Neste dia 3 de março, comemora-se mais um Dia Mundial da Vida Selvagem. Criada em 2013 na 68.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, a efeméride pretende celebrar a extraordinária diversidade de animais, plantas, fungos e outros organismos que fazem do planeta Terra o que ele é.
Esta comemoração coincide com o dia em que foi adotada a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Selvagens (CITES), em 1973, um instrumento que regula o comércio internacional de plantas e animais para evitar possa pôr em risco a sobrevivência de espécies e populações selvagens.
Numa altura em que a perda de biodiversidade é uma das grandes crises planetárias dos nossos tempos, celebrar a vida selvagem pode ser visto como um grito de alerta para os perigos que todos os seres vivos enfrentam, incluindo nós humanos, se não se conseguir aplacar a redução galopante da diversidade de formas de vida.

Estima-se que entre 1970 e 2020 as populações selvagens de mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes tenham sofrido, a nível global, uma redução média de 73% no seu tamanho. Segundo o relatório “Living Planet” de 2024 da organização WWF, os declínios mais significativos foram registados nas populações de água doce (85%), seguidas pelas terrestres (69%) e pelas marinhas (56%).
Aponta o documento que a perda e a degradação dos habitats e a sobre-exploração das espécies e populações selvagens, sobretudo devido pelo sistema de produção alimentar global, são as principais ameaças à vida selvagem à escala mundial. Também as espécies invasoras, as doenças e as alterações climáticas representam perigos significativos.
“Todos, desde o ser humano aos diferentes tipos de seres vivos, selvagens ou não, estamos interligados”, avisa-nos Pedro Monterroso, investigador principal do grupo de Ecologia da Conservação da Vida Selvagem do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO).
Em entrevista à Green Savers, o também diretor regional de Operações da organização African Parks para Angola e Moçambique ajuda-nos a refletir sobre as ameaças que as espécies selvagens enfrentam, como podemos protegê-las e ainda como a nossa própria espécie depende da vida selvagem talvez mais do que possamos pensar.

É algo que ouvimos muitas vezes, especialmente no âmbito de documentários, mas o que é realmente a vida selvagem? Porque não se trata apenas de animais, certo? Mas também de plantas, fungos, microrganismos…
O conceito de vida selvagem pode ser definido como o conjunto de todas as formas de vida não domesticadas que ocorrem naturalmente numa determinada área geográfica. Ou seja, num determinado território ou ecossistema, a vida selvagem engloba todas as formas de vida existentes não introduzidas pelo Homem e que, direta ou indiretamente, se encontram interligadas e contribuem para os processos ecológicos. Isto inclui desde as bactérias, às plantas, insetos ou vertebrados, como os mamíferos, aves ou répteis. No sentido mais popular, em particular no contexto dos documentários sobre natureza, estabeleceu-se a perceção de que vida selvagem se refere apenas aos vertebrados, em particular mamíferos e aves, o que não corresponde à realidade. Essa é apenas a parte mais visível e impactante da vida selvagem.
Quais as principais ameaças e perigos enfrentados atualmente pela vida selvagem em Portugal? Expansão e intensificação agrícolas, expansão urbana, alterações climáticas, secas e incêndios, tráfico, furtivismo, poluição, destruição de habitat? Ou uma combinação de todas elas?
A reposta a essa questão não é consensual. Na minha opinião, é uma combinação de quase todas elas, uma vez que, de certa forma, estão correlacionadas. Por exemplo, as secas e os incêndios são influenciados pelas alterações climáticas, mas também pela conversão e destruição de habitats naturais, muitas vezes associadas a práticas agrícolas ou florestais insustentáveis. Por outro lado, a expansão da urbanização e das infraestruturas está diretamente relacionada com o acesso facilitado a qualquer parte do território. Isso facilita a captura e tráfico de espécies, ou mesmo a expansão de agricultura ou pastorícias que levam a uma inevitável transformação dos ecossistemas. Ou seja, as ameaças à vida selvagem nos dias de hoje são diversas, complexas e interligadas através de efeitos diretos e indiretos umas nas outras. Isto implica que o combate a essas ameaças se torne também uma matéria de resolução complexa.
