A obsessão de alguns cães por bolas, cordas ou outros brinquedos pode ir além de uma simples vontade de brincar. Um estudo conduzido por investigadores da Suíça e da Áustria sugere que alguns animais desenvolvem níveis de motivação tão elevados em relação aos brinquedos que passam a apresentar comportamentos semelhantes aos observados em situações de dependência.
Publicado pela Royal Society, o estudo analisou dados de mais de 1.600 cães recolhidos através de um questionário sobre comportamento, brincadeira e motivação. Os investigadores concluíram que os animais com maior interesse por brinquedos tendem a demonstrar sinais como dificuldade em interromper a atividade, incapacidade de relaxar após a brincadeira, elevados níveis de excitação e até redução dos períodos de sono durante o dia.
Segundo os autores, estes comportamentos foram particularmente frequentes em cães de trabalho, incluindo várias raças de pastoreio e terriers, conhecidos pela sua energia e forte predisposição para tarefas que exigem foco e persistência.
A investigação revelou ainda que estas características podem manifestar-se muito cedo, sendo frequentemente observadas já durante a fase de cachorro.
Embora uma forte motivação para brincar possa ser uma vantagem em contextos como o treino, o desporto canino ou determinadas atividades profissionais, os cientistas alertam que níveis extremos podem ter consequências negativas para o bem-estar dos animais.
“Encontrámos associações entre uma motivação muito elevada pelos brinquedos e traços como sobre-excitação, dificuldade em acalmar e menor descanso diurno”, referem os autores.
Os investigadores sublinham que não se trata de uma dependência no sentido clínico aplicado aos seres humanos, mas consideram que alguns dos comportamentos observados apresentam semelhanças suficientes para justificar atenção por parte dos tutores.
Os resultados contribuem para uma melhor compreensão das diferenças comportamentais entre cães e poderão ajudar treinadores, veterinários e donos a identificar situações em que a brincadeira deixa de ser apenas uma atividade saudável e passa a interferir no equilíbrio emocional e no descanso dos animais.
Para os autores, o desafio passa por encontrar um equilíbrio: estimular o instinto natural de brincar sem promover níveis excessivos de excitação que possam comprometer a qualidade de vida dos cães.









