Humanos já faziam fogo 350 mil anos antes do que se pensava

Foram encontrados indícios que sugerem que os humanos já faziam e usavam fogo há cerca de 400 mil anos. Registos anteriores de fogo feito pela nossa espécie datavam apenas de há 50 mil anos.

Filipe Pimentel Rações

Foram encontrados indícios que sugerem que os humanos já faziam e usavam fogo há cerca de 400 mil anos. Registos anteriores de fogo feito pela nossa espécie datavam apenas de há 50 mil anos.

A descoberta é anunciada num artigo publicado este mês na revista ‘Nature’, no qual 15 cientistas recordam que se pensa que há um milhão de anos que os humanos usam fogo natural (criado por raios, por exemplo), mas só muito mais tarde começaram eles próprios a criá-lo.

Agora, o “quando” do domínio humano sobre o fogo foi empurrado 350 mil anos para trás no tempo. Na região de Barnham, em Inglaterra, num sítio arqueológico datado do Paleolítico, os investigadores encontraram pedaços de argila aquecida, pequenos machados de sílex com sinais de ter sido quebrados pelo calor e dois fragmentos de pirite de ferro. Tudo indica que esses vestígios tenham sido deixados por um dos grupos mais antigos de Neandertais, sugerem os investigadores.

Demorou quatro anos até que a equipa conseguisse chegar à conclusão de que as alterações por calor que encontraram não foram causadas por fogos naturais, como incêndios, mas sim por fogo intencional. Em laboratório, percebeu-se que a argila aquecida, presumivelmente parte do solo sobre o qual foi ateado o fogo, foi sujeita a temperaturas acima dos 700 graus Celsius e mais do que uma ocasião, o que sugere a existência de uma fogueira intencional que terá sido usado diversas vezes.

A presença da pirite é também significativa, porque, dizem os investigadores, é rara no local onde foi encontrada, pelo que os humanos antigos tê-la-ão levado de outros locais para essa região da Inglaterra. Isso indica que conheciam bem as suas propriedades e a sua importância para criar faíscas e, assim, chamas.

A equipa recorda que a mestria sobre o fogo foi um marco indelével na história da nossa espécie, fornecendo aos humanos benefícios como calor e proteção contra inimigos e predadores, e permitindo a expansão e colonização de regiões mais frias. Além disso, criar fogo ampliou o leque de alimentos que podiam ser consumidos em segurança, pois cozinhando-os removiam-se toxinas e patógenos que antes poderiam ter sido fatais.

O fogo impulsionou também a criação de grupos humanos cada vez maiores e complexos, o reforço de laços sociais e, com o tempo, o nascimento de linguagens, sistemas de crenças e histórias.

Nick Ashton, principal coautor do artigo, diz, em comunicado que “esta é a descoberta mais notável da minha carreira e estou muito orgulhoso do trabalho de equipa que foi preciso para chegar a esta conclusão inédita”.

“É incrível que alguns dos grupos mais antigos de Neandertais já tivessem o conhecimento das propriedades do sílex, da pirite e da lenha numa época tão remota”, salienta.

Para Rob Davis, primeiro autor, as implicações desta descoberta “são enormes”. “A capacidade para criar e controlo o fogo é um dos marcos mais importantes na história humana com benefícios práticos e sociais que alteraram a evolução humana”, afirma, acrescentando que “esta descoberta extraordinária faz recuar esse marco cerca de 350 mil anos”.

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