De “somos parte da solução” para “não podem viver sem nós”: Organização analisa mudança de narrativa das petrolíferas e afastamento da ação climática

Estas são as principais conclusões de uma investigação levada a cabo pela organização Clean Creatives, um coletivo de profissionais da área das Relações Públicas que declaram que clientes do setor fóssil “representam uma ameaça ao nosso futuro partilhado”.

Filipe Pimentel Rações

Nos anos após a assinatura do Acordo Climático de Paris, em 2015, várias grandes empresas petrolíferas definiram metas de redução de emissões e comprometeram-se com a transição para lá dos combustíveis fósseis, ainda que continuassem a investir neles.

No entanto, com o estalar da guerra na Ucrânia em 2022, os preços da energia fóssil dispararam. Com lucros sem precedentes em mãos, as petrolíferas abandonaram os seus planos para uma transição energética e voltaram a focar-se na produção de combustíveis fósseis e em manter os acionistas satisfeitos e com os bolsos cheios.

Estas são as principais conclusões de uma investigação levada a cabo pela organização Clean Creatives, um coletivo de profissionais da área das Relações Públicas que declaram que clientes do setor fóssil “representam uma ameaça ao nosso futuro partilhado”.

No âmbito do projeto “Toxic Accounts”, ou “Contas Tóxicas” em português, a organização analisou 1.859 materiais promocionais da BP, Chevron, ExxonMobil e Shell entre 2020 e 2024, e percebeu que as campanhas dessas empresas mudaram de “tom”: passaram da definição de metas climáticas e de chavões como “somos parte da solução” para a reforço da mensagem de que o mundo depende dos combustíveis fósseis e para a ideia de que “não podem viver sem nós”.

O trabalho define uma linha temporal que, segundo os investigadores, mostra claramente a mudança narrativa. Em 2021, as petrolíferas assumiam-se na liderança climática; em 2022, já alertavam para a importância de promover a segurança energética; em 2023, defendiam que era indispensável encontrar soluções de meio termo, equilibrando a expansão dos combustíveis fósseis com a redução e emissões com soluções de captura e armazenamento de carbono; e em 2024, declaravam a incontornável dependência do mundo face aos combustíveis fósseis.

Segundo a investigação, os próprios acionistas das petrolíferas, que antes apoiavam a ação climática, mudaram também de posicionamento, priorizando, uma vez mais, o lucro em detrimento da proteção do planeta.

Os relatores dizem que as essas grandes empresas estão a promover “falsas soluções”, como a captura e armazenamento de carbono, o gás natural e os biocombustíveis, que “aumenta a dependência dos combustíveis fósseis”.

“Durante décadas, as agências de publicidade e de [Relações Públicas] têm ajudado as empresas de petróleo e gás a criar dúvidas sobre questões climáticas, a disseminar a desinformação e a atrasar a descarbonização”, declara a Clean Creatives.

“Agora, as suas táticas estão a tornar-se cada vez mais manipuladoras e estratégicas, com o objetivo de convencer as pessoas de que não podem viver sem combustíveis fósseis, quando, na verdade, 91% dos projetos de energia renovável são mais baratos e mais confiáveis do que alternativas baseadas em combustíveis fósseis”, salienta.

A organização avisa que as campanhas promocionais das petrolíferas estão a criar entraves a uma transição energética mais veloz, mantendo o mundo preso aos combustíveis fósseis e tornando quase certo a quebra do Acordo de Paris de 2015, que tinha estabelecido a meta de 1,5 graus Celsius de aquecimento global até ao final do século.

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