A produção mundial de energia a partir de fontes renováveis superou pela primeira vez a do carvão. Em Portugal, esta transição energética já está mais avançada, mas os desafios são complexos — e nem todos são visíveis na fatura da luz. Em entrevista à Green Savers, João Nuno Serra, presidente da ACEMEL (Associação de Comercializadores de Energia no Mercado Liberalizado), analisa o papel dos comercializadores neste novo cenário, sublinha a importância da digitalização e aponta o que falta fazer a nível regulatório.
– A produção global de energia solar e eólica superou, pela primeira vez, a eletricidade gerada a partir do carvão. Como é que os comercializadores de energia em Portugal estão a encarar esta mudança de paradigma no setor energético?
Em Portugal já havíamos alcançado esta linha há algum tempo, quando se desativou a última central a carvão, no Pego. Este ponto de viragem agora alcançado a nível mundial, está muito relacionado com economias líderes na indústria, como a China que tem investido, de forma consistente e crescente ao longo dos anos, em Solar. Não obstante este bom sinal, é essencial relembrar que Portugal, apesar de ter já hoje mais geração eólica e Solar que Gás, está muito aquém do potencial que tem em recursos renováveis como o vento e a sol, e tendo em consideração fatores fundamentais, como a gestão do território e a coexistência com outros usos do terreno, como a agricultura, a floresta e a associada proteção ambiental. De forma a colocarmos este tema em perspetiva, no primeiro semestre de 2025, a Ucrânia (um País em Guerra) instalou mais potência solar do que Portugal em igual período.
-Este crescimento acelerado das renováveis coloca novas exigências à gestão do sistema elétrico. Que impacto antecipa que esta evolução terá sobre a atividade dos comercializadores, em particular num mercado cada vez mais volátil e descentralizado?
No contexto do Sistema Elétrico Nacional (SEN), os serviços de sistema são mecanismos que asseguram o equilíbrio entre a geração e o consumo, da frequência da rede em 50Hz, a tensão nos níveis normalizados e adequados, para que todos os equipamentos elétricos que temos nas nossas casas e empresas possam funcionar corretamente.
Estes mesmos serviços asseguram uma reserva de capacidade de geração dos centros electroprodutores, para responderem em tempo útil, ao tal equilíbrio que é necessário ter, do ponto de vista de segurança operacional, entre consumo e geração de energia elétrica.
Os custos associados ao acionamento de centrais, estão assim relacionados com a reserva de regulação (primária, secundária a terciária), o denominado “despacho” (acionar de unidades de produção de energia) fora da ordem de mérito económico, ou seja, centrais que são chamadas a funcionar, mesmo que não sejam as mais baratas, para garantir a segurança de abastecimento da rede.
Estes encargos essenciais, e que refletem também a complexidade e crescente sustentabilidade da nossa produção elétrica, são suportados pelos consumidores e pagos ao operador da rede de transporte – REN, que gere o sistema elétrico em tempo real.
Ter hoje capacidade disponível para evitar mais apagões deve ser entendido por todos como uma espécie de seguro, que temos de pagar, para ter estabilidade da nossa rede elétrica.
Aquilo que estamos a assistir é a uma descida da tarifa negociada em mercado diário, no OMIE, como consequência da incorporação das nossas fontes renováveis, mas o custo da “apólice de seguro” que temos de ter para ter o nosso sistema elétrico equilibrado, está a crescer. Tem hoje um peso no preço da tarifa diária, 16 vezes superior ao registado há 5 anos.
Não podemos por isso fazer uma análise linear do custo da energia. Quando temos energia a zero no OMIE, porque os custos reduzidos associados a uma maior capacidade de energia renovável conduzem a picos de produção claramente acima da procura em alturas específicas do dia, isso não significa viver sem pagar a energia que consumimos. O real custo de termos a energia nas nossas casas e empresa, está muito para lá do simples preço do OMIE.
– Falamos frequentemente de desafios, mas esta transição traz também oportunidades. Que novas dinâmicas de mercado e modelos de negócio podem emergir para os comercializadores com a generalização do autoconsumo, das comunidades de energia e da flexibilidade?
Todas estas possibilidades de autoconsumo individual ou coletivo, com ou sem baterias, são instrumentos muito importantes para empoderar o consumidor. Hoje o consumidor tem um papel ativo na geração da energia que consome. Isto muda totalmente o paradigma a que estávamos habituados (geração de um lado, e consumidores do outro). Para os consumidores, sobretudo industriais, os comercializadores têm hoje sofisticados modelos de negócio em operação há alguns anos. Estes modelos passam por investimentos feitos pelos comercializadores nas instalações industriais dos seus clientes, permitindo que estes tenham uma boa parte da sua energia garantida a um preço fixo e incorporando fontes renováveis, em particular a solar. Os comercializadores, podem representar as instalações dos clientes (excedentes de energia do autoconsumo) em mercado. Poderão brevemente, participar em serviços de sistema, com fotovoltaico e baterias, das instalações dos seus clientes. Há muitas oportunidades a surgirem, com toda esta evolução tecnológica, e importa que o País e o Governo criem o enquadramento regulatório e económico para que a iniciativa privada as possa concretizar.
