As decisões que saírem da cimeira climática global que está a decorrer em Belém, no Brasil, a COP30, intensificarão a pressão sobre as empresas, “porque são elas que, juntamente com os países, vão ter de fazer o investimento para a transformação que se quer”, diz a Secretária-geral do Conselho Empresarial Português para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD Portugal).
Esta terça-feira, à margem de um evento do BCSD e da S317 Consulting dedicado à reflexão sobre o que está a acontecer na COP30, Filipa Pantaleão conta à Green Savers que uma maior ambição dos planos nacionais de mitigação acaba por se traduzir em “investimentos muitos pesados por parte das empresas”.

No entanto, assegura isso “acaba por estar muito em linha com o que as empresas estão já a fazer”, uma vez que estão já cientes de que têm de alinhar as suas operações de cadeias de valor com esses objetivos climáticos, destacadamente os de redução de emissões de gases com efeito de estufa.
E a consciência da necessidade de trilhar esse caminho acontece não só por via da regulação, mas também pela pressão exercida por investidores, bancos e clientes “que estão a olhar de forma muito mais séria para aquilo qe são os riscos físicos e de transição”, detalha Filipa Pantaleão.
Por seu lado, Filipe de Morais Vasconcelos, Administrador da S317 Consulting, considera que, além de “novas exigências” e de “novos custos”, as decisões que saírem da COP30 trarão também “novas oportunidades”.
Salienta o responsável que “o reforço dos compromissos para a transição energética vai acelerar a eletrificação da indústria, a saída progressiva dos combustíveis fósseis e a necessidade de integrar energias renováveis e eficiência, de forma mais profunda nos processos produtivos”. Tudo isso, acrescenta, “terá impacto nos modelos de negócio, na competitividade dos sectores intensivos em energia e na estrutura de custos das empresas”.
Empresas continuam empenhadas na descarbonização
No passado mês de outubro, um relatório da Boston Consulting e da CO2 AI sugeria uma possível desaceleração na ação climática por parte das empresas. A análise, que abrangeu quase dois mil executivos de empresas de 16 indústrias em 26 países de todos os continentes, apontava que apenas 7% das grandes empresas medem e reportam as emissões de forma detalhada (níveis 1, 2 e 3), abaixo dos 9% de 2024 e dos 10% de 2023.
Mas Filipa Pantaleão não acredita que esteja realmente a acontecer uma desaceleração. “Não vemos isso nas nossas empresas no BCSD”, disse-nos, acrescentando que “a descarbonização e a pegada carbónica continuam a ser grandes temas ano após ano”.
Contudo, como explicou, o que pode estar a acontecer é que o nível 3 é “muito difícil de contabilizar” e é igualmente desafiante “perceber realmente quais é que são as implicações [desse nível] para a descarbonização”. Aponta a responsável que o nível 3 é um dos maiores desafios para as empresas porque “tem custos mais elevados, tem desafios técnicos e tem falta de dados”.
Como tal, “naturalmente pode abrandar um pouco o ritmo de reporte, porque as empresas também não se querem expor com um âmbito 3 que depois pode não ser o mais correto. É mais por aí, não acho que tenha a ver com a ambição climática em si. É uma postura mais cautelosa”, sugeriu.
“Temos muitas empresas já com compromissos, quer tenham ou não essa obrigação, e temos cada vez mais empresas a integrar a sustentabilidade na sua estratégia. Temos cada vez mais empresas a quererem encontrar parceiros com os quais possam colaborar para, de forma mais rápida, encontrarem soluções para os problemas dentro dos seus negócios”, disse Filipa Pantaleão.
Por isso, “as empresas estão a levar isto muito a sério”, garantiu.
Neste ponto, Filipe de Morais Vasconcelos diz-nos que “a nível global, a desaceleração é real e os números são inequívocos”, mas que Portugal está “num momento diferente”. Isso, porque “entrámos mais tarde, temos cadeias de valor mais pequenas e um tecido empresarial menos maduro nesta matéria”.

