A organização ambientalista WWF Portugal vai investir 1,8 milhões de euros no restauro da natureza até 2030, anunciou hoje, alertando para o fraco investimento do Estado no restauro e na adaptação às alterações climáticas.
Inserida numa iniciativa chamada Re-Store Portugal, a mobilização de fundos destina-se nomeadamente ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, à Serra do Caldeirão e ao Estuário do Tejo, o que vai contribuir para a meta europeia de recuperar 20% das áreas degradadas até 2030, assegura a organização.
O anúncio foi feito no âmbito do primeiro aniversário do escritório nacional da WWF, com origem na internacional “World Wide Fund for Nature” uma das mais conhecidas organizações ambientalistas.
É também hoje divulgado um relatório da organização, sobre o trabalho de 2025, no qual a direção recorda que a crise da natureza e do clima estão “profundamente interligadas” e que, segundo o último relatório da internacional WWF, as populações da vida selvagem monitorizadas diminuíram, em média, 73% desde 1970.
Estes dados são “alertas claros de que estamos a conduzir os sistemas naturais para limites perigosos e irreversíveis”, afirma a WWF Portugal no documento, a que a Lusa teve acesso.
“Acelerar a conservação da natureza e o restauro ecológico, reforçar a resiliência do território e integrar a natureza nas decisões públicas e privadas: é este o caminho para conseguir resultados mensuráveis e construir, com parceiros e comunidades, um futuro em que as pessoas vivam em harmonia com a natureza”, diz citada num comunicado Ângela Morgado, diretora executiva da WWF Portugal.
A organização recorda as sucessivas tempestades deste ano, com danos significativos, e diz que são “fenómenos que já não podem ser considerados excecionais”.
“A ciência é clara: o aquecimento global trouxe eventos extremos que são cada vez mais intensos, colocando Portugal – um dos países europeus mais vulneráveis às alterações climáticas – perante um novo normal climático”, alerta a WWF no comunicado, no qual também avisa que o país “continua a investir abaixo do necessário” em restauro da natureza e adaptação climática e, “consequentemente, na prevenção estrutural de riscos”.
O restauro da natureza, garante a organização, é uma das soluções “mais eficazes, custo-eficientes e duradouras” para aumentar a resiliência do território.
Restaurar rios, zonas húmidas, florestas autóctones e ecossistemas costeiros não é apenas uma medida ambiental, é uma estratégia de proteção civil, segurança hídrica, saúde pública e estabilidade económica, refere.
Citando dados da Comissão Europeia, acrescenta que cada euro investido em restauro da natureza pode gerar retorno em benefícios socioeconómicos entre oito e 38 euros.
Até 2030 a WWF Portugal, segundo a estratégia de conservação agora apresentada, terá como prioridades o restauro de ecossistemas, conservação de espécies, sistemas alimentares sustentáveis, clima, as pessoas, e “elevar a natureza nas decisões públicas e privadas”.
Na prática, as prioridades aplicam-se no incentivo à prevenção estrutural de incêndios em paisagens florestais, recuperação de solos e melhoria do estado ecológico dos rios, promoção do pastoreio, plantação de espécies autóctones e controlo de invasoras, remoção de barreiras fluviais obsoletas e reabilitação de margens ribeirinhas.
Nos ecossistemas costeiros e marinhos será feito o restauro de sapais e pradarias marinhas, o desenvolvimento responsável do mercado voluntário de carbono azul, e a defesa de áreas marinhas protegidas eficazmente geridas e monitorizadas.
A WWF Portugal quer também travar o declínio do lobo-ibérico e a recuperação do lince-ibérico e do coelho bravo, e no mar a proteção de tubarões e raias.
Nos sistemas alimentares sustentáveis, o foco vai para melhores práticas agrícolas, promoção de dietas sustentáveis, com mais proteína vegetal, e pescas de baixo impacto.
A WWF vai também continuar a apoiar o fortalecimento dos planos municipais de ação climática, sensibilizar, apoiar e formar populações para a natureza e desenvolvimento sustentável, e dar mais visibilidade pública à natureza, nomadamente valorizando-a como instrumento de saúde pública.
“Enquanto ONG, contamos com o apoio de empresas e cidadãos na realização deste desígnio de despertar o país para colocar a natureza no centro de todas as decisões; ao Estado caberá dar o exemplo”, diz Ângela Morgado.
Num balanço dos últimos anos, em que a WWF Portugal foi a Associação Natureza Portugal durante sete anos, Ângela Morgado indicou que foram investidos cerca de cinco milhões de euros na natureza, restaurados 440 hectares de floresta e recuperados 10 quilómetros de rios.









