Jane Goodall, uma das mais respeitadas figuras da ciência e da conservação ambiental, morreu aos 91 anos. A investigadora britânica transformou a forma como o mundo entende os primatas e dedicou a vida à defesa da natureza, dos direitos dos animais e da ligação entre o ser humano e o meio ambiente. A sua morte provocou uma onda de reações emocionadas por parte de cientistas de todo o mundo. Na Austrália, investigadores de várias instituições prestaram tributo à mulher que marcou gerações com a sua coragem, compaixão e persistência.
Uma inspiração pessoal e profissional
David Lindenmayer, professor na Fenner School of Environment and Society da Universidade Nacional Australiana, recorda Jane Goodall como “uma amiga e apoiante” do trabalho de conservação que lidera:
“Foi das pessoas mais apaixonadas e dedicadas que conheci — uma verdadeira inspiração. Era também uma cientista notável, com uma capacidade única de observar e identificar aspetos fundamentais do mundo natural que mudaram a forma como pensamos, não apenas sobre os animais, mas sobre nós próprios enquanto seres humanos. Perdemos alguém verdadeiramente excecional.”
Alison Behie, professora de Antropologia Biológica na mesma universidade, descreve o impacto pessoal da cientista na sua carreira:
“Jane Goodall guiou toda uma geração de mulheres rumo às ciências e à conservação. Mostrou-nos que não só podíamos participar em projetos científicos, como também liderá-los. Conheci-a enquanto estudante universitária, e foi graças a ela que decidi mudar de área e dedicar-me à conservação de primatas. Um dos momentos mais marcantes da minha carreira foi apresentar-lhe os meus alunos em 2017, durante uma visita à Austrália. Ela fez com eles o que fizera comigo anos antes: inspirou-os profundamente.”
Uma voz global em defesa do planeta
Katie Smith, gestora no Wildlife Crime Research Hub da Universidade de Adelaide, sublinha a dimensão global do impacto de Goodall:
“Foi uma das maiores defensoras da proteção ambiental, promovendo o uso da ciência e da legislação para preservar a biodiversidade, mesmo perante ameaças crescentes causadas pela ação humana. A sua voz era clara, corajosa e urgente. Numa altura em que o ambiente australiano está sob enorme pressão e as reformas ambientais estão estagnadas, vozes como a de Jane são mais necessárias do que nunca. A sua ausência será profundamente sentida.”

Chris Daniels, professor de Zoologia nas universidades de Adelaide e do Sul da Austrália, e presidente da Green Adelaide, destaca a forma única como Goodall comunicava a urgência da causa ambiental:
“Com base em investigação de excelência sobre chimpanzés, conseguiu contar ao mundo a história da degradação ambiental de forma envolvente, positiva e esperançosa. A sua mensagem, especialmente dirigida aos mais jovens, era clara: a mudança é possível e necessária. A sua perda deixa um vazio enorme.”
Pioneirismo, empatia e esperança
Euan Ritchie, professor de Ecologia e Conservação da Vida Selvagem na Universidade Deakin, considera Goodall uma “verdadeira pioneira”:
“O seu trabalho revolucionou a forma como entendemos a nossa relação com a vida selvagem. Fê-lo num tempo em que as mulheres eram frequentemente afastadas da ciência, e mesmo assim conseguiu inspirar milhões. Fundou o Instituto Jane Goodall e o programa Roots & Shoots, que continua a capacitar comunidades e a promover a conservação. O seu legado é imenso e continuará a fazer-se sentir por muito tempo.”
Chris West, diretor da Koala Life e professor adjunto na Universidade Flinders, conheceu Jane Goodall há quase 30 anos e acompanhou de perto a sua evolução como figura pública global:
“Apesar de se tornar uma voz de esperança para milhões, manteve sempre o espírito científico e o sentido ético que marcaram o início da sua carreira. Era uma contadora de histórias extraordinária — deixava o público emocionado, tocado e motivado. A sua mensagem de esperança e humanidade é demasiado importante para se perder. Cabe-nos agora a responsabilidade de continuar o seu trabalho.”
“Embaixadora” dos chimpazés morre aos 91 anos
A famosa primatóloga britânica Jane Goodall, a “embaixadora” dos chimpanzés e ardente defensora da causa ambiental, morreu aos 91 anos, anunciou ontem o seu instituto.
A investigadora “morreu de causas naturais” quando se encontrava na Califórnia, no âmbito de uma tournée de conferências nos Estados Unidos, disse o Instituto Jane Goodall num comunicado nas redes sociais.
A cientista dedicou a sua vida ao estudo dos grandes primatas e à defesa do ambiente, sendo mensageira da paz das Nações Unidas desde 2002.
Com mais de 90 anos, continuava a percorrer o mundo para sensibilizar o público e exortar as autoridades a agir para travar as alterações climáticas.
“Estamos literalmente a aproximar-nos de um ponto sem retorno”, alertava em declarações à agância de notícias francesa AFP, em 2022.
Jane Goodall é considerada uma das pioneiras da etologia moderna.
Nos anos 1960, os seus trabalhos, realizados na reserva de Gombe, na Tanzânia, sobre os chimpanzés vieram abalar a compreensão dos comportamentos animais e redefinir a fronteira entre o homem e as outras espécies.
Ao revelar que os chimpanzés também sabem fabricar ferramentas e utilizá-las, a investigadora revolucionou a forma como o homem olha para o seu lugar na natureza.









