Sedimentos ao largo da costa portuguesa desvendam mudanças climáticas rápidas dos últimos milhões de anos

A equipa de dezenas de cientistas, incluindo do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) e do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, embarcou no que é descrito como “uma campanha científica rara e de grande escala”.

Redação

Uma investigação internacional usou sedimentos recolhidos ao largo de Sines, na chamada Margem Ibérica Atlântica, para revelar quando e como começaram as rápidas mudanças climáticas que marcaram os últimos milhões de anos da história da Terra.

A equipa de dezenas de cientistas, incluindo do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) e do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, embarcou no que é descrito como “uma campanha científica rara e de grande escala”. Os sedimentos foram recolhidos numa zona conhecida como Montanha dos Príncipes de Avis, um local reconhecido pela sua capacidade de registar variações climáticas com grande detalhe temporal.

Os investigadores explicam que, ao passo que os núcleos de gelo da Gronelândia e da Antártida registam essas variações apenas até cerca de 800 mil anos, os sedimentos da Margem Ibérica possibilitam reconstruí-las muito mais atrás no tempo, até ao início do Pleistocénico.

“A estreita plataforma continental portuguesa permite que o material terrestre chegue rapidamente ao oceano profundo, tornando esta margem num dos poucos locais do mundo onde é possível estabelecer uma ligação detalhada entre os registos marinhos, continentais e de gelo”, detalha Fátima Abrantes, investigadora do CCMAR e segunda autora do artigo que dá conta da descoberta, publicado na revista ‘Science‘.

Ao analisarem os sedimentos obtidos, percebeu-se que “o início da glaciação extensa no Hemisfério Norte, há cerca de 2,7 milhões de anos, coincidiu com o surgimento das primeiras oscilações climáticas rápidas, conhecidas como variabilidade climática milenar”, avança o CCMAR em comunicado.

Até agora, os cientistas sabiam que os grandes mantos de gelo começaram a expandir-se no hemisfério norte há cerca de 2,7 milhões de anos e que, durante os ciclos glaciais mais recentes, o clima sofreu mudanças abruptas e rápidas. Por isso, o que queriam saber era se essas oscilações estavam relacionadas com o crescimento dos mantos de gelo. Este estudo mostra que os primeiros sinais de variabilidade climática milenar surgiram precisamente no início dessa glaciação.

Para identificar sinais de instabilidade climática associados à presença de detritos transportados por icebergues no Atlântico Norte, a equipa recorreu a análises geoquímicas de alta resolução, incluindo fluorescência de raios X, um elemento-chave do estudo. Esta análise permitiu identificar variações químicas muito subtis nos sedimentos e, assim, reconstruir alterações ambientais ocorridas há milhões de anos com grande precisão.

Os resultados indicam que, a partir desse momento, estas oscilações rápidas passaram a repetir-se de forma sistemática durante os períodos glaciais, tornando-se uma característica central do clima do Quaternário.

“Ao libertarem grandes volumes de gelo e água doce, estes sistemas alteravam a circulação oceânica e o transporte de calor, desencadeando respostas climáticas rápidas e abruptas”, explicam os investigadores.

A equipa considera que este trabalho reforça a importância da Margem Ibérica (e do trabalho desenvolvido por instituições portuguesas) como um dos poucos contextos no mundo capazes de estabelecer uma ligação detalhada entre registos marinhos, continentais e de gelo polar, contribuindo de forma decisiva para a compreensão do funcionamento do sistema climático da Terra.

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