Ruído do tráfego junta-se ao desbaste de terrenos como ameaça à sobrevivência das aves na Austrália

Um novo estudo conduzido pela Flinders University alerta para mais uma fonte de pressão sobre uma das aves canoras mais raras do sul da Austrália: o Stipiturus malachurus, uma espécie ameaçada.

Redação

Da agricultura à expansão urbana, passando pela perda de habitat e pela predação de animais selvagens por espécies invasoras, a fauna nativa australiana enfrenta uma crescente onda de ameaças causadas pela atividade humana. Agora, um novo estudo conduzido pela Flinders University alerta para mais uma fonte de pressão sobre uma das aves canoras mais raras do sul da Austrália: o Stipiturus malachurus, uma espécie ameaçada.

“O ruído antropogénico — ou seja, o ruído causado por atividades humanas — pode ter impactos negativos na vida selvagem, perturbando a comunicação e reduzindo a capacidade geral de sobrevivência. Isto inclui o efeito do ruído do tráfego e de outros sons intensos no comportamento de sinalização desta ave, que é particularmente sedentária e territorial”, explica Julian Behrens, doutorando do BirdLab da Flinders University.

No âmbito da sua investigação, Behrens estudou a defesa territorial e as respostas ao ruído do tráfego — incluindo variações nas características do canto — em quatro subespécies de Stipiturus malachurus, desde perto de Adelaide, até regiões mais remotas como o Coorong, a Península de Eyre e a Ilha Kangaroo.

“Os nossos resultados reforçam a evidência de que o comportamento de defesa territorial das aves canoras pode ser alterado mesmo por curtos períodos de exposição ao ruído do tráfego”, explica o investigador, da Faculdade de Ciência e Engenharia da universidade.

A investigadora Diane Colombelli-Négrel, professora sénior em comportamento animal e diretora do grupo de investigação BirdLab, sublinha que o estudo contribui com dados importantes para a conservação de espécies raras e ameaçadas.

“O ruído do tráfego não afeta apenas a comunicação entre aves para fins de acasalamento — também influencia a forma como defendem os seus territórios. Mudanças na perceção e nas respostas comportamentais podem ter impacto direto na capacidade de manter o território”, observa.

Investigação paralela nas Ilhas Galápagos

Enquanto isso, a Professora Sonia Kleindorfer, coautora sénior do estudo, tem vindo a expandir a sua longa investigação sobre aves nas Ilhas Galápagos, classificadas como Património Mundial. A investigadora analisou recentemente como a abundância e diversidade de insetos, aranhas, formigas, vermes e outros invertebrados variam entre áreas do parque nacional e zonas agrícolas.

Os resultados são preocupantes: o uso intensivo do solo, aliado às alterações climáticas, está associado a uma redução de 50% na abundância de invertebrados e a uma diminuição de 27% na diversidade de espécies. Estudos anteriores já indicavam que as ilhas mais remotas, embora ricas em biodiversidade, registam também o maior número de extinções a nível mundial.

Fundadora do BirdLab e atualmente diretora do Konrad Lorenz Research Center, na Universidade de Viena, a Professora Kleindorfer tem dedicado décadas ao estudo das aves nativas australianas e das Galápagos, investigando os efeitos das espécies invasoras, das doenças e dos parasitas nestas populações vulneráveis.

O artigo mais recente, publicado na revista Journal of Insect Conservation, foi liderado por Lauren Common, investigadora de pós-doutoramento na Universidade de Viena e doutorada pela Flinders University. A equipa, que incluiu especialistas da Charles Darwin Foundation e outras instituições, recolheu 15.437 espécimes pertencentes a 17 ordens, através de 320 amostras recolhidas na Ilha Floreana, nas Galápagos.

“A estrutura das comunidades de invertebrados, bem como a sua abundância e diversidade, diferem claramente entre terrenos agrícolas e áreas protegidas, o que revela mais uma prioridade para a gestão da conservação”, afirmou Common.

A Professora Kleindorfer acrescenta que esta análise estabelece uma linha de base fundamental para comparar ecossistemas protegidos e terrenos agrícolas modificados pela ação humana.

“O estudo permite também avaliar o impacto das ações de restauro ecológico em curso na Ilha Floreana, que incluem a erradicação de espécies invasoras e a reintrodução de espécies localmente extintas”, conclui.

Partilhe este artigo


Nova Edição

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.