Estudo revela que investidores informados lucram com negociações climáticas globais

Investigadores australianos concluíram que as empresas de combustíveis fósseis registam picos significativos de negociação informada durante as conferências da ONU sobre alterações climáticas, com ganhos estimados que podem atingir os 25 mil milhões de dólares no conjunto das empresas e reuniões analisadas.

Redação

Investigadores australianos concluíram que as empresas de combustíveis fósseis registam picos significativos de negociação informada durante as conferências da ONU sobre alterações climáticas, com ganhos estimados que podem atingir os 25 mil milhões de dólares no conjunto das empresas e reuniões analisadas.

A investigação, divulgada pela Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS), mostra que, enquanto a comunidade internacional procura estabelecer quadros para limitar os impactos das alterações climáticas, alguns intervenientes do mercado financeiro aproveitam as reações associadas às cimeiras anuais da Conferência das Partes (COP) para obter lucros elevados.

O estudo, recentemente publicado na revista Energy Economics, analisou a atividade de chamados “traders informados”, ou seja, investidores que atuam com base em informação não pública, permitindo-lhes negociar antes de o mercado reagir.

“Verificámos que as empresas de combustíveis fósseis apresentam aumentos significativos de negociação informada durante as reuniões da COP, com ganhos estimados até 25 mil milhões de dólares no conjunto das empresas e das cimeiras incluídas no estudo”, afirma a professora Martina Linnenluecke, coautora do trabalho e diretora do Centro para o Risco Climático e Resiliência da UTS Business School.

A equipa de investigação integrou ainda Caroline Chen, da Universidade RMIT, Mona Mashhadi Rajabi, do Centro para o Risco Climático e Resiliência da UTS, Tom Smith, da Macquarie Business School, e Xin Ling, da Business School da Universidade de Queensland.

Segundo Martina Linnenluecke, as negociações climáticas da COP são processos globais de grande dimensão, com impacto potencial direto no valor das empresas do setor fóssil. “Estas reuniões envolvem milhares de delegados, representantes da indústria e observadores”, sublinha.

“Quisemos perceber se pessoas com indicações antecipadas sobre o rumo das negociações estariam a negociar com base nesse conhecimento antes de qualquer anúncio público.”

Para o efeito, os investigadores desenvolveram uma nova metodologia destinada a analisar o comportamento dos mercados em torno das reuniões da COP, estimando a probabilidade de negociação informada a partir de dados relativos a uma amostra de 87 empresas de combustíveis fósseis cotadas nos Estados Unidos, entre 2006 e 2023.

Os resultados indicam que os sinais mais claros surgem imediatamente antes do início formal das cimeiras, frequentemente à sexta-feira e à segunda-feira, quando os delegados chegam e decorrem eventos preparatórios.

“Nesses períodos, as ações das empresas de combustíveis fósseis comportaram-se como se alguns investidores já tivessem uma perceção antecipada da direção que a política climática iria tomar”, explica a investigadora.

“Quando as negociações apontavam para acordos climáticos mais ambiciosos, as ações tendiam a descer e vender cedo poderia ser lucrativo. Pelo contrário, se o processo negocial parecia fraco, comprar antecipadamente compensava”, adianta.

De acordo com as estimativas do estudo, os investidores informados poderão ter obtido até 25 mil milhões de dólares em lucros ao longo das reuniões da COP analisadas, sendo o valor mais elevado registado em torno da COP20, com ganhos superiores a 12 mil milhões de dólares.

Apesar das preocupações levantadas, este tipo de atividade não é ilegal. “Não existem regras específicas que regulem este tipo de negociação”, salienta Martina Linnenluecke.

“A questão torna-se problemática quando as decisões da COP influenciam o ritmo e a direção da transição energética global. Qualquer assimetria de informação nestas negociações tem implicações na equidade dos mercados, na proteção dos investidores e na credibilidade da política climática”, conclui.

Os autores defendem, por isso, o reforço das regras de divulgação de informação, bem como protocolos de comunicação mais claros e salvaguardas que impeçam que o acesso privilegiado a dados das negociações se transforme numa fonte de ganhos privados.

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