Contudo, de uma forma simples, do meu ponto de vista as principais ameaças à vida selvagem em Portugal neste momento estão essencialmente relacionadas com a destruição ou conversão dos habitats naturais e expansão de atividades antropogénicas (com tudo o que isso implica). É extremamente difícil encontrar locais em Portugal continental onde não seja possível alcançar, em menos de uma hora a pé, algum tipo de infraestrutura humana. Esta realidade traduz-se numa evidente escassez de áreas naturais com dimensão e integridade suficientes para suportar ecossistemas completos, representativos e resilientes, incluindo a presença de espécies que ocupam posições de topo na cadeia trófica e que desempenham funções ecológicas essenciais de regulação e equilíbrio do ecossistema.
Porque é importante proteger a vida selvagem e conservar e restaurar os seus habitats naturais? Adotando uma ótica antropocêntrica, e dando como adquirido o valor intrínseco de cada espécie, de que forma a vida selvagem é importante para os humanos? Isto sabendo que muitos animais selvagens são vistos com indiferença, desdém ou mesmo ódio por muitas pessoas, como pragas, incómodos e inúteis.
Se ignorarmos todo o valor intrínseco da Natureza, que é imensurável, estamos na prática a focar-nos no que atualmente se chamam serviços de ecossistema dos habitats naturais. Esta terminologia está hoje muito na moda e refere-se aos benefícios que a Natureza proporciona ao ser humano. Estes benefícios são inúmeros, embora nem sempre evidentes ou bem compreendidos. Incluem, por exemplo, a purificação da água e do ar, o sequestro de carbono, a reciclagem de nutrientes, o controlo natural de pragas e doenças e a produção de madeira, da qual resultam benefícios económicos diretos. No entanto, para que estes serviços existam, são necessários ecossistemas equilibrados, saudáveis e funcionalmente integrados.
As populações selvagens, em equilíbrio, desempenham um papel determinante neste processo. Um exemplo que se tornou um modelo mundial de sucesso foi o da recuperação das populações de lobos no Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos da América. O aumento do número de lobos potenciou o desenvolvimento de uma população de herbívoros mais saudável e resiliente, uma vez que os animais mais predados são os mais fracos e doentes. A recuperação desta espécie levou também a um uso diferencial da paisagem pelos herbívoros, libertando determinadas áreas da pressão de herbivoria previamente existente. Isto permitiu uma recuperação da vegetação, nomeadamente das galerias ribeirinhas, o que afetou os processos hidrológicos da região. Isto significa que o simples restauro de uma espécie selvagem, neste caso, o lobo, que se tinha extinguido devido à perseguição humana, gerou impactos importantes em todo o ecossistema. Estes efeitos traduziram-se ainda numa maior atratividade e visitação ao Parque, contribuindo para uma maior dinamização de toda a economia local.

Outro exemplo do valor ecológico desta espécie selvagem, mas neste caso na Península ibérica, diz respeito à relação entre lobos e javalis. O lobo é o único predador natural capaz de exercer um controlo significativo sobre as populações de javali neste território. O lobo, que tinha uma ampla distribuição pelo território de Portugal continental, foi perseguido e gradualmente eliminado do Sul e quase de todo o Centro de Portugal. A eliminação desta espécie de uma boa parte da sua área de distribuição histórica contribuiu de forma significativa para o aumento descontrolado de javali o que, por sua vez, agravou os impactos negativos na agricultura e noutras atividades humanas.
Outro exemplo relevante é o papel dos animais necrófagos, como os abutres. Historicamente, existiam em Portugal quatro espécies de abutres: o grifo, o abutre preto, o abutre do Egipto e o quebra-ossos. Estas espécies têm especializações alimentares distintas – o grifo consome essencialmente tecidos moles, o abutre-preto tecidos rijos, o abutre-do-Egipto partes pequenas e o quebra-ossos, ossos, em particular a medula. Esta complementaridade alimentar entre os abutres, em conjunto com a ação de outras espécies generalistas como corvos e raposas, faz com que as carcaças sejam removidas rápida e eficientemente. Ao removerem com rapidez animais mortos do terreno, que poderiam ser potenciais fontes de disseminação de doenças para animais domésticos ou mesmo para humanos, este grupo de animais contribui diretamente para a depuração do ecossistema. A redução das populações e da área de distribuição de várias destas espécies em território nacional – em grande parte fruto de envenenamento, bem como do uso de antibióticos e de certos anti-inflamatórios veterinários, como o diclofenac, em animais domésticos –, conduziu a uma redução deste serviço proporcionado pelos abutres.

