias-primas, menor consumo de energia e menos resíduos eletrónicos. Na prática, trata-se de uma solução concreta de economia circular aplicada à tecnologia.
É possível quantificar o impacto ambiental positivo da compra de um smartphone recondicionado face a um equipamento novo, em termos de emissões de CO₂, consumo de matérias-primas ou energia?
Sim, atualmente já é possível quantificar de forma bastante concreta o impacto ambiental positivo de optar por um smartphone recondicionado. Estudos do setor mostram que a grande maioria da pegada de carbono de um smartphone ocorre durante a produção e não durante a sua utilização. Estima-se que o fabrico de um novo dispositivo represente até 95% das emissões totais de CO₂ ao longo do seu ciclo de vida, o que equivale aproximadamente a 80 kg de emissões por dispositivo.
Ao optar por um smartphone recondicionado, os consumidores podem reduzir essas emissões até 78%, precisamente porque evitam a necessidade de fabricar um novo equipamento. Isto representa um impacto ambiental imediato e mensurável, contribuindo diretamente para a redução das emissões associadas ao setor tecnológico
Ao optar por um smartphone recondicionado, os consumidores podem reduzir essas emissões até 78%, precisamente porque evitam a necessidade de fabricar um novo equipamento. Isto representa um impacto ambiental imediato e mensurável, contribuindo diretamente para a redução das emissões associadas ao setor tecnológico.
Para além da pegada de carbono, o benefício estende-se à utilização de recursos naturais. O recondicionamento evita a extração de metais raros e críticos, bem como o elevado consumo de água e energia necessário para produzir novos componentes eletrónicos, processos que têm um impacto ambiental significativo e muitas vezes invisível para o consumidor final.
Segundo um estudo de 2024 da IDC Europe, comprar um smartphone recondicionado pode reduzir o impacto ambiental global até 91% e evitar cerca de 25 kg de emissões de gases com efeito de estufa por ano de utilização. Estes números demonstram que as escolhas individuais dos consumidores podem ter um efeito coletivo significativo, especialmente num contexto em que o setor tecnológico já representa cerca de 3% das emissões globais de carbono.
Num cenário em que o lixo eletrónico continua a crescer a nível mundial, prolongar a vida útil dos dispositivos através do recondicionamento surge como uma das formas mais eficazes de alinhar a inovação tecnológica com a sustentabilidade ambiental.”
Em média, quanto pode poupar um consumidor português ao escolher um iPhone recondicionado? Essa poupança aumentou com a subida dos preços dos dispositivos novos?
Comprar um iPhone recondicionado na Swappie pode representar uma poupança significativa, geralmente entre 25% e 40% em comparação com a compra de um modelo equivalente novo. A percentagem de poupança varia consoante o modelo, o estado estético (como novo, muito bom, aceitável) e a procura. Modelos mais antigos ou com sinais visíveis de uso (“estado aceitável”) oferecem normalmente as maiores poupanças.
Comprar um iPhone recondicionado na Swappie pode representar uma poupança significativa, geralmente entre 25% e 40% em comparação com a compra de um modelo equivalente novo
Com o aumento contínuo dos preços dos smartphones premium, esta diferença tornou-se ainda mais relevante. Atualmente, o recondicionamento permite aceder a tecnologia de topo a preços significativamente mais acessíveis, democratizando o acesso a dispositivos de elevada qualidade.
A confiança continua a ser uma grande barreira na compra de tecnologia recondicionada. Que garantias devem os consumidores exigir antes de fazer este tipo de compra?
A confiança continua a ser um dos principais fatores na decisão de comprar tecnologia recondicionada, pelo que é essencial que os consumidores saibam exatamente que garantias procurar. Em primeiro lugar, é importante assegurar que o dispositivo inclui uma garantia clara e transparente, bem como um período de devolução gratuito que permita testar o produto com tranquilidade.
Além disso, o equipamento deve ter sido sujeito a testes técnicos certificados e disponibilizar informação transparente sobre o seu estado. Igualmente importante é a existência de apoio ao cliente acessível e eficaz, capaz de responder rapidamente a quaisquer dúvidas ou necessidades após a compra.”
Considera que as políticas públicas em Portugal e na União Europeia estão a incentivar suficientemente a economia circular no setor tecnológico? O que poderia ser feito para acelerar esta transição?
No início de 2026, as políticas públicas em Portugal e na União Europeia tiveram uma fase de transição ambiciosa, caracterizada por fortes ambições regulatórias, mas ainda com lacunas significativas na implementação. Embora a UE pretenda duplicar a sua taxa de circularidade para 24% até 2030, o progresso real continua lento, como demonstram as taxas de reciclagem de lixo eletrónico, que permanecem bastante abaixo das metas inicialmente definidas.
