Durante os períodos de calor extremo, manter-se fresco é um verdadeiro desafio para muitos animais, sobretudo os de pequeno porte. No entanto, para os morcegos — criaturas noturnas que passam o dia a dormir nos seus refúgios — o risco pode ser ainda mais elevado. Segundo um novo estudo publicado na Journal of Experimental Biology, caixas-refúgio colocadas sob exposição solar direta podem aquecer a níveis perigosos, deixando os morcegos presos no interior e vulneráveis à desidratação fatal.
Ruvinda de Mel, da Universidade de New England, na Austrália, explica que “os morcegos em repouso podem atingir temperaturas corporais potencialmente letais durante dias extremamente quentes”. O problema agrava-se pelo facto de muitas destas caixas serem desenhadas para reter calor — uma vantagem em dias frios, mas um perigo durante as vagas de calor, dependendo da sua orientação solar.
De Mel e os colegas Dylan Baloun e Zenon Czenze quiseram perceber até que ponto a localização destas caixas representa um risco real para os morcegos-castanhos (Eptesicus fuscus). Para isso, deslocaram-se em Agosto de 2023 até Lillooet, no território não cedido da Nação St’át’imc, no Canadá. Aí, recolheram cuidadosamente 22 morcegos de florestas da região e mediram a taxa metabólica e a perda de água por evaporação dos animais, em temperaturas entre os 28 °C e os 48 °C. Após os testes, os morcegos foram devolvidos ao seu habitat.
Durante o mesmo mês, os investigadores registaram as temperaturas em quatro abrigos artificiais: dois situados no telhado de um edifício junto ao Lago Kwotlenemo — um virado a nascente, que atingiu os 38,5 °C, e outro a poente, que não passou dos 32 °C — e duas caixas para morcegos expostas ao sol directo em Lillooet, ambas a ultrapassar os 40 °C.
Com base nos dados recolhidos, a equipa calculou a quantidade de água que os morcegos teriam perdido no dia mais quente de 2023. As perdas nos abrigos junto ao lago variaram entre 2,5% e 6,2% da massa corporal dos animais, enquanto nas caixas mais expostas em Lillooet as perdas atingiram entre 10,8% e 15,3%. Embora elevadas, estas perdas ainda não representaram um risco imediato de vida.
Mas e se as temperaturas registadas tivessem sido semelhantes às da vaga de calor extrema de Junho de 2021?
As simulações nesse cenário foram preocupantes. Num dos abrigos virado a nascente, a temperatura teria ultrapassado os 50 °C durante seis horas, chegando aos 55,5 °C. Nestas condições, os morcegos poderiam ter perdido mais de 50% da sua massa corporal em água — uma perda fatal. Nas caixas de Lillooet, as perdas teriam variado entre 25,5% e 36,7%, também potencialmente mortais.
“Refúgios artificiais mal posicionados podem funcionar como autênticas armadilhas mortais para os morcegos devido ao sobreaquecimento”, alerta de Mel. O investigador recomenda que os conservacionistas disponibilizem múltiplas opções de abrigo numa mesma área: algumas caixas feitas com materiais isolantes para manter uma temperatura estável, outras capazes de aquecer ou arrefecer mais rapidamente conforme a estação. Idealmente, algumas devem estar expostas ao sol para aquecer rapidamente na primavera, enquanto outras devem ser colocadas à sombra para proteger os animais durante o verão.
A conclusão é clara: é essencial pensar cuidadosamente na localização das caixas para morcegos. Caso contrário, o que deveria ser um abrigo pode transformar-se num autêntico sarcófago durante uma onda de calor.









