Um estudo divulgado hoje indica que as alterações climáticas intensificaram as chuvas torrenciais que atingiram a Península Ibérica e Marrocos no início de 2026, matando mais de 50 pessoas e obrigando à deslocação de milhares de outras.
O relatório da World Weather Attribution (WWA), um grupo de cientistas que estuda a ligação entre fenómenos climáticos extremos e alterações climáticas, nota que os dias mais chuvosos na região são agora cerca de 30% mais húmidos do que nos tempos pré-industriais, quando o clima era 1,3 graus Celsius (°C) mais frio.
Entre 16 de janeiro e 17 de fevereiro, nove tempestades fustigaram a referida zona.
Em Portugal, morreram 18 pessoas na sequência da passagem sucessiva das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias foram as principais consequências materiais das tempestades, que afetaram sobretudo as regiões do Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.
Em Grazalema, um dos municípios mais atingidos no sul de Espanha, o equivalente a mais de um ano de chuva normal caiu em apenas alguns dias, segundo a WWA.
“O volume de água observado em locais como Grazalema foi impressionante”, disse David García-García, climatologista da Universidade de Alicante, em Espanha, e coautor do estudo, descrevendo a situação como um “choque maciço” para as infraestruturas e os solos.
Este estudo confirma que “o aquecimento da atmosfera provocado pelas nossas emissões coletivas de carbono está a conduzir a um padrão de chuvas mais intensas”, acrescentou.
“É exatamente assim que as alterações climáticas se manifestam: padrões climáticos que antes eram controláveis estão a transformar-se em desastres muito mais perigosos”, declarou Friederike Otto, do Imperial College London, no Reino Unido, e outra dos autores do estudo também citada pela agência noticiosa France-Presse.
A WWA estima que, no norte de Portugal e no noroeste de Espanha, a intensidade das chuvas seja atualmente cerca de 11% superior à do período pré-industrial.
Em relação à zona do sul da Península Ibérica e do norte de Marrocos, os dados mostraram tendências contrastantes, pelo que os investigadores não conseguiram determinar o impacto das alterações climáticas nas chuvas.
Segundo a WWA, um sistema anticiclónico “bloqueado” sobre a Escandinávia e a Gronelândia gerou uma série de tempestades na Europa Ocidental no início do ano, que criaram condições mais húmidas do que o habitual, tendo a humidade sido amplificada por “águas anormalmente quentes” no Atlânticos.