Em Portugal, planos nacionais como o Plano de Ação para a Economia Circular 2030 estão alinhados com os objetivos europeus. No entanto, o país continua a enfrentar desafios na execução prática, com a geração de resíduos a crescer historicamente mais rápido do que o PIB
Em Portugal, planos nacionais como o Plano de Ação para a Economia Circular 2030 estão alinhados com os objetivos europeus. No entanto, o país continua a enfrentar desafios na execução prática, com a geração de resíduos a crescer historicamente mais rápido do que o PIB. Isto sugere que, apesar de as políticas incentivarem a circularidade, continuam a existir barreiras de mercado que dificultam uma transição plena para produtos tecnológicos circulares.
Para acelerar esta transição, estão previstas várias ações estratégicas, incluindo o futuro Ato Europeu da Economia Circular de 2026, que pretende criar um Mercado Único para matérias-primas secundárias. Facilitadores técnicos importantes, como o Passaporte Digital de Produto (Digital Product Passport), cuja implementação está prevista entre 2027 e 2030, deverão também capacitar os consumidores ao disponibilizar dados transparentes sobre durabilidade e reparabilidade dos produtos.
A reparabilidade e a durabilidade dos dispositivos são hoje temas centrais no debate europeu. Como avalia a evolução da indústria tecnológica nesta área?
A União Europeia deu passos importantes na promoção da economia circular no setor tecnológico, nomeadamente ao reforçar a reparabilidade de smartphones e tablets e o direito à reparação dos consumidores. Estas iniciativas representam mudanças estruturais significativas, procurando garantir que os dispositivos são concebidos tendo a reparação em mente e que os consumidores têm mais oportunidades de reparar os equipamentos durante o seu período de utilização, prolongando a vida útil dos dispositivos e reduzindo a necessidade de substituição precoce.
Ainda existe margem para acelerar a transição para padrões de consumo mais sustentáveis. Medidas complementares como incentivos fiscais para produtos recondicionados, campanhas de sensibilização pública que esclareçam as alternativas circulares e a integração de critérios de sustentabilidade nos contratos de contratação pública, poderiam impulsionar significativamente a adoção da economia circular
No entanto, ainda existe margem para acelerar a transição para padrões de consumo mais sustentáveis. Medidas complementares como incentivos fiscais para produtos recondicionados, campanhas de sensibilização pública que esclareçam as alternativas circulares e a integração de critérios de sustentabilidade nos contratos de contratação pública, poderiam impulsionar significativamente a adoção da economia circular. Estas ações ajudariam a normalizar os produtos recondicionados como uma escolha padrão, ao mesmo tempo que alinham objetivos ambientais com benefícios económicos tangíveis para consumidores e organizações.”
Nota uma mudança geracional na forma como os portugueses encaram o consumo de tecnologia e o ciclo de vida dos smartphones?
Sim, claramente. As gerações mais jovens abordam a tecnologia de forma mais pragmática: valorizam o desempenho e a experiência, mas questionam cada vez mais o impacto ambiental das suas escolhas.
Existe uma maior aceitação de modelos de consumo circulares, como o recondicionamento, o aluguer ou a revenda, o que reflete uma mudança cultural importante na relação com a tecnologia
Existe uma maior aceitação de modelos de consumo circulares, como o recondicionamento, o aluguer ou a revenda, o que reflete uma mudança cultural importante na relação com a tecnologia.
Quais são os objetivos da Swappie para o mercado português nos próximos anos e que papel espera que Portugal desempenhe na estratégia europeia da empresa?
Portugal representa um mercado estratégico para a Swappie, com um potencial de crescimento muito elevado. Nos próximos anos, o nosso objetivo é claro: aumentar significativamente a adoção de iPhones recondicionados, reforçar a confiança dos consumidores na qualidade e fiabilidade destes dispositivos e estabelecer o recondicionamento como uma escolha natural e amplamente adotada no país.
No ano passado, demos um passo importante ao expandir a nossa gama de produtos recondicionados para incluir iPads, recentemente começámos a incluir AirPods e continuamos a explorar oportunidades para alargar a oferta a outros dispositivos tecnológicos, mantendo sempre os mesmos padrões de qualidade e sustentabilidade.
Para alcançar este objetivo, continuaremos a investir na literacia dos consumidores sobre produtos recondicionados, na transparência do processo de recondicionamento e em experiências de compra simples, seguras e confiáveis. Esperamos que Portugal acompanhe de perto a evolução de mercados europeus mais maduros, assumindo um papel relevante ao demonstrar que tecnologia acessível, inovação e sustentabilidade podem coexistir de forma prática no dia a dia.”









