Serpentes marinhas que se alimentam no fundo do mar fazem movimentos curiosos

Investigadores registaram pela primeira vez, com grande detalhe, o comportamento de mergulho de duas espécies de serpentes marinhas que se alimentam no fundo do mar, tendo descoberto que uma delas realiza um curioso movimento ondulante enquanto se desloca debaixo de água.

Redação

Investigadores registaram pela primeira vez, com grande detalhe, o comportamento de mergulho de duas espécies de serpentes marinhas que se alimentam no fundo do mar, tendo descoberto que uma delas realiza um curioso movimento ondulante enquanto se desloca debaixo de água.

“Apesar de viverem toda a sua vida no mar, as serpentes marinhas — tal como as focas ou as tartarugas — não conseguem respirar debaixo de água”, explica Shannon Coppersmith, doutoranda da Universidade de Adelaide e autora principal do estudo.

“Para as espécies bentónicas, que se alimentam junto ao fundo, a distância entre a zona onde procuram alimento e a superfície, onde precisam de vir respirar, representa um desafio diário”, acrescenta.

O estudo identificou dois tipos distintos de mergulho: os mergulhos em U, nos quais as serpentes permanecem maioritariamente junto ao fundo, e os mergulhos em S, que combinam uma breve permanência no fundo com uma subida gradual em várias etapas. Quando representados graficamente, estes últimos formam uma linha que se assemelha a uma onda.

Até agora, apenas se conheciam mergulhos em S na serpente-marinha-de-barriga-amarela (Hydrophis platurus), uma espécie excecional por viver em mar aberto e alimentar-se à superfície.
Por contraste, todas as outras espécies do género Hydrophis — e as do género próximo Aipysurus — são forrageadoras costeiras, alimentando-se no fundo marinho.

O novo estudo, publicado na revista Movement Ecology, incidiu em duas dessas espécies costeiras: Hydrophis stokesii e Hydrophis major, cujo comportamento de mergulho nunca tinha sido documentado.

“Diferentemente da H. platurus, as espécies costeiras enfrentam o desafio adicional de procurar alimento submersas. Queríamos perceber se realizavam mergulhos semelhantes e, em caso afirmativo, qual seria a razão”, explica Coppersmith.

“Durante os mergulhos em U — que não ocorrem em H. platurus — estas serpentes parecem passar a maior parte do tempo a repousar no fundo”, adianta.

Já nas subidas graduais dos mergulhos em S, o movimento poderá estar relacionado com gradientes de temperatura ou correntes subsuperficiais. Dado que percorrem longas distâncias horizontais nesta fase, sugerimos que esse padrão facilita uma deslocação eficiente entre habitats, possivelmente através de um deslizamento passivo em flutuabilidade neutra.”

Deslocar-se a cerca de seis metros acima do fundo poderá ainda permitir às serpentes moverem-se sem obstáculos por entre habitats fragmentados ou estruturas de recife que dificultariam a progressão junto ao solo marinho.

Quanto aos movimentos ondulantes observados, Coppersmith admite várias hipóteses:
“Essas oscilações, observadas em H. stokesii, poderão ajudar no controlo da flutuabilidade, na poupança de energia ou até na procura de alimento. Será interessante verificar se outros estudos encontram comportamentos semelhantes noutras espécies”, explica.

A equipa utilizou telemetria acústica para acompanhar as atividades diárias de cinco indivíduos, localizados no Golfo de Exmouth (Austrália Ocidental) e na Baía dos Citrinos (Nova Caledónia), criando percursos tridimensionais de mergulho para cada serpente.

Coppersmith sublinha a importância deste tipo de investigação para a conservação das serpentes marinhas:

“São animais discretos, imprevisíveis e venenosos, o que torna o seu estudo particularmente desafiante.
A nossa investigação contribui para compreender melhor as suas estratégias de mergulho, oferecendo novas perspetivas sobre a ecologia, a fisiologia e a conservação destas espécies”, conclui.

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