– A integração de fontes renováveis em larga escala exige uma maior digitalização e capacidade de resposta. As empresas comercializadoras estão preparadas para acompanhar esta transformação? O que falta fazer neste domínio?
As empresas Comercializadoras são hoje um driver desta digitalização. São elas que estão em grande medida, a pressionar os operadores de rede (ORT e ORD), nesta digitalização. Do lado de geração, estamos a introduzir ferramentas de IA, para prever melhor a geração com fontes que são por natureza imprevisíveis, como é o caso das renováveis. Do lado do consumo, os comercializadores de nova geração pressionaram igualmente os incumbentes e hoje assistimos a uma melhoria generalizada das ofertas dos comercializadores, no mercado liberalizado, com recurso a digitalização. São exemplos a contratação à distância e formas de pagamento, por vários métodos alternativos, sem o cliente ter de sair de casa.
– Do ponto de vista regulatório, que ajustamentos considera essenciais para que os comercializadores possam desempenhar um papel ativo na transição energética, sem perder competitividade nem comprometer a estabilidade do sistema?
Os comercializadores têm, como já referido, um papel ativo na transição energética. A nossa visão de ter o consumidor no centro desta transição ilustra o facto de estarmos muito empenhados em que tudo isto se faça com os necessários equilíbrios. Nesse sentido, é fundamental que a tarifa regulada termine até final de 2027, conforme está agora determinado, porque atualmente esta tarifa distorce a atuação do mercado e não dá a responsabilidade ao consumidor, de ser ele a decidir o seu fornecedor de energia. Torna o consumidor passivo e isso não é bom para que todos os consumidores possam acompanhar esta transição energética em simultâneo.
– A ACEMEL integra a associação europeia dos comercializadores de energia. Que lições podemos retirar da realidade de outros países da Europa nesta transição? Há exemplos que devêssemos seguir ou riscos que deveríamos evitar?
A ACEMEL, integra a AICE – Associação Iberoamericana de Comercializadores de Energia, mas não integra ainda a Associação Europeia de Comercializadores. Não obstante, temos conversações muito profícuas com nossas congéneres europeias.
Por questões de experiência em mercados abertos, o norte da europa sempre esteve mais avançado, que o sul da europa, e Portugal não é exceção. Embora o MIBEL tenha já 21 anos, muito ainda há por alcançar, nomeadamente no que diz respeito aos mercados a prazo, importantíssimos para a estabilização de preços para os consumidores. Portugal e Espanha sofrem de um mal nesta matéria, que é a pouca liquidez que estes mercados de futuros têm, quando comparados com o centro e norte da europa. As recentes orientações da Comissão Europeia, apontam para os estados-membros promoverem a contratação a prazo, nomeadamente através de PPAs ou CfDs, que irão permitir, por um lado, uma certa estabilização de preços no consumo e maior resiliência a eventos externos e, por outro, dão estabilidade para que mais investimentos em renováveis avancem e sejam financiáveis.
– Numa altura em que se discute a reforma do mercado elétrico europeu, como vê o papel dos comercializadores independentes na construção de um sistema mais resiliente, transparente e eficiente?
Os comercializadores como já referi, têm um papel fundamental na construção de um sistema cada mais eficiente, resiliente e sobretudo transparente. Algumas iniciativas legislativas fundamentais, no plano nacional, mas também europeu, têm avançado em grande medida fruto do nosso trabalho junto dos reguladores e dos governos. Não com a firmeza nem com a celeridade que desejamos, mas têm avançado. É muito importante que todos cumpram o seu papel e se empenhem ao máximo, na concretização de todas as medidas e planos já traçados. O pior que a política traz aos cidadãos, são decisões inconsequentes. A interligação elétrica da Península Ibérica com França é disso um bom exemplo. Decisões em cima de decisões para alcançar 15% da nossa capacidade instalada na interligação entre Espanha e França, e continuamos ainda com menos de 5%, mantendo-nos como ilha face ao resto da europa. As interligações elétricas entre estados e mercados são essenciais para se alcançar o verdadeiro mercado europeu de energia. Sem elas, não haverá reforma do mercado elétrico europeu.
– O consumidor final está no centro desta transformação, mas nem sempre tem acesso à informação ou às ferramentas necessárias. Como podem os comercializadores contribuir para acelerar a literacia energética e reforçar a confiança dos consumidores neste novo modelo energético?
O acesso aos dados de consumo e geração (autoconsumo) são hoje fundamentais para que os comercializadores possam disponibilizar informação essencial em tempo real a todos os seus clientes, consumidores e produtores, para que estes possam tomar as suas decisões. A circunstância de, no consumo, os contadores serem um elemento da rede e, por isso mesmo, operados pela concessionária da rede de distribuição (E-REDES), limita a disponibilização de dados. Todavia, estão a avançar projetos piloto, para intensificar essa disponibilização de dados, quer aos comercializadores, quer diretamente aos consumidores e produtores. Portugal tem hoje o seu parque de contadores de consumo totalmente substituídos pelos chamados contadores inteligentes, que irão permitir essa disponibilização de dados de forma mais generalizada e em tempo real.









