Tubarões-brancos nem sempre fogem das orcas

A investigação analisou 12 anos de dados de telemetria acústica e registos de observação recolhidos no âmbito do turismo de vida selvagem nas Ilhas Neptune, no sul da Austrália.

Redação

A presença de orcas pode levar à saída imediata de tubarões-brancos de determinadas zonas costeiras, mas as ausências prolongadas destes predadores não são necessariamente causadas por ataques de orcas. A conclusão é de um novo estudo liderado pela Flinders University, na Austrália.

A investigação analisou 12 anos de dados de telemetria acústica e registos de observação recolhidos no âmbito do turismo de vida selvagem nas Ilhas Neptune, no sul da Austrália. Os resultados indicam que o desaparecimento prolongado de tubarões-brancos após um episódio de predação em 2015 dificilmente pode ser explicado apenas pela presença de orcas.

Ataque amplamente divulgado em 2015

A 2 de fevereiro de 2015, cerca de seis orcas (Orcinus orca) foram observadas a atacar e matar um tubarão-branco (Carcharodon carcharias) a escassos 20 metros de uma embarcação de mergulho em jaula, no Neptune Islands Group Marine Park, na Austrália do Sul.

Segundo os relatos, três orcas terão cercado o tubarão, limitando os seus movimentos, enquanto outras o atingiam com a cabeça. O animal acabou por desaparecer sob a superfície, surgindo pouco depois uma mancha oleosa na água, indicativa de predação bem-sucedida.

O episódio foi amplamente divulgado e seguido por uma ausência de tubarões-brancos na zona durante cerca de dois meses. Na altura, essa ausência foi atribuída à ação das orcas, à semelhança do que já tinha sido descrito na África do Sul.

Ausências prolongadas fazem parte do padrão natural

No entanto, o novo estudo, publicado na revista científica Wildlife Research, conclui que estas ausências prolongadas fazem parte da variabilidade natural do padrão de residência dos tubarões-brancos.

Ao longo dos 12 anos analisados, os investigadores registaram seis ausências superiores a 42 dias — e apenas uma coincidiu com a presença de orcas. A ausência mais longa foi, aliás, superior à de 2015 e ocorreu sem qualquer registo de orcas na área.

“Os nossos resultados mostram que as orcas podem desencadear uma resposta imediata dos tubarões-brancos, mas não explicam necessariamente desaparecimentos prolongados”, afirma Isabella Reeves, investigadora associada ao Southern Shark Ecology Group da Flinders University.

O estudo revela ainda que nem todos os encontros com orcas resultam em ausências prolongadas. Uma observação de orcas em outubro de 2024 levou a uma ausência de apenas cinco dias. Já a morte de um tubarão-branco marcado — que poderia libertar sinais químicos associados à decomposição — resultou numa ausência de apenas quatro dias.

Importância da monitorização a longo prazo

Segundo os autores, os padrões de permanência dos tubarões-brancos nas Ilhas Neptune são altamente variáveis. Assim, períodos prolongados sem avistamentos podem ocorrer mesmo na ausência de orcas ou de eventos de predação.

Para a equipa, os resultados sublinham a importância da monitorização de longo prazo para compreender os movimentos e a fidelidade destes predadores aos seus locais de agregação, desafiando a ideia de que as orcas são sempre — ou exclusivamente — responsáveis pelo afastamento prolongado dos tubarões-brancos.

O artigo científico, intitulado Absence or Avoidance? White shark response to killer whale predation risk, foi publicado em 2026.

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