Apesar de se denotar, por cá, “alguma fadiga”, as empresas em Portugal estão ainda “numa fase de convergência com o que se faz lá fora” e “continuamos a ver novas empresas a iniciar o caminho de forma séria”.
Por outro lado, Morais Vasconcelos indica que essa desaceleração global não é apenas reflexo de uma falta de vontade, mas em muito se deverá à “complexidade crescente do reporte”, à escassez de talento técnico e à pressão regulatória “que avança mais depressa do que a capacidade operacional das empresas”.
No entanto, apesar de tudo isso, “em Portugal ainda estamos a subir a curva de maturidade, não a descer”, assevera, indicando que “há empresas portuguesas que estrão ao nível das melhores da Europa, com métricas robustas, governação climática integradas e decisões de investimento alinhadas com metas de redução reais”.
No entanto, a boa vontade não chega, e a maioria das empresas “ainda não tem os recursos, o conhecimento ou a infraestrutura internar para fazer este trabalho com a profundidade necessária”, e, em muitos casos, “a sustentabilidade ainda não é tratada como parte da infraestrutura do negócio”.
Qualquer das formas, Morais Vasconcelos considera que é “sinal positivo” que a agenda da ação climática esteja, cada vez mais, “a entrar nos conselhos de administração, nas equipas financeiras e nos processos de decisão”.
“Quando a discussão passa de reputação para risco e oportunidade, o salto qualitativo é inevitável”, declara.
UE na senda da desregulação?
Nos últimos tempos a Comissão Europeia, bem como o Parlamento e os Estados-membros, têm sido criticados por organizações ambientalistas por estarem a enfraquecer os regulamentos europeus de proteção ambiental e de ação climática em prol de interesses económicos e sob a bandeira da competitividade.
O executivo comunitário liderado por Ursula von der Leyen tem seguido uma estratégia do que descreve como “simplificação” para linhar o desenvolvimento económico, a inovação e a competitividade com os objetivos climáticos, mas os ambientalistas entendem que tal é, na verdade, um ataque à estrutura regulatória ambiental da União Europeia.
Questionada sobre o assunto, a Secretária-geral do BCSD Portugal entende que o que está a acontecer não é uma desregulação, mas sim a adaptação. “Provavelmente pecámos por uma regulação em excesso, e o que a Europa teve de fazer foi abrandar o ritmo para realmente perceber o que é que é crítico e aquilo que era ótimo ter mas que se calhar, por agora, tem de ser só acessório”, explicou à Green Savers.
Filipe de Morais Vasconcelos, da S317 Consulting, recorda-nos de que a regulação não existe para “dificultar a vida às empresas”, mas sim porque “o mercado, sozinho, não corrige externalidades, nem cria condições para investimentos estruturais que só dão retorno a médio prazo”.
Seja como for, entende que a atual regulação europeia tem uma “complexidade excessiva”, “implica decisões lentas” e padece de “burocracia que cria ineficiências”, e que isso não é proteger o ambiente, mas sim “minar a competitividade de quem quer investir em soluções sustentáveis”.
Defende o responsável que é preciso ambição ambiental, mas também de “regras mais simples”, de processos de decisão mais rápidos e de “uma administração pública com capacidade técnica reforçada para avaliar, e aprovar projectos com rigor e previsibilidade”.
Morais Vasconcelos avisa para o perigo de se confundir “desburocratização” com “desregulação”, frisando que “competitividade económica e proteção ambiental não são objetivos antagónicos” e que a simplificação não deve ser vista como “recuo ambiental”, mas sim como “remoção de ineficiências que atrasam investimentos com impacto positivo para a economia e para o clima”.
“Uma boa regulação não trava a inovação; acelera-a. O que trava a inovação é a incerteza, a morosidade e a falta de clareza.”
A nova meta de 2040
Recentemente a União Europeia chegou, por fim, a um acordo sobre a meta de redução de emissões até 2040: menos 90% de gases com efeito de estufa lançados na atmosfera, sendo que até 5% dessa redução pode ser conseguida através de créditos de carbono internacionais.
