A alternativa aos herbicidas “é o grande desafio”



A alternativa aos herbicidas “é o grande desafio”, sublinhou Alexandra Azevedo, Presidente da Direção Nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza (ANCN) no Encontro Regional “Alternativas aos Herbicidas: desafios e dinâmicas locais” que se realizou hoje no Auditório do Centro Cultural de Carregal do Sal.

Na sessão de abertura, a responsável explicou que “não temos uma ideia muito clara de como fazer as coisas acontecer”, mas é preciso “integrar a natureza nas atividades humanas” e a alternativa aos herbicidas é o “grande desafio”.

Paulo Catalino Ferraz, Presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal, falou da importância desta conferência, promovida pela Quercus, para o Concelho, salientando a decisão tomada no início do ano de deixarem de usar herbicidas em prol da Saúde, mas que lhes traz “inconvenientes financeiros por causa da alternativa para substituir os glifosatos”.  Por isso, acrescentou o autarca, “temos de encontrar soluções viáveis, mas que não sejam contra a natureza e contra a vida humana”.

Nuno Bravo, representante da apa, falou do enquadramento da agência portuguesa do ambiente relativamente ao tema sublinhando que, nos últimos anos, têm feito um esforço para procurar alternativas aos herbicidas.

Já Nuno Fonseca, Vogal do Conselho Diretivo da ANAFRE, afirmou que a “utilização ou não de herbicidas é uma luta constante” e que a “partilha das boas práticas é muito importante porque é aqui que vamos encontrar os melhores exemplos”. Para o responsável, tem de haver um equilíbrio de interesses. “Queremos tudo limpo e adequado, mas a mudança de comportamento tem custos e é preciso partilharmos ideias”, explicou Nuno Fonseca, destacando a “força dos princípios” e sublinhando que é preciso “perceber que o caminho é aquele e depois tentar segui-lo”.

Seguiu-se a intervenção de António Alexandre, Investigador e Coordenador da FCULresta, com uma proposta para recuperar a biodiversidade perdida: a “FCULresta”. Trata-se de uma minifloresta densa, biodiversa e multifuncional, em pleno centro urbano. Pretende ser uma referência prática de uma abordagem transdisciplinar com uma profunda mobilização da sociedade para a ação climática, promoção da biodiversidade urbana e outros Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e sua cidade Capital Verde Europeia 2020.

António Alexandre explicou que a FCULresta era, há um ano, um relvado de 315 metros quadrados na Faculdade de Ciências de Lisboa “sem nada” e hoje é um espaço biodiverso com mais de 600 plantas. Desde a ideia até à implementação demoraram 9 meses, desses 7 foram de trabalho social. “Queremos ir muito mais além e envolver a comunidade. Queremos florestas e espaços verdes para estarem com as pessoas”, sublinhou o biólogo, acrescentando que, “por isso, a floresta tem 27 parceiros” e é a primeira em Portugal.

O Investigador e Coordenador da FCULresta explicou que este tipo de floresta pode ajudar ao envolvimento comunitário, a promover a biodiversidade e a lutar contra as alterações climáticas e desertificação, acrescentando que, para tal, foi criada utilizando o método Miyawaki.

Para António Alexandre os desafios passam por ervas daninhas, gatos abandonados que “não estão desenhados para estar na natureza”, vandalismo e paciência e incompreensão com o que está a ser feito, “as pessoas não têm paciência para nada”, referiu, sublinhando, em jeito de conclusão, que “quanto mais de investir na parte social, melhor”.

“Temos pena que não haja uma aposta em não usar herbicidas”

Após um momento de debate extensível à plateia, seguiu-se a primeira mesa-redonda intitulada “Movimentos Cívicos”. André Gonçalves, do Projeto Reflorestar o Campus da Universidade de Coimbra que as maiores dificuldades “estão a nível burocrático para conseguir chegar a mais pessoas e para perceber que terrenos é que são de quem”.

Paulo Andrade, do Núcleo Regional da Quercus de Coimbra lamentou que “não haja uma aposta em não usar herbicidas” enquanto Inês Ferreira-Norman, do Grupo de Cidadania Ambiental – Peniche sem Herbicidas, explicou que “Peniche é uma cidade do mar e, consequentemente, apostam muito no combate à poluição de plásticos e limpeza das praias” e que, por isso, criou este grupo “por sentir esta lacuna”, lamentando que a população esteja “sempre a fazer queixas das ervas”.

