Zonas de perigo da pesca para aves marinhas no Pacífico Sul são identificadas

Investigação revela áreas críticas onde a pesca comercial ameaça albatrozes e outras espécies.

Redação

Um novo estudo liderado pela Universidade da Costa do Sol de Queensland (UniSC) veio reforçar a esperança de reduzir os impactos dos acidentes, muitas vezes fatais, da pesca comercial sobre grandes aves marinhas entre a Austrália e a América do Sul.

A investigação, centrada no albatroz-das-antípodas— espécie ameaçada de extinção —, identifica com precisão os locais e períodos em que estas aves correm maior risco de ferimentos ou morte devido à captura acidental em palangres de pesca ao longo do oceano Pacífico Sul.

“Uma das principais causas do rápido declínio populacional de albatrozes e petréis migradores é a captura acessória na pesca, que ocorre quando as aves ficam presas ou enredadas em palangres oceânicos com milhares de anzóis iscados”, explica a professora associada Kylie Scales, da UniSC.

Segundo a investigadora, é particularmente preocupante que muitos dos pontos críticos de interação entre aves e embarcações de pesca identificados se situem em alto-mar, fora da jurisdição de qualquer país.

“Ainda assim, estamos entusiasmados com o potencial deste método baseado em dados para identificar e prever zonas de elevado risco de interação com a pesca. Esperamos que sirva de impulso para um reforço das regras em pescarias-chave, reduzindo as ameaças à vida selvagem e tornando o setor mais sustentável”, acrescenta.

Ho Fung (Billy) Wong, autor principal do artigo científico publicado na revista Biological Conservation, explicou que o albatroz-das-antípodas foi escolhido como estudo de caso devido às preocupações urgentes quanto ao seu futuro.

“Estas aves reproduzem-se apenas de dois em dois anos, em pequenas ilhas da Nova Zelândia, e já enfrentam ameaças associadas às alterações climáticas e à poluição por plásticos marinhos”, refere o investigador de doutoramento da UniSC.

“Com uma envergadura impressionante, conseguem voar milhares de quilómetros, planando sobre a superfície do oceano e mergulhando em busca de peixe e lula. Quisemos compreender os fatores que conduzem à interação com as atividades de pesca.”

O trabalho de campo foi realizado por investigadores do Departamento de Conservação da Nova Zelândia na principal colónia reprodutora, na Ilha Antípodas, onde foram colocados dispositivos de seguimento por satélite no dorso de 192 albatrozes de diferentes idades e sexos.

Os movimentos das aves foram monitorizados entre 2019 e 2022, durante deslocações que abrangeram áreas entre o sul da Austrália e a América do Sul.

Os resultados foram cruzados com dados sobre a distribuição da pesca comercial e com mapas em tempo real de características oceânicas até agora pouco consideradas. Entre estas destacam-se as frentes térmicas — zonas de encontro entre massas de água — e os redemoinhos oceânicos, grandes correntes circulares à superfície do mar.

A professora Scales, coautora do estudo com o professor David Schoeman, também da UniSC, explica que o mapa final revela verdadeiras zonas de perigo para as aves.

“Verificámos que as áreas de risco mais intenso ocorrem durante o nosso inverno, sobretudo entre albatrozes juvenis e fêmeas, numa faixa latitudinal próxima do Trópico de Capricórnio, entre os 25 e os 40 graus a sul do Equador”, afirma.

“Esta nova informação sobre a organização espacial das zonas de risco é crucial não só para a sobrevivência desta população, mas também para as milhares de aves marinhas capturadas acidentalmente todos os anos. Estamos agora a trabalhar para alargar esta investigação a outras regiões do mundo”, adianta.

O estudo resultou de uma colaboração entre o Departamento de Conservação da Nova Zelândia, o Plymouth Marine Laboratory (Reino Unido), a Universidade de Queensland, a Universidade Charles Sturt, a Halpin Wildlife Research (Canadá) e a Universidade Nelson Mandela, na África do Sul.

A especialização do Plymouth Marine Laboratory em observação da Terra permitiu analisar de que forma as características físicas do oceano moldam estas zonas de perigo.

“Analisámos a informação a duas escalas: padrões sazonais com base em dados climáticos de longo prazo e padrões mensais mais detalhados, recorrendo a condições oceânicas em tempo real”, explica o cientista Peter Miller.

“O risco revelou-se particularmente elevado durante os meses de inverno do hemisfério sul, sendo as aves mais jovens as mais vulneráveis”, acrescenta.

De acordo com Billy Wong, as conclusões levaram a equipa a recomendar que as medidas de mitigação da captura acessória de aves marinhas definidas por organizações regionais de gestão das pescas, como a Comissão das Pescas do Pacífico Ocidental e Central, sejam alargadas às zonas de risco identificadas, em especial entre os 25 e os 30 graus de latitude sul.

“Atualmente, apenas uma das três medidas de mitigação é obrigatória nesta área”, sublinha.

Entre as medidas propostas contam-se linhas espanta-aves, o reforço do peso das linhas secundárias e a largada dos anzóis durante a noite.

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