“A crise da habitação não é apenas económica, é social e ecológica”

Os preços da habitação no país dispararam desde 2015, um crescimento impulsionado pela escassez de oferta e o aumento dos custos de construção. “A crise da habitação não é apenas económica, é social e ecológica”, afirma Samuel Delesque, cofundador da Traditional Dream Factory (TDF), que avança com uma nova fase de desenvolvimento composta por 23 habitações de arquitetura bioclimática modular como solução escalável para uma vida partilhada e regenerativa.

Redação

O mercado imobiliário europeu atravessa um dos momentos mais tensos da última década, e Portugal tornou-se o epicentro desta crise. De acordo com dados do Eurostat, os preços da habitação na União Europeia (EU) cresceram 5,7% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2025, mas o caso português destaca-se com um aumento de 16,3%, o maior de toda a UE.

Este fenómeno não é isolado. Desde 2015, o custo da habitação na UE aumentou 53%, mas em Portugal o crescimento foi exorbitante: 130% em apenas quinze anos, deixando jovens, famílias e profissionais com poucas opções acessíveis nos centros urbanos.

A escassez de oferta, o encarecimento dos materiais de construção e o forte investimento estrangeiro alimentaram esta situação, que já não é apenas um problema económico, mas também social e ecológico.

É o que afirma Samuel Delesque, cofundador da Traditional Dream Factory (TDF), um projeto que procura dar resposta a esta situação com um modelo inovador: comunidades regenerativas que combinam habitação acessível, sustentabilidade e vida colaborativa.

Próxima fase na TDF lança modelo para habitação acessível, sustentável e escalável

No meio deste tumulto imobiliário, a TDF propõe uma alternativa radicalmente diferente que pode ser replicada noutras partes do mundo. Localizado na aldeia alentejana de Abela, concelho de Santiago do Cacém, este projeto surge como a primeira ecovila regenerativa da Europa financiada por tokens, e o seu objetivo é claro: demonstrar que é possível viver de forma acessível, sustentável e em comunidade.

Para isso, o próximo passo da TDF passa pela construção de um bairro de coabitação com 23 habitações em parceria com a Kinterra, empresa especializada em soluções tecnológicas de habitação acessível em contextos rurais e periurbanos. Com esta parceria, a TDF pretende criar um plano para comunidades escaláveis e sustentáveis

Esta nova fase de desenvolvimento na TDF, com conclusão prevista para o final de 2026, foi projetada pelo CRU atelier, um premiado atelier de arquitetura português especializado em design sustentável, em colaboração com a Enklava, uma promotora de habitação regenerativa.

O projeto não será apenas um cohousing, mas um ecossistema vivo que integrará infraestruturas partilhadas, como micro-redes energéticas, sistemas de captação de água e produção comunitária de alimentos.

Além disso, apostará na arquitetura bioclimática com materiais locais e de baixo impacto ambiental, na construção modular para reduzir custos sem sacrificar a qualidade e na integração tecnológica através de sensores Smarthoods que monitorizam a água, a energia e a biodiversidade, tudo isto gerido com transparência através do painel Closer.

“O cohousing oferece mais do que um teto, oferece uma comunidade, resiliência partilhada e uma forma de viver acessível sem abrir mão da qualidade de vida», afirma Delesque. «A TDF foi pensada como um laboratório vivo de resiliência, um espaço onde são testadas soluções para enfrentar a crise habitacional e climática ao mesmo tempo”, conclui. “Queremos criar um modelo que possa ser replicado em todo o mundo”, afirma Roy Duer, cofundador da Kinterra.

A abordagem da TDF rompe com os princípios convencionais. O seu modelo Web3 redefine a noção de propriedade: a terra pertence a uma associação do tipo Land Trust, enquanto os cidadãos têm o direito de usufruto e a responsabilidade de cuidar do território. Esta abordagem procura otimizar recursos, reduzir o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, promover uma comunidade criativa e colaborativa.

O objetivo final é ambicioso: replicar este modelo noutras partes do mundo, catalisando uma mudança para estilos de vida regenerativos que respondam aos desafios do século XXI.

Para estabelecer estas bases, a TDF associou-se à Village Portal, um coletivo norueguês especializado na promoção de coabitação e governança comunitária. Juntos, estão a lançar um programa pioneiro de coabitação com a duração de seis meses, a começar em outubro, conjugando workshops online e presenciais que orientam os futuros residentes sobre modelos financeiros, acordos culturais e práticas de governança. Isto garante que o bairro não seja apenas projetado, mas também co-criado social e ecologicamente pelos seus habitantes desde o início.

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