As ilhas cobrem menos de 7% da superfície da Terra, mas albergam uma enorme diversidade de formas de vida.
No que toca aos répteis, das cerca de 12.000 espécies conhecidas atualmente, algo como um terço desse total está confinado às ilhas e não ocorre naturalmente em mais lado algum. Pense-se, por exemplo, no dragão-de-komodo (Varanus komodoensis), que só existe numas poucas ilhas indonésias, ou na tartaruga-das-galápagos (Chelonoidis nigra) que, como o nome indica, apenas é encontrada nas Galápagos.
Isolados do resto do mundo, esses ecossistemas insulares são autênticos laboratórios vivos onde a evolução segue o seu próprio rumo, dando origem a espécies peculiares e únicas. No entanto, esses são também ecossistemas altamente ameaçados, estando os répteis que deles fazem parte em especial perigo.
Num artigo publicado em novembro na revista ‘Conservation Science and Practice’, coordenado por Sara Nunes, do centro de investigação CIBIO da Universidade do Porto, e por Ricardo Rocha, da Universidade de Oxford, é revelado que 30% das espécies de répteis endémicas das ilhas estão ameaçadas de extinção. Comparativamente, estima-se que 12,1% de todas as espécies de répteis a nível mundial enfrentam esse risco.
Apesar disso, os autores salientam que esses animais são muito pouco estudados. Desde a década de 1960, que apenas 6,7% de todos os artigos científicos publicados sobre répteis se dedicaram ao estudo das espécies insulares.
Em comunicado, Ricardo Rocha, principal coautor do estudo, lembra que os répteis são espécies fundamentais dos ecossistemas das ilhas, controlando as populações de insetos dos quais se alimentam, polinizando plantas e comendo fruto e dispersando as suas sementes. “Se os répteis insulares desaparecessem, isso poderia ter um impacto enorme em muitas outras espécies”, acautela.
Porque evoluíram em ambientes relativamente isolados e sem mamíferos predadores, esses répteis, tal como outros grupos de animais, não desenvolveram as defesas necessárias para conseguirem lidar com essa pressão. Os investigadores indicam que predadores introduzidos, como gatos, estão a empurrar muitos répteis para o limiar da extinção.
Através da análise de todo o conhecimento científico sobre répteis publicado entre 1960 e 2021, a equipa percebeu que espécies maiores e mais difundidas tendem a receber maior atenção por parte dos cientistas, ao passo que espécies mais pequenas, que tenham sido recentemente descritas ou que vivam em regiões a grande altitude continuam a ser amplamente ignoradas.
“Muitos dos répteis mais notáveis do mundo – aqueles que evoluíram isolados nas ilhas – são os menos conhecidos”, diz, citada em nota, Sara Nunes, primeira autora do artigo.
“Esta lacuna no conhecimento é especialmente preocupante porque essas espécies frequentemente têm pequenas áreas de distribuição e enfrentam pressões humanas intensas”, assevera a investigadora portuguesa.
As razões para essa falta de atenção ou de interesse por parte dos cientistas relativamente aos répteis insulares deve-se, segundo os autores, à dificuldade de acesso a muitas ilhas, a vieses a favor de espécies mais carismáticas ou medicamente relevantes (por exemplo, o veneno de alguns répteis é usado no desenvolvimento de novas terapêuticas), e, claro, a falta de financiamento. Criticam estes autores que, nos países mais ricos, “o investimento pode estar mais focado em infraestruturas turísticas do que na ciência da biodiversidade”.
Para sanar esses problemas, são avançadas algumas sugestões, como dar prioridade ao estudo de répteis insulares, especialmente aos que estão em risco de extinção ou sobre os quais pouco ou nada de saiba, promover a colaboração entre instituições nacionais e comunidade insulares, e dar uma maior relevância a estudos publicados noutras línguas que não o inglês para ser possível ampliar o leque de fontes de informação e de conhecimento sobre os répteis.
“À medida que a crise da biodiversidade se agrava”, diz Rocha, “compreender e proteger os répteis insulares é mais urgente do que nunca”, e acrescenta que “foca esforços científicos e de conservação onde eles são mais precisos – como nas ilhas e nas suas espécies únicas de répteis – é essencial para se evitarem perdas irreversíveis”.









