Entrevista: Projeto SerE+ na Serra da Estrela quer “salvaguardar os serviços de ecossistemas que estamos a perder gradualmente”

O projeto “SerE+ – Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela” será apresentado esta tarde. Em entrevista à Green Savers, o coordenador Pedro Horta explica o que motivou a sua criação e que lacunas pretende colmatar na gestão e conservação da região.

Ana Filipa Rego

A Serra da Estrela enfrenta hoje um conjunto de pressões ambientais e sociais que colocam em risco o equilíbrio dos seus ecossistemas e os benefícios que estes proporcionam às populações. O projeto “SerE+ – Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela”, que será apresentado esta tarde, pretende precisamente criar uma rede com vista a promover a conservação dos valores naturais e o restauro ecológico na região, o bem-estar das populações locais e a sustentabilidade económica.

Em entrevista à Green Savers, Pedro Horta, coordenador do projeto implementado por um consórcio coordenado pela organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural, explica que as montanhas do Mediterrâneo, e a Serra da Estrela em particular, “são territórios extremamente vulneráveis a um grande conjunto de ameaças de origem antropogénica das quais se destacam as alterações climáticas”. O grande objetivo, acrescenta, “passa por salvaguardar os serviços de ecossistemas que estamos a perder gradualmente e potenciá-los nos locais com as melhores características para o investimento em restauro ambiental”.

O responsável do projeto que envolve mais três entidades: o CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; o Município de Seia, através do Centro de Interpretação da Serra da Estrela e a Agencia Estatal Consejo Superior de Investigaciones Científicas M.P. (CSIC), através da Estação Biológica de Doñana, de Espanha, diz ainda que “estas áreas funcionarão como microreservas que estarão distribuídas pelo território e servirão de fonte de serviços e biodiversidade para as áreas adjacentes, mas também para as gerações futuras”.

O que é que motivou a criação do projeto SerE+ e que lacunas pretende colmatar na gestão e conservação da Serra da Estrela?

As montanhas do Mediterrâneo, e a Serra da Estrela em particular, são territórios extremamente vulneráveis a um grande conjunto de ameaças de origem antropogénica das quais se destacam as alterações climáticas, com os grandes incêndios a serem a sua face mais visível, mas também a fragmentação dos habitats, grandes infraestruturas, etc., às quais se juntam questões sociais importantes como o êxodo rural, o envelhecimento das populações e o abandono das atividades agrossilvopastoris tradicionais. Estas ameaças condicionam o desenvolvimento regional por impactarem diretamente nos serviços prestados pelos ecossistemas naturais às populações, saúde e atividades humanas. Por outro lado, também impactam diretamente na perda de qualidade de vida das populações. A conservação e potenciação dos serviços dos ecossistemas na Serra da Estrela são verdadeiramente estratégicas do ponto de vista regional e nacional, uma vez que deles beneficia grande parte da população portuguesa: basta pensarmos nos 6 milhões de pessoas que beneficiam dos serviços de captação, purificação e encaminhamento de água das bacias e sub-bacias hidrográficas dos rios Mondego, Alva e Zêzere – que abastecem áreas urbanas no litoral como Coimbra ou Lisboa – ou nos milhões de turistas que visitam anualmente a Serra da Estrela beneficiando dum tipo de serviços de bem-estar e lazer em espaço natural único no contexto nacional.

Quando falamos em “serviços dos ecossistemas”, de que benefícios concretos estamos a falar para o território e para as populações locais?

