Incêndio no Parque Natural do Douro Internacional destrói dois ninhos de abutre-preto e afeta outros seis. Cientistas pedem ajuda para reparar danos

Dois ninhos de abutres-pretos (Aegypius monachus) foram destruídos pelo incêndio que deflagrou no passado dia 15 de agosto no Parque Natural do Douro Internacional. Cientistas confirmaram primeira morte, uma cria que morrera por inalação de fumo e cinzas.

Filipe Pimentel Rações

Dois ninhos de abutres-pretos (Aegypius monachus) foram destruídos pelo incêndio que deflagrou no passado dia 15 de agosto no Parque Natural do Douro Internacional. O fogo, que começou em Poiares, no concelho de Freixo de Espada à Cinta, danificou também outros seis ninhos usados por casais dessa espécie ameaçada de extinção em Portugal.

A informação é avançada, em comunicado, pela organização Vulture Conservation Foundation (VCF), que coordena o projeto LIFE Aegypius Return em parceria com outras organizações e instituições portuguesas, cujo objetivo é recuperar a população de abutres-pretos no país.

De acordo com a mesma fonte, o avanço das chamas levou à mobilização das equipas do projeto que estavam no terreno, que conseguiram resgatar os seis abutres-pretos que estavam na estação de aclimatação afeta ao projeto, instalada no PNDI em março passado, junto à aldeia de Fornos, no distrito de Bragança. A rápida resposta “evitou uma tragédia maior”, dizem as instituições em comunicado. A estação tem como objetivo recuperar e habituar os abutres-pretos, sem território definido, ao habitat no qual serão posteriormente libertados e que será a sua casa.

Momento do resgate dos seis abutres-pretos que estavam na estação de aclimatação no Parque Natural do Douro Internacional. Foto: VCF.

Os animais estão atualmente alojados no Centro de Interpretação Ambiental e Recuperação Animal (CIARA) em Felgar, concelho de Torre de Moncorvo, “onde permanecem em segurança”. Na tarde do dia seguinte, 16 de agosto, as chamas atingiram realmente a estação de aclimatação, incluindo a jaula, o campo de alimentação e as estruturas de apoio.

A VCF diz que, apesar de a vegetação em torno da estação ter sido cortada previamente, uma medida preventiva implementada pela organização Palombar, parceira do projeto, “o fogo devastou todo o habitat”.

Em nota, avança que a jaula sofreu “alguns danos ligeiros”, mas o contentor de apoio, que servia de enfermaria e de centro digital de videovigilância das instalações, “foi totalmente destruído”, bem como o campo de alimentação que ficou “inteiramente queimado”, pelo que, pelo menos no imediato, não pode ser utilizado.

O contentor de apoio à estação de aclimatação, no Parque Natural do Douro Internacional, ficou completamente destruído pelo fogo. Servia de enfermaria e de centro digital de videovigilância das instalações. Foto: VCF.

Este ano, contabilizaram-se oito casais na colónia de abutres-pretos no Douro Internacional, cinco em território português e três do outro lado da fronteira. Sete deles geraram cinco crias, que se desenvolveram e estavam a ser monitorizadas pela Palombar, com o apoio do Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Quatro crias tinham já abandonado os ninhos, mas uma, ainda jovem, não voava, embora os especialistas esperassem que deixasse o ninho em breve. Depois de o fogo e o fumo darem tréguas, as equipas deste projeto confirmaram que o ninho da cria não voadora tinha realmente sido atingido pelas chamas e a jovem ave já nele não se encontrava.

Uma cria de abutre-preto foi encontrada morta esta manhã no PNDI, a primeira fatalidade a ser confirmada para a espécie no contexto deste incêndio. Segundo informações que foram partilhas com a ‘Green Savers’, o animal terá morrido ontem, dia 20 de agosto, provavelmente devido à intoxicação causada pelo fumo e pelas cinzas geradas pelas chamas. “Uma morte em agonia”, lamenta Milene Matos, coordenadora do projeto em representação da VCF. A cria tinha sido equipada com um dispositivo GPS, para monitorizar os seus movimentos, em junho passado.

“Desde o incêndio o emissor não estava a conectar-se à rede e não sabíamos da sua localização. Hoje enviou dados, mostrando inatividade. As equipas da Palombar acorreram à localização e confirmaram a morte da cria”, dizem-nos as organizações. O corpo foi recolhido e encaminhado para necrópsia no Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD).

Foi confirmada a primeira morte de um abutre-preto no Parque Natural do Douro Internacional. Uma cria que terá morrido pela inalação de fumo e cinzas e que tinha sido equipada com um equipamento GPS há pouco mais de um mês. Foto: VCF.

“Sendo a colónia de tão pequena dimensão, este é um enorme retrocesso na sua conservação, e pode suceder que os adultos abandonem este território, revertendo vários anos de esforços para restaurar a colónia”, lamentam.

A colónia de abutre-preto no Parque Natural do Douro Internacional era já considerada “a mais frágil, a mais pequena e a mais isolada do país”, pelo que o impacto do incêndio causou “um severo revés”. As consequências estão agora a ser avaliadas pela Palombar, VCF, ICNF, Faia Brava (outra organização que participa no projeto LIFE Aegypius Return) e pelas autoridades competentes.

Os danos foram extensos e os parceiros do projeto estão a apelar à solidariedade da população para ajudar na recuperação. Para tal, lançaram uma campanha de crowdfunding “para ajudar a restabelecer o programa de conservação de abutre-preto no PNDI”.

Em declarações à ‘Green Savers’, Milene Matos diz que a recuperação da colónia afetada, por exemplo, com a fixação de aves vindas de Espanha, será “muito lenta”. Isto, sobretudo porque a colónia do PNDI está a mais de 100 quilómetros da colónia mais próxima.

Além disso, com o habitat destruído, é pouco provável que novas aves escolham nidificar por entre as cinzas, pelo que a prioridade agora deve ser recuperar o território, para que seja possível uma eventual e futura fixação de novos casais que ajudem a restabelecer a colónia.

Ninho consumido pelas chamas no Parque Natural do Douro Internacional. Foto: Palombar.

A bióloga recorda-nos também que já em 2017 o núcleo de abutres-pretos do PNDI tinha sido afetado pelas chamas, que resultaram na morte confirmada de uma cria, depois de o seu corpo carbonizado ter sido encontrado.

Com a voz embargada, Milene Matos confessa que “é muito difícil” lidar com uma situação como esta.

“Sentimos que damos um passo para a frente e, de um dia para o outro, literalmente, sentimos que damos cinco para trás”, lamenta, confessando desalento pelo facto de esta ser uma catástrofe que se repete quase todos os anos pelo país e por nada parecer realmente mudar.

Abutre-preto. Foto: Hansruedi Weyrich / VCF.

Milene Matos avisa, ainda, que as equipas do projeto estão igualmente preocupadas com a colónia na Serra da Malcata, uma vez que as chamas ainda não foram extintas nos distritos de Castelo Branco e da Guarda, que continuam, segundo o Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA), em risco de incêndio máximo e muito elevado, respetivamente.

“É um sentimento de impotência, porque não podemos fazer nada”, salienta, com pesar.

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