Ultrassons podem ajudar a salvar ouriços-cacheiros de atropelamentos

O atropelamento é uma das principais causas de morte dos ouriços-cacheiros. No Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, de 2023, é apontado que “o ouriço-cacheiro é suscetível a atropelamento nas estradas com alguma frequência, sobretudo durante a primavera e o verão, períodos em que são maios ativos”.

Filipe Pimentel Rações

Os ouriços-cacheiros (Erinaceus europaeus) são dos animais mais emblemáticos da fauna europeia, mas as suas populações estão em declínio. Em 2024, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) agravou a classificação da espécie para “Quase Ameaçada”.

O atropelamento é uma das principais causas de morte dos ouriços-cacheiros. Estima-se que, todos os anos, até 335 mil morram atropelados no Reino Unido e até 340 mil nos Países Baixos. No Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, de 2023, é apontado que “o ouriço-cacheiro é suscetível a atropelamento nas estradas com alguma frequência, sobretudo durante a primavera e o verão, períodos em que são maios ativos”.

Na mesma publicação é avançado que, por exemplo, em Évora estima-se uma média anual de quase três ouriços-cacheiros atropelados por cada quilómetro, durante um período de monitorização de 12 anos. Apesar de os especialistas sugerirem que a morte por colisão com veículos pode contribuir para o declínio da espécie, “desconhece-se o impacto dos atropelamentos no tamanho das populações em Portugal”.

Seja como for, e embora haja outros fatores de ameaça, como a poluição, destruição de habitat e o uso de pesticidas, o atropelamento está a pressionar os ouriços-cacheiros em várias regiões. Precisamente para atenuar esses impactos, uma equipa de cientistas estudou a audição desses pequenos mamíferos espinhosos e concluiu que usar ultrassons nas estradas pode reduzir o número de animais atropelados.

Num artigo publicado recentemente na revista ‘Biology Letters’, revelam que esses animais conseguem ouvir ultrassons, algo que está agora não se sabia ao certo.

“Tendo descoberto que os ouriços-cacheiros conseguem ouvir ultrassons, o próximo passo será encontrar parceiros na indústria automóvel para financiar e conceber repelentes sonoros para os carros”, explica, em nota, Sophie Lund Rasmussen, das universidades de Oxford e Copenhaga e primeira autora do estudo.

“Se investigações futuras mostrarem que é possível criar um dispositivo eficaz para manter os ouriços-cacheiros afastados dos carros, isto pode ter um impacto significativo na redução da ameaça do tráfego rodoviário no declínio” da espécie, assevera.

O trabalho envolveu o teste da audição de 20 ouriços-cacheiros em centros de recuperação de fauna selvagem na Dinamarca, colocando pequenos elétrodos nos animais para registar sinais elétricos que viajam do ouvido interno até ao cérebro. Com base nos resultados obtidos, confirmou-se que esses mamíferos conseguem ouvir sons acima dos 20 quilohertz, frequência mínima dos ultrassons, e até aos 85 quilohertz.

Os cientistas estão confiantes de que é possível criar dispositivos de ultrassons que afastem os ouriços-cacheiros das estradas, mas que não afetem humanos ou outros animais, como cães e gatos. Se esses aparelhos se revelarem eficazes, podem ser usados não só para reduzir as mortes por atropelamento, mas também por corta-relvas e roçadouras elétricos.

“É especialmente entusiasmante quando uma investigação motivada pela conservação leva a uma nova descoberta fundamental sobre a biologia de uma espécie que, por sua vez, oferece uma nova vida para a conservação”, afirma David Macdonald, coautor do estudo.

Para o cientista, agora a “grande questão” é saber se os ouriços-cacheiros respondem aos ultrassons de forma a reduzir os riscos de colisão com carros e outras máquinas potencialmente fatais.

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