As espécies selvagens e os habitats naturais e seminaturais fornecem serviços críticos para o equilíbrio do sistema natural dos quais dependem os seres humanos. Existem serviços importantes de provisão, por exemplo de alimentos (castanha, medronho, cogumelos), madeira, pedra, pastos naturais para alimentação animal, etc.; serviços de suporte, como os solos (fundamentais para a agricultura) ou biodiversidade; ou outros serviços críticos de regulação climática e sequestro de carbono, polinização, decomposição e mineralização da matéria orgânica. No contexto da Serra da Estrela, é incontornável falarmos de serviços relacionados com a água, desde a regulação do ciclo hidrológico, captação, armazenamento natural e distribuição, filtração e purificação da água, provisão de água para rega e nutrientes minerais dissolvidos e de energia mecânica de origem natural – (ex. moinhos de água ou energia elétrica para as populações). Por outro lado, também são historicamente conhecidos os benefícios de serviços dos ecossistemas da Serra da Estrela para a saúde, desde as plantas e águas medicinais, o ar “puro” da montanha com benefícios cardiorrespiratórios e imunológicos, o controlo de vetores de doenças por animais insetívoros – morcegos por exemplo – e de prevenção de zoonoses por animais necrófagos como abutres ou raposas. Destes serviços beneficiam todos os habitantes da Serra da Estrela, e aqueles que aqui desenvolvem a sua atividade profissional ou económica, pastores, agricultores, apicultores, resineiros, silvicultores, construtores, industriais – por exemplo empresas de extração de águas, destiladoras, indústrias de transformados – coletores de cogumelos, empresas turísticas e hotelaria, fotógrafos de natureza, etc.

Também as populações que habitam nas zonas limítrofes à Serra da Estrela e aquelas que se localizam a jusante das bacias e sub-bacias hidrográficas dos rios Mondego, Alva e Zêzere beneficiam destes serviços, assim como todas as pessoas que anualmente vistam a Serra da Estrela.

Em que consiste, na prática, a criação de uma Rede de Áreas de Aceleração e como será operacionalizada no terreno?

A primeira necessidade passa por priorizar as áreas mais importantes para a conservação da natureza e, simultaneamente, com maior potencial de restauro ambiental. Em segundo lugar, é necessário mapear os serviços dos ecossistemas de forma a identificar os locais que fornecem maior quantidade de serviços. É através do cruzamento destes locais que iremos identificar a rede de Áreas de Aceleração, que correspondem às zonas mais importantes do ponto de vista natural e que fornecem maior quantidade de serviços da natureza. No âmbito do projeto SerE+, iremos desenvolver ações de restauro ambiental numa área-piloto, localizada no município de Seia, como demonstrativo do tipo de intervenções potenciadoras de serviços de ecossistemas.

Que desafios ambientais e territoriais mais urgentes procura este projeto responder na Serra da Estrela?

O grande objetivo passa por salvaguardar os serviços de ecossistemas que estamos a perder gradualmente e potenciá-los nos locais com as melhores características para o investimento em restauro ambiental. Priorizar para obter os melhores resultados ambientais com o menor investimento possível. Estas áreas funcionarão como microreservas que estarão distribuídas pelo território e servirão de fonte de serviços e biodiversidade para as áreas adjacentes, mas também para as gerações futuras.

De que forma é que o SerE+ articula a conservação da natureza com o bem-estar das comunidades e a sustentabilidade económica da região?

Por um lado, a criação da rede visa criar áreas que sejam alvo de ações de restauro ambiental e conservação da natureza, por outro lado a salvaguarda e a potenciação de serviços de ecossistemas favorece diretamente o bem-estar e as atividades económicas das comunidades, pastores, agricultores, etc. Finalmente, através dum exercício de valoração económica não-financeira dos serviços dos ecossistemas duma área-piloto poderemos extrapolar e calcular o valor da rede, permitindo aos gestores e decisores compreenderem o valor destes locais e, a partir desse conhecimento, tomar as melhores opções para a sua preservação.

Qual será o papel dos municípios envolvidos e como será assegurada a articulação entre ciência, gestão do território e decisão política?

O consórcio do projeto SerE+ conta com a inclusão do Município de Seia, através do Centro de Interpretação da Serra da Estrela,  mas também irá envolver os restantes municípios que compreendem o Parque Natural da Serra da Estrela. Um dos aspetos mais importantes do projeto é o envolvimento das populações e das instituições do território no processo científico que iremos desenvolver para a quantificação dos serviços dos ecossistemas. Será criada uma plataforma colaborativa que irá reunir 3 vezes durante o primeiro ano do projeto – em 3 oficinas colaborativas – onde os municípios, o parque natural, mas também outros atores locais, como pastores, associações florestais, etc., serão chamados a contribuir com a sua perceção sobre a importância de cada habitat no fornecimento dum conjunto de serviços da natureza que serão também eles selecionados por este grupo de trabalho para responder à realidade regional. Contamos com o envolvimento direto dos municípios no processo de criação da Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas com o seu compromisso em salvaguardá-la, eventualmente através da sua integração nos instrumentos de gestão municipais, para bem das suas próprias populações e da sua atividade económica.

