Lisboa dá hoje um passo decisivo no combate ao desperdício com a chegada do sistema de copos reutilizáveis “CopoMais” ao Bairro Alto. A primeira rede de máquinas de devolução promete acabar com centenas de milhares de copos descartáveis usados anualmente na vida noturna da cidade. Em entrevista à Green Savers, Rui Quadrado, Responsável pelo Desenvolvimento de Negócio na TOMRA, diz que este é o início de uma transformação que prova ser possível “ter uma vida noturna vibrante com zero resíduos descartáveis”, sublinhando que esperam “eliminar centenas de milhares de copos descartáveis anualmente”.
Depois dos resultados expressivos do projeto-piloto no Príncipe Real e na Praça de São Paulo — 14 mil copos devolvidos em 54 dias e uma taxa de retorno de 95% — o sistema avança agora para a zona mais emblemática da noite lisboeta.
O processo é relativamente simples: os clientes nos bares participantes recebem um copo reutilizável ao comprar uma bebida, pelo qual é pago um pequeno depósito adicional. Uma vez terminada a bebida, não é necessário devolver o copo ao balcão do bar. As novas máquinas permitem aos consumidores receber de volta o depósito [0,50 cêntimos] com um simples toque do cartão, sem apps ou registos, enquanto os copos seguem para lavagem industrial certificada, cumprindo as exigências legais de higiene e rastreabilidade.
Para Rui Quadrado, o impacto esperado é “transformador”, com potencial para retirar milhões de copos de circulação e melhorar significativamente a limpeza das ruas. Com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa e da AHRESP, o “CopoMais” torna-se peça central da estratégia de economia circular da cidade, antes de seguir para novas zonas como Cais do Sodré e Bica. O objetivo é claro: tornar Lisboa pioneira europeia na reutilização e elevar o copo reutilizável a símbolo cultural da capital.
O que é que motivou a expansão do Sistema de Copos Reutilizáveis para o Bairro Alto?
A expansão para o Bairro Alto foi motivada pela urgência e pelo impacto. Esta é a zona de vida noturna mais emblemática de Lisboa e, historicamente, é a que gera o maior volume de resíduos de copos de uso único nas ruas. Em vez de evitarmos a questão, decidimos enfrentá-la na sua origem, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a AHRESP. Ao lançarmos o CopoMais no coração do Bairro Alto, estamos a enviar um sinal claro: é possível ter uma vida noturna vibrante com zero resíduos descartáveis, melhorando, assim, a higiene urbana e a imagem da nossa capital.
Como funcionam as novas máquinas de devolução de copos e que benefícios trazem para os bares e clientes?
O nosso sistema é, possivelmente, o mais conveniente na Europa, pois o seu design foca-se na conveniência, eficiência e rastreabilidade.
Os clientes nos bares participantes recebem um copo reutilizável ao comprar uma bebida, pelo qual é pago um pequeno depósito adicional. Uma vez terminada a bebida, não é necessário devolver o copo ao balcão do bar. Em vez disso, os clientes podem devolver o copo de forma conveniente usando máquinas de devolução dedicadas, localizadas tanto dentro como fora dos estabelecimentos.
O processo é rápido e sem esforço: basta tocar com o seu cartão bancário ou telemóvel na máquina, inserir o copo, e o depósito é automaticamente reembolsado na sua conta bancária. Não é necessário registo, download de aplicações, ou envolvimento do staff – toda a experiência é concebida para ser integrada, intuitiva e totalmente automatizada.
Para o consumidor, é fácil: tocam com um cartão bancário ou telemóvel em qualquer uma das máquinas (como a da Travessa das Queimadas n.º 28), devolvem o copo, e o valor do depósito (€0.50) é reembolsado no cartão. Acontece sem qualquer registo adicional ou download de uma app, e o reembolso vai diretamente para o seu cartão bancário.

Este sistema garante que todos os copos reutilizáveis são recolhidos, lavados e higienizados profissionalmente através de um processo industrial certificado – ao contrário das práticas informais e inconsistentes atualmente em vigor. Ao remover dos bares a responsabilidade de gerir os copos usados, o sistema elimina tanto os custos operacionais como os encargos logísticos, permitindo que o staff se concentre inteiramente em oferecer um melhor serviço aos clientes.
Além disso, a legislação nacional sobre embalagens reutilizáveis estabelece requisitos rigorosos de rastreabilidade e higiene. Apenas a solução tecnológica oferecida pelo CopoMais assegura o cumprimento total destas normas legais, protegendo assim os bares de potenciais multas ou problemas regulamentares.
Quais foram as principais aprendizagens do teste realizado nos quiosques do Príncipe Real e da Praça de São Paulo?
O projeto-piloto de verão foi crucial para validar o modelo e provou duas coisas fundamentais: a tecnologia funciona e os lisboetas querem a solução. Em 54 dias, registámos a devolução de 14.000 copos, alcançando uma notável taxa de retorno de 95%. As altas taxas de retorno são essenciais para demonstrar o impacto ambiental positivo do sistema. Outra aprendizagem chave foi que, para expandir este sucesso para uma área histórica como o Bairro Alto, era necessário tempo adicional para adaptar a infraestrutura, garantindo que o sistema é 100% robusto antes de o expandirmos, o que estamos a fazer com o apoio das autoridades.
Que impacto ambiental se espera com a implementação deste sistema em Lisboa?
O impacto esperado é transformador. Se um único projeto-piloto de verão conseguiu retirar 14.000 copos da rua em menos de dois meses, com a implementação de uma rede robusta no Bairro Alto, esperamos eliminar centenas de milhares de copos descartáveis anualmente. A título de exemplo, um sistema semelhante em Aarhus, na Dinamarca, está atualmente a atingir cerca de 1 milhão de rotações por ano. O nosso objetivo é que o CopoMais se torne o fator decisivo na redução de resíduos nesta zona crítica da cidade, prevenindo que o plástico chegue aos esgotos ou aos aterros sanitários e promovendo uma circularidade que poupa recursos e energia em cada ciclo de reutilização.
