A plantação de árvores e a reflorestação são consideradas essenciais para travar a perda de biodiversidade e combater as alterações climáticas. Quando crescem, restauram habitats que tinham sido destruídos ou degradados e absorvem e aprisionam dióxido de carbono da atmosfera.
Essas ações são populares também entre organizações, como as empresas, que tentam compensar as suas emissões de carbono. Críticos dizem que a plantação de árvores é um paliativo e que não substitui cortes efetivos nas emissões, e que muitas vezes esses projetos são meros atos de relações públicas e servem para que as empresas possam continuar a lançar na atmosfera gases com efeito de estufa porque depois compensam noutro lado.
Além disso, para que sejam eficazes, esse tipo de projetos de sequestro de carbono exige grandes áreas e pode, por isso, ter grandes impactos na biodiversidade, especialmente se implicar a plantação de florestas onde antes não existiam e destruírem os habitats que lá estavam, como pradarias naturais.
Num estudo publicado este ano na revista ‘Nature Climate Change’, uma equipa de investigadores coordenada pelo Instituto Potsdam para a Investigação sobre o Impacto Climático (PIK) usam modelos de previsão climática para tentarem perceber onde é que projetos de sequestro de carbono “intensivos” em termos de ocupação do solo poderão vir a ser implementados no futuro para limitar o aquecimento do planeta a 1,5 graus Celsius, em linha com o Acordo de Paris.
Em cenários ambiciosos de redução de emissões, em eu o aquecimento global volta aos 1,5 graus até 2100 depois de ter temporariamente ultrapassado esse limite, até 13% das áreas alocadas a projetos de sequestro de carbono sobrepor-se-iam a locais de importância para a biodiversidade.
Os cientistas dizem que essa sobreposição não implica necessariamente a perda de habitats e um risco para a biodiversidade, tudo depende da forma como os projetos de sequestro forem implementados. Contudo, dizem que algumas espécies são altamente sensíveis à perturbação humana, pelo que não os possíveis impactos não deixam de gerar preocupação.
Por isso, a equipa argumenta que é crucial escolher cuidadosamente os locais onde os projetos de sequestro de carbono são implementados.
“À medida que o mundo aquece, deveríamos responder reduzindo as emissões o mais rapidamente possível, mas também vamos precisar de aumentar a remoção de carbono”, explica Ruben Prütz, primeiro autor do estudo.
O investigador diz que os projetos de remoção de carbono para que se consiga ter um aquecimento global de 1,5 graus até ao final do século poderão, segundo as previsões deste grupo, “invadir as áreas que protegem a biodiversidade dos danos causados por um mundo mais quente”. Como tal, “a seleção cuidadosa dos locais para o sequestro de carbono é crucial para evitar resultados negativos para a biodiversidade”.
Se a componente da biodiversidade não for tida em conta nos esforços de combate às alterações climáticas, estaremos apenas a trocar um mal por outro.
Os cientistas apontam ainda que o aumento da área usada em projetos de sequestro de carbono pode também colidir com metas internacionais para a biodiversidade. O Acordo Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, datado de 2022, estipula o fim da perda de áreas de grande importância para a biodiversidade até 2030. A expansão descuidada dos projetos de sequestro de carbono pode deitar isso por terra.
Por outro lado, caso se equilibre clima e biodiversidade no planeamento de projetos de sequestro de carbono, é possível que ambos possam beneficiar, ainda que isso dependa da capacidade que os ecossistemas tenham para recuperar dos efeitos das alterações climáticas.
Esta equipa reconhece que tecnologias como a captura direta de carbono do ar e o seu armazenamento podem complementar as soluções baseadas em plantação e atenuar a competição por espaço com a biodiversidade, mas essas tecnologias ainda estão em desenvolvimento e são muito mais caras.
“Temos de reconhecer que a nossa contínua utilização de combustíveis fósseis está tanto a castigar-nos, à medida que sofreremos com eventos extremos e outros impactos climáticos, como a reduzir as ferramentas que temos para implementar soluções”, acautela Prütz.