E, com estes exemplos, estou apenas a referir-me à vida selvagem no sentido mais popular. Poderíamos também debruçar-nos sobre o facto de que a esmagadora maioria dos medicamentos atualmente ao nosso dispor resulta do isolamento ou da mimetização de substâncias originalmente presentes em organismos selvagens. Qual é o valor disso para a humanidade? Se expandirmos este racional para as todas as formas de vida como a vegetação, as minhocas, os fungos e as bactérias do solo, ou as algas, os benefícios são inúmeros e a vários níveis. É impossível enumerá-los todos.
Geralmente, a nossa interferência leva à quebra destas relações funcionais entre os diversos elementos do ecossistema, fazendo com que depois se ande a tentar implementar ações ou estruturas que substituam as funções anteriormente desempenhadas pelas espécies que retirámos ou reduzimos. Tipicamente, o resultado nunca é 100% satisfatório…
Devemos, por isso, preocupar-nos em investir esforço e dinheiro na conservação da vida selvagem? Sabendo que nem sempre é um investimento com retorno financeiro direto, muitas vezes não visível e não a curto prazo.
Obviamente que sim. Como referi, o investimento na preservação da vida selvagem tem sempre retorno, mesmo que não seja evidente ou conhecido no momento. Pode não resultar num retorno económico direto, mas manifestar-se de forma indireta, tornando-se evidente quando os ecossistemas se degradam e surge o custo da substituição das funções que se perderam.
Considera que a proteção da vida selvagem, que o futuro e sobrevivência das populações selvagens, em muito depende da forma como nós, humanos, olhamos, pensamos e nos relacionamos com a vida selvagem?
Com certeza. Estas são mudanças de mentalidade que levam várias gerações até se fazerem sentir de forma efetiva. Há não muito tempo, como referiu há pouco, o sentimento geral era que a vida selvagem não servia para nada, estando associada a mitos, medos e menosprezo. Felizmente, isso está a mudar.
Um conhecimento mais profundo sobre o funcionamento e importância da Natureza e da vida selvagem, bem como a crescente disseminação desse conhecimento, tem conduzido a uma mudança de paradigma na nossa sociedade. As gerações mais jovens estão claramente mais informadas e sensíveis à preservação da vida selvagem, e isso tem um efeito transformador que já é visível.
O equilíbrio que é agora necessário encontrar é de não adotar posições extremas, ou seja, nem negligência ou desprezo pela vida selvagem, nem um conservacionismo extremo sem consideração pelas necessidades humanas. Se compreendermos que, mais importante do que conservar as espécies, é conservar as funções que elas desempenham, tudo se torna mais claro. Ao protegermos as funções no ecossistema, protegemos as espécies e os benefícios que delas advêm.
Na proteção da vida selvagem é indispensável o envolvimento e participação ativa das comunidades que com ela coexistem de forma mais próxima e íntima? Isso tem acontecido em Portugal, por exemplo, ou continuam a dominar abordagens de cima para baixo sem ter em grande conta as especificidades de cada contexto ecológico e sociocultural?
As comunidades humanas que vivem em proximidade com a vida selvagem são um fator absolutamente crítico para que as estratégias e ações de conservação ou restauro da vida selvagem sejam bem-sucedidas.
O caso do lince-ibérico no interior do Baixo Alentejo, desde a sua reintrodução em 2014, ilustra bem a importância do envolvimento local. Inicialmente, houve alguma resistência por parte de proprietários e gestores daquele território, mas com a recuperação da espécie tornaram-se evidentes benefícios ecológicos, nomeadamente o controlo natural das populações de predadores generalistas como a raposa e o sacarrabos. Este sucesso advém em grande parte de uma boa gestão privada do território que, em colaboração com as autoridades públicas, manteve uma estrutura de habitat favorável e contribuiu para a recuperação das populações de coelho-bravo, a principal presa do lince. À medida que estes resultados se tornaram visíveis e que o projeto integrou as comunidades através de parcerias e valorização territorial, verificou-se uma mudança clara de perceção, sendo hoje o lince uma marca e motivo de orgulho regional, o que promoveu a visitação e aumento do turismo, dando uma nova vida àquela região e demonstrando a importância de abordagens participativas ajustadas ao contexto local.