Como é que este projeto se integra com outras iniciativas de redução de plástico e resíduos na cidade?
O CopoMais é um pilar central da estratégia de economia circular e redução de plástico da CML. Não é apenas um projeto isolado; é uma peça essencial da infraestrutura urbana. Complementa diretamente as políticas e metas existentes para a redução de resíduos urbanos, posicionando Lisboa não só a cumprir objetivos europeus, mas a liderar a sua implementação. Demonstra que a parceria entre a autarquia (CML) e a indústria (AHRESP) é o caminho mais eficaz para atingir objetivos ambientais ambiciosos.
Existem metas de reutilização ou redução de copos descartáveis para os próximos anos?
O nosso objetivo a longo prazo é ambicioso e inequívoco: tornar o copo descartável – e copos que não fazem parte do sistema – obsoleto na vida noturna do Bairro Alto e, subsequentemente, em todas as áreas de alto tráfego de Lisboa. O objetivo é que o CopoMais se estabeleça como o standard aceite e preferencial. Estamos a trabalhar com a CML para definir metas formais de redução que refletirão um decréscimo anual exponencial, sendo que os 14.000 copos devolvidos no projeto-piloto servem apenas como ponto de partida.
Com base na experiência da TOMRA em Aarhus, na Dinamarca, acreditamos que o sistema CopoMais poderá remover 3 milhões de copos de Lisboa por ano, assim que o sistema estiver totalmente dimensionado.
Que estratégias estão a ser usadas para incentivar os lisboetas a aderir ao sistema de copos reutilizáveis?
A nossa estratégia baseia-se em três fatores: Conveniência, Confiança e Coesão.
Conveniência: O nosso sistema oferece um reembolso instantâneo e sem necessidade de app, removendo o principal ponto de fricção.
Confiança: Asseguramos que o cliente não tem de se preocupar com a higiene, graças à lavagem industrial certificada.
Coesão: Estamos a trabalhar com os bares para que a adoção do CopoMais seja a norma, transformando a reutilização numa expectativa social no Bairro Alto.
Como os bares e estabelecimentos da zona estão a reagir a esta nova iniciativa?
A reação dos bares tem sido esmagadoramente positiva. Inicialmente, houve alguma hesitação em adaptar um novo sistema, mas o facto de o CopoMais ter sido adaptado em colaboração com a AHRESP e o teste deste verão demonstrou que a solução simplifica, em vez de complicar. Os bares do Bairro Alto (como o É do Brasil e o El Latino) estão a aderir porque percebem que eliminam o problema do lixo na rua, evitam custos de gestão de resíduos e oferecem uma solução moderna e higiénica aos seus clientes. A adesão é vista como um ganho na imagem de marca e na eficiência.

Existem planos para expandir o sistema para outras zonas de Lisboa?
Sim, o Bairro Alto é o nosso foco imediato para a construção de uma rede central, mas é apenas o começo. A nossa visão é que o CopoMais se torne o copo de facto para eventos e zonas de vida noturna em toda a cidade. Em conjunto com a CML e a AHRESP, comprometemo-nos a estabelecer uma rede que cubra o Bairro Alto, Cais do Sodré e Bica com as próximas 17 máquinas de devolução. Estamos a planear expandir a rede de máquinas de devolução para outras zonas de alto tráfego, garantindo que o sistema é o mais conveniente e abrangente possível para todos os residentes e visitantes de Lisboa.
Em que medida Lisboa se está a posicionar como cidade pioneira na reutilização de copos na Europa?
Lisboa não está apenas a seguir tendências; está a estabelecer um novo padrão. A combinação de um esquema de depósito à escala de um bairro histórico, com um sistema de reembolso instantâneo e sem app, apoiado por grandes parceiros como a TOMRA e a CML, coloca-nos na vanguarda. Estamos a demonstrar que a reutilização de alto volume pode ser implementada com sucesso mesmo nas infraestruturas urbanas mais complexas. O CopoMais é o modelo que outras capitais europeias procurarão replicar.
Que desafios tecnológicos e logísticos foram superados para implementar esta rede de máquinas?
Os nossos dois anos de experiência operacional em Aarhus, na Dinamarca, forneceram-nos uma compreensão sólida dos desafios tecnológicos e logísticos envolvidos na implantação de uma rede de máquinas. Esta curva de aprendizagem foi instrumental na nossa preparação para a implementação em Lisboa.
No entanto, a integração das máquinas no tecido urbano de Lisboa apresentou um desafio único. O carácter arquitetónico da cidade, as restrições patrimoniais e a paisagem urbana distinta exigiram uma abordagem altamente personalizada. Neste contexto, o papel da autarquia é crítico – não só como autoridade reguladora, mas também como parceiro facilitador. O seu apoio é essencial para desbloquear o potencial deste novo sistema, que, em última análise, traz benefícios significativos para a própria cidade em termos de limpeza, sustentabilidade e inovação.
Qual é a visão a longo prazo para a marca e o copo reutilizável da cidade?
A visão é que o CopoMais se torne um símbolo cultural e o standard de sustentabilidade da cidade. Queremos que seja imediatamente reconhecido como a manifestação da vitalidade, do carácter histórico e do compromisso ambiental da capital, tal como outros ícones urbanos de Lisboa. O nosso objetivo é que o CopoMais represente a nova essência de Lisboa: uma cidade que é vibrante, mas profundamente responsável e circular.









