No ano passado, cientistas do Jardim Botânico de Kew, no Reino Unido, em colaboração com outros especialistas, deram nome a 125 espécies de plantas e a 65 espécies de fungos.
Para celebrar os avanços no conhecimento sobre a diversidade de formas de vida nesses dois reinos, a instituição criou uma lista das 10 espécies mais “estranhas e maravilhosas” que foram descritas em 2025.
Em primeiro lugar surge um fungo “zombie” originário do Brasil. Batizado com o nome científico Purpureocillium atlanticum, foi encontrado na Mata Atlântica brasileira em novembro de 2022.

É conhecido por infetar aranhas, especialmente aranhas-de-alçapão nas suas tocas sob o solo, alimentando-se das suas entranhas e cobrindo os seus corpos quitinosos com filamentos que fazem lembrar algodão. Dos cadáveres das vítimas, emerge uma espécie de cogumelos, ou corpos frutíferos, que saem da toca e, ao ar livre, libertam os seus esporos, as células sexuais dos fungos, para dar continuidade ao ciclo de vida do fungo.
Em segundo lugar aparece uma orquídea de aspeto sinistro. Foi chamada de Telipogon cruentilabrum e encontrada nas florestas equatorianas de Cotopaxi, na cordilheira dos Andes.
As suas pétalas são maioritariamente amarelas com veios avermelhados, mas o centro da flor, onde se localização o labelo, uma espécie de pétala modificada que serve para atrair os insetos polinizadores, está, parece, manchada de sangue.

Tal como outras espécies de Telipogon, esta imita as fêmeas de moscas para enganar os machos e levá-los a fazerem a polinização.
Dizem os cientistas que mais de metade do habitat das orquídeas Telipogon cruentilabrum já foi destruído e a desflorestação continuação a grassar devido à mineração e à agricultura, pelo que está, para já, informalmente classificada como “Em Perigo” de extinção.
Uma planta de aspeto fogoso oriunda do Peru surge em terceiro lugar na lista do Jardim Botânico de Kew. Trata-se da espécie Aphelandra calciferi e destaca-se pelas suas flores de tons amarelos, laranjas e vermelhos que fazem lembrar chamas.

A Aphelandra calciferi podem chegar aos três metros de altura e o seu nome científico teve por inspiração a personagem Calcifer, um demónio de fogo do filme “O Castelo Andante”, também conhecido como “O Castelo Animado”, do realizador japonês Hayao Miyazaki.
Em quarto lugar, os botânicos de Kew colocam uma nova subespécie de planta suculenta que faz lembrar uma pedra, só que está viva. A Lithops gracilidelineata mopane pertence a um grupo de plantas conhecidas por se parecem com pedras, desaparecendo, assim, no ambiente em que vivem.
A planta é oriunda das savanas da Namíbia e, tal como outras suculentas, tem uma grande capacidade para reter água, uma capacidade indispensável à sobrevivência em ambiente muito áridos onde a água não abunda.

Dizem os especialistas que as Lithops são muito populares como plantas ornamentais e cultivadas em cativeiro, mas a colheita ilegal está a empurrar muitas das suas espécies para a extinção, que estão classificadas como “Em Perigo” ou “Vulneráveis”.
A meio da tabela chega-nos uma planta das pradarias subalpinas do Monte Korab no norte da Macedónia e no Kosovo. De nome Galanthus subalpinus, pertence a um grupo de plantas cujas flores têm pétalas de um branco imaculado, razão pela qual são conhecidas como “snowdrops” em inglês.
Testes genéticos confirmaram que se trata de uma espécie de direito próprio, distinta de outros membros do mesmo género, como a G. nivalis e a G. graecus.