Aproveito ainda a ocasião para destacar que o sucesso deste programa em Portugal se deve, em grande medida, ao trabalho e dedicação do Dr. Pedro Sarmento, que liderou de forma incansável os esforços de recuperação do lince-ibérico no país, muitas vezes perante forte ceticismo e adversidade. O seu falecimento, no início deste ano, representou uma perda profunda para a conservação em Portugal, mas o seu legado permanece vivo, refletido no regresso do lince e no exemplo inspirador que deixou para as gerações futuras.
Podemos dizer o que acharmos melhor, mas é indubitável que o conhecimento das populações locais é extremamente valioso e essencial para preservação da vida selvagem. Muitas das ideias ou intervenções decididas na cidade, atrás de uma secretária, falham porque ignoram totalmente o conhecimento tradicional ou empírico de quem está no terreno.
Apenas conseguiremos ter sucesso se, por um lado, tivermos as populações favoráveis à conservação da natureza e da vida selvagem, e, por outro, se a aproximação for bidirecional. Isto é, baseado no reconhecimento e valorização do conhecimento e contributo de todos os envolvidos: desde a comunidade científica, à gestão e administração centrais e locais, até às comunidades locais. Chegar a consensos não é fácil e, por isso, infelizmente, esta abordagem nem sempre é adotada. Contudo, do meu ponto de vista, esta é a chave para o sucesso.
Na sua opinião, onde é que se deveria atuar mais pronta e fortemente para, de alguma forma, ultrapassar vieses e preconceitos humanos sobre a vida selvagem de maneira a reforçar a sua proteção e conservação?
A minha opinião será naturalmente enviesada neste tema. Mas, com duas décadas de dedicação à investigação científica sobre estas temáticas, e agora numa posição de gestão de áreas protegidas em contextos difíceis, diria que uma clara articulação entre o conhecimento científico e a sociedade são chave para mudar mentalidades. No entanto, esta articulação deve ser bidirecional e não paternalista, condescendente ou de superioridade de nenhum tipo. Deve haver uma troca de conhecimentos e experiências, reconhecendo que o conhecimento tradicional e local tem valor e que, em articulação com o conhecimento académico, pode contribuir para a definição de estratégias de conservação eficientes. Acho que existe uma falha grande na comunicação entre os diversos setores da sociedade sobre este tema. A comunicação eficiente é imprescindível para atingirmos um objetivo comum.
O que o levou a enveredar por uma carreira e vida dedicadas ao estudo da vida selvagem? O que é que mais o fascina nos animais selvagens?
A minha dedicação ao conhecimento e conservação da vida selvagem resultam de uma paixão pela Natureza que está enraizada em mim desde muito novo. Lembro-me de discussões com o meu irmão, quando éramos pequenos, porque ao sábado de manhã ele queria ver desenhos animados e eu queria ver documentários sobre vida selvagem. Desde cedo soube que queria trabalhar com animais na Natureza. Este sentimento foi reforçado pela admiração que tinha pelo meu avô paterno, engenheiro florestal, que me levava frequentemente com ele para o campo. Apesar de ele implementar na altura políticas florestais que hoje critico, aquela interação teve um impacto profundo na minha vida. Tinha o sonho de ser biólogo e levei toda a minha vida a perseguir esse sonho.

O que mais me fascina nos animais selvagens é a resiliência, a liberdade e a independência. Creio que é uma profunda admiração por sobreviverem em condições adversas e onde o risco é constante. Ensinam-nos muita coisa sobre a vida.
Neste dia Mundial da Vida Selvagem, que mensagem gostaria de transmitir aos portugueses, e quem sabe ao mundo, do cidadão comum até àqueles que nos governam?
Talvez recuperando, de certa forma, um conceito que o Professor Jorge Paiva, que muito admiro, usa com frequência: “Estamos numa casa comum cada vez mais lixada, isto é, cheia de lixo nas suas diversas formas”.
Todos, desde o ser humano aos diferentes tipos de seres vivos, selvagens ou não, estamos interligados. Se nós, enquanto espécie, respeitarmos e protegermos a vida selvagem, estamos a contribuir para um melhor futuro para nós próprios. Pequenas ações em conjunto têm impactos enormes. Se cada um fizer a sua “pequena” parte, todos teremos um futuro melhor.