A cooperação entre entidades portuguesas e espanholas traz que mais-valias a este projeto, nomeadamente através da participação do CSIC?

O envolvimento da Estación Biológica de Doñana – CSIC é uma enorme mais-valia para este projeto, nomeadamente do Dr. Virgilio Hermoso, que é um dos maiores especialistas europeus na área de priorização espacial. A cooperação internacional, mas principalmente o enorme conhecimento de todos os parceiros envolvidos são garante da capacidade do consórcio em atingir os ambiciosos objetivos deste projeto.

Que indicadores permitirão avaliar o sucesso do SerE+ ao longo do período de implementação, entre 2025 e 2028?

O projeto está organizado em 4 fases, perfeitamente distribuídas ao longo dos 3 anos da sua implementação. No final do primeiro ano, pretendemos ter criado toda a cartografia de priorização e de mapeamento dos serviços dos ecossistemas.  No final do segundo ano, já pretendemos ter mapeada a rede com a devida validação in-situ e disponibilizada a informação cartográfica de forma livre, através dum Web-SIG interativo. No final do terceiro ano, deverão estar completas as intervenções de restauro ambiental numa área-piloto e criado um percurso pedestre temático no mesmo local.

Finalmente, o grau de envolvimento da comunidade nas diferentes fases do projeto, ao longo dos 3 anos, será também um importante indicador para medirmos a sua capacidade de intervir no território.

Este projeto pode servir de modelo para outras áreas protegidas em Portugal ou noutros contextos semelhantes?

Claramente a replicabilidade é um dos aspetos mais interessantes deste projeto. Está prevista a publicação de 2 artigos científicos que compilem as novidades que teremos de introduzir nos procedimentos de modelação espacial para aplicar à escala regional uma abordagem normalmente utilizada à escala supranacional e para introduzir o potencial de restauro nos modelos. No final, a abordagem proposta, que funde inovação científica com a conservação da natureza e com a gestão territorial, poderá potenciar resultados e ser replicada no contexto doutras regiões (áreas protegidas ou não).

Que impacto esperam que o SerE+ tenha a médio e longo prazo na resiliência da Serra da Estrela face às alterações climáticas?

Quando plenamente implementada, a Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas na Serra da Estrela constituirá um instrumento fundamental de gestão territorial, permitindo salvaguardar os serviços dos ecossistemas num contexto de alterações climáticas. Desta forma, contribuirá para o reforço da conservação da natureza, para o bem-estar das populações e para a dinamização da economia regional. Contudo, para que esta rede seja efetiva, será indispensável um compromisso sólido das autoridades locais e regionais na sua gestão e proteção. O projeto SerE+ criará, ainda assim, todas as bases técnicas, institucionais e operacionais necessárias para a sua plena implementação.

Por último, a valoração económica da rede assumirá um papel estratégico enquanto instrumento de apoio à negociação do poder local com as autoridades nacionais e europeias, nomeadamente em resposta a futuros eventos climáticos extremos, como incêndios de grande dimensão, permitindo compensar o território pelas perdas de serviços prestados pela natureza.

Como podem as populações locais envolver-se ativamente neste projeto e beneficiar das ações previstas?

As populações locais poderão envolver-se de forma ativa através de várias modalidades. Uma das formas práticas de participação será a utilização da plataforma colaborativa. Outra possibilidade passa pelo interesse em integrar terrenos privados na Rede de Áreas de Aceleração de Serviços dos Ecossistemas, promovendo ações de restauro ambiental.

Será também possível a participação voluntária em algumas ações de restauro na área-piloto, como, por exemplo, trabalhos de controlo de espécies invasoras. Por fim, o usufruto do percurso pedestre constitui igualmente uma forma de envolvimento no projeto. Nesse âmbito, será particularmente valorizada a integração da perceção das populações sobre os benefícios que os ecossistemas proporcionam à sua qualidade de vida. 

 

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