EUA aprovam vacina para proteger abelhas da loque. Doença também existe em Portugal e pode ser “um grande problema” sem ação rápida



Na semana passada, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos concedeu uma licença condicional a uma vacina da farmacêutica Dalan Animal Health, especialmente desenhada para proteger as abelhas do mel (Apis mellifera) da doença loque americana, provocada pelo microrganismo Paenibacillus larvae.

Em comunicado, a CEO da empresa biomédica, Annette Kleiser, assegurava que “a nossa vacina é um avanço na proteção das abelhas do mel” e assinala que “estamos prontos para mudar a forma como tratamos os insetos, que impactam a produção de alimentos à escala global”.

De facto, estima-se que, atualmente, 75% de todas as plantas que usamos na nossa alimentação estejam dependentes da ação dos polinizadores, entre eles as abelhas do mel, pelo que a sua proteção é de grande importância para a saúde dos ecossistemas e para a subsistência humana, sendo que números do Banco Mundial indicam que a agricultura é responsável por 4% dos PIB mundial e em alguns países menos desenvolvidos pode mesmo chegar aos 25%.

Além disso, as Nações Unidas calculam que perto de dois mil milhões de pessoas, sobretudo em países mais pobres, dependam diretamente da agricultura. Por isso, proteger os polinizadores é uma luta que deve ser de todos, pois o colapso deste serviço de ecossistema não deixará ninguém incólume.

Então, a  vacina agora aprovada nos EUA poderá ser um raio de esperança? Nuno Capela, investigador da Universidade de Coimbra especializado no impacto de múltiplos stresses em abelhas de mel, explicou à ‘Green Savers’ que “neste caso concreto, a vacina é uma boa aposta e pode eventualmente resolver a combater esta doença”.

No entanto, avisa que “a vacina não resolve a base do problema”, porque nos EUA “cerca de 50% de todas as colónias do país são utilizadas para fornecer serviços de polinização em amendoal”, culturas intensivas que impedem que as abelhas tenham acesso a outras fontes de alimento e que reduzem a biodiversidade.

“Estruturas verdes (bordas dos campos, pedaços de floresta) que poderiam fornecer alimento e nidificação a polinizadores selvagens, simplesmente não existem”, diz o especialista, acrescentando que “com a enorme escassez de polinizadores, há também uma escassez nos seus serviços e é necessário recorrer à abelha melífera”.

“Este sistema não é de todo sustentável a longo prazo”, uma vez que “os produtores estão sempre dependentes da contratação de serviços de polinização; as abelhas melíferas viajam imensos quilómetros e estão expostas a stress hídrico e nutricional, produtos fitofarmacêuticos, e outras doenças; os polinizadores selvagens não têm alimento nem onde nidificar acabando por desaparecer”.

Nuno Capela sublinha que a loque americana foi também detetada em colónias que “não são usadas desta forma intensiva”, mas, ainda assim, aponta que “a exposição e estes stresses aumenta a probabilidade de desenvolver doenças”.

Em Portugal, tanto a loque americana como a sua variante europeia estão presentes. Embora sejam “mais raras do que outras doenças”, como o ácaro Varroa destructor, que é “a principal causa da maioria das doenças nas colónias de abelhas”, as loques são “extremamente perigosas” e podem tornar-se “um grande problema quando os apicultores não agem com rapidez e eficácia para a destruição das colónias infetadas”, diz-nos o doutorando.

Tendo em conta a ocorrência das loques em Portugal, poderá o país vir a adotar também uma vacina para proteger as abelhas do mel? Nuno Capela admite ser pouco provável que isso aconteça, pois “existem outras áreas do setor apícola bem mais urgentes a necessitar de apoio”.

Ele adianta também que “existem técnicos apícolas que visitam os apiários e dão apoio constante aos apicultores que estão registados nas associações” e que “existe uma comparticipação do estado para adquirir tratamentos para combater a varroa (ácaro)”.

Quanto às loques, “cada vez que são detetados sintomas da doença é necessário queimar a colónia para impedir que a doença se propague para outras colmeias”. A Direção-geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), num folheto informativo sobre a loque americana, explica que, na União Europeia, essa doença é de declaração obrigatória, pelo que “a partir do momento em que a doença é suspeita, a autoridade competente deve ser alertada”.

A doença só afeta as larvas jovens das abelhas e os indivíduos adultos são imunes ao patógeno.

“Uma vez infetada uma larva, rapidamente toda a criação da colónia pode ficar afetada. Assim, ela será incapaz de criar as obreiras necessárias á sua manutenção, o que poderá conduzir ao enfraquecimento e eventualmente à morte da colónia”, informa a DGAV.

Além das doenças, as alterações climáticas são também uma das grandes ameaças à saúde e sobrevivência das populações de polinizadores, explicando Nuno Capela que “levam a padrões de clima pouco usuais” e a “um aumento de eventos extremos”.

Por exemplo, é esperada uma “intermitência entre chuva e sol” na primavera que se aproxima. Isso obrigará agricultores e apicultores a ajustarem os seus calendários, procurando lançar à terra as sementes mais cedo ou mais tarde do que habitual, ao passo que o apicultor poderá alimentar as colónias “antes das grandes florações para ter colónias fortes para a produção de mel”.

Contudo, se acontecer um período de falta de chuva que se estende por meses, “o agricultor perde grande parte do seu cultivo ou toma medidas para mitigar os efeitos do clima (ex. rega), o que lhe traz custos extra e provavelmente não consegue ter a produção esperada”. Por seu lado, “o apicultor, que espera uma longa floração, deixa de ter essa floração passado um mês. As colónias conseguiram recolher algum néctar, mas agora que a colmeia está no seu auge, a paisagem não tem recursos disponíveis”.

Isso fará com que a colónia consuma o mel que produziu e armazenou e “o apicultor não tem rendimento esse ano”.

“Além disso, se os eventos forem demasiado extremos, podem levar ao colapso da colónia” alerta Nuno Capela, e “dentro deste cenário (que não é improvável) as abelhas melíferas possuem a ajuda do apicultor”. Porém, as abelhas selvagens não dispõem desse auxílio, pelo que “podem ser ainda mais afetadas pelas alterações climáticas”.

“Basicamente, o que acontece nestes casos é uma dessincronização entre o desenvolvimento dos organismos (seja a cultura agrícola, as abelhas ou os outros polinizadores) e a disponibilidade de recursos para que possam sobreviver, crescer, e reproduzir”, destaca o investigador.





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