As fêmeas de gorila-das-montanhas (Gorilla beringei beringei) podem viver mais de 10 anos depois de terem tido a última cria.
Com base em quase 30 anos de observações do comportamento de quatro grupos desses grandes primatas no Parque Nacional de Bwindi, no Uganda (África oriental), os cientistas perceberam que, tal como os humanos e outros mamíferos, as fêmeas podem viver para lá da sua idade reprodutiva.
Num artigo publicado esta semana na revista ‘PNAS’, uma dupla de investigadores do Instituto Max Planck para a Antropologia Evolutiva revela que, das 25 fêmeas adultas estudadas, sete tinham deixado de se reproduzir, mas sobreviveram durante mais de uma década, “passando pelo menos um quarto das suas vidas adultas numa fase pós-reprodutiva”. Na Natureza, as fêmeas de gorilas-das-montanhas raramente passam dos 50 anos de idade.
À semelhança do que acontece nos humanos e numa mão cheia de outros mamíferos, como orcas, narvais, falsas-orcas, baleias-piloto-tropicais e uma população de chimpanzés no Parque Nacional de Kibale, também no Uganda, viver após a idade reprodutiva é algo raro no mundo animal, onde, ditam os cânones biológicos, produzir descendência e perpetuar os genes é um dos grandes propósitos da vida. No entanto, cada vez mais surgem provas de que, pelo menos para algumas espécies, continua a haver vida para lá da reprodução.
Os autores acreditam que esta descoberta poderá ajudar a compreender melhor as raízes evolutivas da menopausa e a sua razão de ser, lançando luz não apenas sobre a vida dos animais não-humanos, mas também sobre a nossa própria espécie.
Martha Robbins, que assina o estudo juntamente com Nikolaos Smit, diz que a equipa queria confirmar a vida pós-idade reprodutiva nos gorilas-das-montanhas “uma vez que tínhamos já observado velhas fêmeas que há muito tinham cessado a reprodução, mas que ainda pareciam estar em bom estado de saúde”.
“Duas fêmeas que eram maturas quando começámos o estudo em 1998 ainda estão vivas, embora tenham tido as últimas crias em 2010”, recorda.
Apesar da descoberta, ainda não se sabe ao certo a função da vida sem a reprodução. “Ainda estamos longe de conseguir decifrar as raízes evolutivas desses traços nos gorilas e não só”, acrescenta Smit.