Para as empresas, tal “vai exigir planos de transição muito mais rigorosos”, indicou Filipa Pantaleão, acrescentando que “todos entendemos a urgência, mas vai requerer muita pressão”.
A especialista reconhece que há setores “muito difíceis” de descarbonizar, como a Indústria e os Transportes, mas acredita que a inovação tecnológica poderá ajudar a seguir esse caminho. Mas estarão as empresas preparadas para essa meta? As grandes empresas estarão mais bem preparadas, pois “já estavam a reportar, já tinham os seus diagnósticos e os seus planos” e “estão a trazer a reboque a sua cadeia de fornecimento”, onde estão integradas empresas mais pequenas, cuja transformação será catalisada por um efeito de “contágio”.
“Quase todas as transformações têm acontecido assim. Começa por um lado e depois vai arrastando a sua própria cadeia, até que, uma coisa que antes não era comum, torna-se a regra. Na sustentabilidade temos vivido isso muito rapidamente nestes últimos anos”, recordou-nos Filipa Pantaleão.
Para Filipe de Morais Vasconcelos, a meta de 2040 “redefine a economia europeia”, na medida em que “obriga a um sistema energético quase totalmente descarbonizado, à eletrificação acelerada da indústria e dos transportes, ao abandono gradual de ativos intensos em carbono e a uma transformação profunda das cadeias de valor”.
No que toca especificamente às empresas, isso traduzir-se-á em “custos de inação cada vez mais elevados, acesso ao financiamento condicionado pelo alinhamento com esta meta e pressão crescente dos clientes, investidores e reguladores sobre a cadeia de fornecedores”, explica o responsável da S317 Consulting.
“A Europa está a dizer às empresas que um futuro competitivo terá de ser baixo em carbono. Quem não se adaptar vai perder quota de mercado, financiamento e talento.”
A controvérsia dos créditos de carbono
A inclusão da possibilidade de recorrer a créditos de carbono internacionais para chegar à meta dos 90% tem sido criticada, não apenas por organizações ambientalistas como a WWF, mas também por grupos de especialistas que apoiam o trabalho das instituições europeias, como o Conselho Consultivo Científico Europeu sobre as Alterações Climáticas (ESABCC, na sigla em inglês), um órgão independente que fornece à UE conhecimento e recomendações relativos à crise climática.
Os críticos entendem que os créditos de carbono podem enfraquecer o compromisso para uma verdadeira redução das emissões dentro das fronteiras da UE, lançando para países terceiros essa responsabilidade.
Filipa Pantaleão disse-nos que o foco das empresas deve estar realmente na redução das suas próprias emissões, abarcando as suas cadeias de valor. No entanto, reconhece a relevância dos créditos como forma de financiar projetos e ações em países em desenvolvimento que reforcem a mitigação climática a nível global. Ainda assim, defende que os créditos não devem servir como desculpa para adiar a transição energética.
“Isso está completamente fora de questão”, salientou, dizendo que também não se tem observado um movimento nesse sentido, pelo que “talvez seja mais um pouco de alarmismo do que realmente um problema”.
Filipe de Morais Vasconcelos entende que se os créditos de carbono internacionais enfraquecerão ou não os esforços de descarbonização na Europa dependerá da forma como forem usados, “mas o risco existe”.
“Se os créditos internacionais forem tratados como um atalho para evitar reduções internas, estamos perante um erro estratégico que compromete décadas de trabalho”, diz-nos.
Tal como afirmou a Secretária-geral do BCSD Portugal, Filipe de Morais Vasconcelos considera que o foco deve estar, primeiro que tudo, em reduzir as emissões “de forma estrutural dentro da Europa”, e só depois “compensar emissões verdadeiramente residuais com créditos de elevada integridade ambiental e social”.
“Os créditos podem ter um papel útil, especialmente em setores de difícil redução, mas só se forem rigorosamente regulados, verificados e limitados. Caso contrário, estaremos a exportar a responsabilidade climática e a criar uma falsa sensação de progresso”, avisa. E acrescenta que a Europa não pode olhar para os créditos de carbono internacionais como uma “válvula de escape para a falta de ação doméstica”.