Apesar de nova para a Ciência, a espécie estará já “Criticamente em Perigo” de extinção, devido ao reduzido tamanho da sua população e à ameaça representada pela colheita desregulada. A essas pressões juntam-se o sobrepastoreio e os incêndios como fatores que põem em risco a sobrevivência da espécie.
O sexto lugar foi reservado para uma nova árvore que produz frutos com um sabor a meio caminho entre a banana e a goiaba e que deixam na boca um gosto a eucalipto.
Os especialistas deram-lhe o nome científico Eugenia venteri. Podendo chegar aos 18 metros de altura, é encontrada na Ilha Manus, na Papua Nova Guiné, no Oceano Pacífico, a norte da Austrália.

Os frutos nascem de caules que brotam do tronco, que correm sobre o solo até aos sete metros de comprimento e dos quais nascem flores brancas com cerca de seis centímetros de diâmetro. Os cientistas acreditam que a E. venteri depende de grandes ratos encontrados na Nova Guiné para a polinização e para a dispersão das suas sementes.
Uma árvore gigante da floresta tropical húmida dos Camarões, em África, é a sétima espécie nesta lista. Tem o nome científico Plagiosiphon intermedium e pode alcançar os 34 metros de altura e os 66 centímetros de diâmetro do tronco. Estima-se que esta espécie possa pesar cinco toneladas.
É a primeira espécie a ser adicionada ao género Plagiosiphon em quase 80 anos, aumentando o número de espécies para seis. Essas plantas existem apenas nas florestas dos Camarões, Gabão e Congo.

A nova espécie só foi encontrada em dois locais, ambos na região sul dos Camarões, uma área de grande riqueza de espécies de plantas, mas atualmente sem proteção legal.
Em oitavo lugar nesta lista, um fungo que vive no interior da gramínea Stipa sareptana. Encontrada no interior da Mongólia, este fungo endófito de nome Magnaporthiopsis stipae foi detetado nas raízes da planta hospedeira.
Este tipo de fungos vive dentro de plantas sem lhes causar quaisquer sinais de doença e pensa-se mesmo que, em alguns casos, as plantas podem estar a beneficiar dessa relação.

Uma palmeira que dá frutos vermelhos e cujas flores não destoariam na paisagem de um filme de ficção científica fica em nono lugar. Encontrada em cumes calcários numa pequena área propensa a tufões na Ilha de Samar, nas Filipinas, a Adonidia zibabaoa pode crescer até aos 15 metros de altura e é já muito procurada por entusiastas como planta ornamental para jardins.
Embora a sua categorização tenha sido inicialmente difícil, testes genéticos determinaram que essa palmeira pertence ao género Adonidia, ao qual pertencem apenas outras duas espécies, incluindo a Adonidia merrillii, uma das plantas tropicais ornamentais mais cultivadas em todo o mundo.

Por fim, de regresso às orquídeas, com a descrição de seis novas espécies dos territórios indonésios na Nova Guiné e nas Ilhas Molucas. Do grupo, que contempla os géneros Dendrobium e Bulbophyllum, os especialistas do Jardim Botânico de Kew destacam uma, a Dendrobium eruciforme
Essa espécie é a mais pequena das seis e distingue-se pelo facto de se estender sobre os troncos como um exército de lagartas em marcha.

Além da beleza e das maravilhas ainda por descobrir do mundo natural, os botânicos querem sensibilizar o público para as ameaças enfrentadas por estes seres vivos, em tempos de crises planetárias que cada vez mais pressionam os ecossistemas e delapidam a biodiversidade.
“Descrever novas espécies de plantas e de fungos é essencial numa altura em que os impactos da perda de biodiversidade de das alterações climáticas aceleram diante dos nossos olhos”, salienta Martin Cheek, investigador do Jardim Botânico de Kew.
“É difícil proteger o que não conhecemos, o que não compreendemos e o que não tem um nome científico”, afirma. Cheek considera ainda que se não se investir na taxonomia, na conservação e na sensibilização do público para os perigos que as atividades humanas representam, neste momento, para a Natureza e a biodiversidade, “corremos o risco de desmantelar os mesmos sistemas que suportam a nossa vida na Terra”.