Alexandra Contreiras, do Projeto “Jardins da Biodiversidade” em Arruda dos Vinhos, também lamentou a “muita pressão” por parte da população, quer a nível público quer a nível particular, para ter os espaços exteriores “limpos”, com a aplicação de medidas, por exemplo, de impermeabilização do solo, cortes excessivos do coberto vegetal e aplicação de herbicidas, bem como Emanuel Rocha, do grupo Os Amigos do Arunca, explicando que tentaram primeiro perceber o porquê de as pessoas não quererem ervas à porta de casa param só depois falar com a Câmara. “Levar as pessoas mais velhas a perceber que as ervinhas têm um impacto positivo na vida das pessoas tem sido a parte mais difícil”, sublinhou.

Para João Forte, da Plataforma contra os Herbicidas – Sicó, a questão dos herbicidas diz-lhe muito porque costumava a apanhar caracóis na berma das estradas com a sua avó e, com a aplicação de herbicidas, “tornou-se impensável”. Para João, as maiores dificuldades é continuar a ouvir frases como “há tanta coisa importante para a tratar porque é que fala disso”, sendo também “difícil explicar às pessoas a componente técnica”.

Para o futuro, em geral, os participantes da mesa-redonda consideram que há cada vez mais pessoas interessadas e sensibilizadas para estes temas e, com trabalho, haverá resultados, mas Paulo Andrade, do Núcleo Regional da Quercus de Coimbra, alerta: “Se no uso urbano os herbicidas são de evitar, também é preciso pensar na agricultura. É preciso apostar em agricultura orgânica ou biológica e o uso de herbicidas destrói a saúde dos terrenos porque elimina toda uma série de vida. A verdade é que a agricultura biológica regenera os terrenos”.

“O que é melhor para o ambiente um custo superior, mas o benefício tem um valor incalculável”

Durante a tarde, e depois de uma atividade prática, seguiu-se a Mesa Redonda intitulada “Desafios e Dinâmicas locais na abordagem sem herbicidas e Políticas integradas na gestão do território”. José Dias Batista, Vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Carregal do Sal e moderador do debate questionou os vários presidentes das juntas presentes sobre o processo de abandono do uso do glifosato. Armando Paulino, Presidente da Junta de Freguesia de Encosta do Sol (Amadora), explicou que, numa cidade “é difícil contentar a todos”. A consciência ambiental “ainda está a ser trabalhada”, referiu, sublinhando que “é difícil explicar que a natureza conviva connosco”. Para evitar problemas, como, por exemplo, pessoas com mobilidade reduzida não conseguirem passar por causa de uma erva maior, “utilizamos máquinas e voltámos aos velhos tempos de usar os cantoneiros e sensibilizá-los para que que sempre que vejam uma erva a retirem”. Além disso, usam “cada vez mais o elétrico e cada vez menos os combustíveis fósseis” e as carrinhas de trabalho “são quase todas elétricas”.

Carlos Batos, presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Conde, revelou que “aqui a mudança está em curso”, sublinhando que “é difícil, até pela área da freguesia, que é muito grande e rural, mas está a fazer-se”. Para o responsável, o que “terá de existir é o equilíbrio, entre as ervas existente (a parte verde) e a parte cuidada”. Já António Martins, representante da vereação de Coimbra, explicou que ainda estão a “dar os primeiros passos para que a medida se torne muitíssimo eficaz mas para que, acima de tudo, possamos ter uma população mobilizada” enquanto Marcos Tomás, Secretário da Junta de Freguesia de Sta Maria, S.Pedro e Sobral da Lagoa (Óbidos), revelou que a população se encarrega de muitos dos espaços verdes muito devido ao trabalho de sensibilização que têm feito. “Tem sido um trabalho intenso, mas continuamos neste trabalho de sensibilização. A população está envolvida connosco”, assegurou.

Questionados sobre a questão de custos, foram unânimes em considerar que, apesar de mais elevados, esta abolição do uso de herbicidas compensa sempre. “O que é melhor para o ambiente tem, sim, um custo superior, mas o benefício tem um valor incalculável, disse Armando Paulino enquanto Carlos Bastos sublinhou que “não podemos fazer contas ao que vale uma vida humana. E se a própria OMS considerou o glifosato como substância cancerígena, isso vale muito. Uma vida humana vale muito”. “Acaba por haver um lucro para o que é a nossa saúde e ambiente no futuro. O saldo seria positivo se fosse possível fazer contas”, afirmou Marcos Tomás enquanto António Martins  explicou que, “apesar de aumentar os custos, há um conjunto de matérias indiretas que a sociedade vai usufruir: questões do bem-estar, saúde pública, reforço da biodiversidade que é fulcral no combate àquilo que são os problemas da atualidade”.

 

 

 

 



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