Em 2025, vários momentos deixaram marcas indeléveis nas áreas do Ambiente e da Natureza a nível global, europeu e nacional. Os seus efeitos, os bons e os maus, repercutir-se-ão por vários anos, e até décadas, e serão sentidos pelas atuais gerações e por aquelas que estão por vir.
Durante o ano que agora chega ao fim, tivemos mais uma cimeira climática global, a COP30, que, embora tenha conseguido alguns avanços positivos, como a intenção de triplicar até 2035 o financiamento da adaptação de países em desenvolvimento (que, mesmo assim, esses países consideraram ficar aquém do necessário) e a criação de um fundo para pagar aos países que protegerem as suas florestas, falhou, outra vez, no que era mais importante: assumir o fim dos combustíveis fósseis e desenhar o caminho da transição.
Também em 2025 foi ultrapassado o sétimo limiar crítico planetário, o da acidificação dos oceanos. Ou seja, os oceanos, fruto do contacto com as emissões de gases poluentes lançados pelos humanos para a atmosfera, estão a ficar tão ácidos que a estabilidade, funcionamento e futuro dos seus ecossistemas está em sério risco.
Ainda na lista do que podia ter corrido bem melhor este ano, o fracasso das negociações daquele que seria o primeiro tratado global sobre plásticos. Em agosto, quase duas centenas de países membros da ONU estiveram em Genebra para mais uma ronda de negociações sobre um tratado legalmente vinculativo e cujo objetivo é regular, a nível mundial, a produção, consumo e fim de vida do plástico, e, assim, proteger os solos, os oceanos, a biodiversidade e a própria saúde humana.
Tal como acontece nas cimeiras do clima, também nestas negociações sobre o plástico os países produtores de petróleo, impulsionados pela indústria fóssil, bloquearam qualquer consenso em limites na produção de novos plásticos, pelo que a reunião terminou da mesma forma que começou: sem um acordo global para travar a poluição por plástico.
Este ano, o mundo teve também de despedir-se de uma das maiores figuras mundiais da conservação da Natureza e da primatologia, Jane Goodall, que faleceu em outubro, aos 91 anos. A cientista britânica mudou a forma como o mundo via os primatas, que mostrou que eles são muito mais parecidos com a nossa espécie do que pensávamos (ou queríamos admitir), que foi a voz da esperança num futuro mais brilhante e que foi uma defensora fervorosa do papel dos jovens para impulsionar a mudança.
Mas nem tudo foi mau e é preciso equilibrar o negrume com uma centelha de esperança. O tratado do alto-mar, para proteger as águas marinhas fora das jurisdições dos países, alcançou o número mínimo de signatários para poder entrar em vigor em janeiro de 2026.
“Quando enfrentamos uma tripla crise planetária – alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição – este acordo é uma linha de vida para o oceano e a humanidade”, declarou, na altura, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas.
Além disso, a produção global de eletricidade a partir de fontes renováveis ultrapassou, pela primeira vez, a energia produzida a partir do carvão.
Considerado um marco histórico na transição energética, a produção de energia solar cresceu 31% a nível mundial no primeiro semestre do ano, o maior aumento já registado. Já a energia eólica aumentou 7,7% no mesmo período.
Em conjunto, estas duas fontes limpas geraram mais de 400 terawatts-hora adicionais, um valor superior ao crescimento total da procura global de eletricidade nesse intervalo.
Este avanço permitiu que, pela primeira vez, as energias renováveis combinadas produzissem mais eletricidade do que o carvão, tradicionalmente o maior contribuinte para as emissões do setor energético.
A nível europeu de destacar, por exemplo, as críticas que têm sido lançadas por organizações ambientalistas contra a Comissão Europeia de Ursula von der Leyen, que acusam de estar a desmantelar a estrutura regulatória que protege o ambiente e a Natureza em prol do alívio das exigências ambientais e de sustentabilidade às empresas. Além disso, de salientar o novo adiamento, por mais um ano, do regulamento europeu anti-desflorestação
No campo da biodiversidade, houve boas e más notícias.
A atualização da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), revelou que três espécies de focas do Ártico estão mais perto da extinção, que mais de metade das espécies de aves está em declínio global e que foram registadas seis novas extinções. Uma das espécies oficialmente dadas como extintas é o maçarico-de-bico-fino (Numenius tenuirostris), que passou a ser a primeira ave da Europa continental a extinguir-se em 500 anos.
Mesmo assim, essa atualização trouxe sinais de esperança para as tartarugas-verdes (Chelonia mydas), que viram o seu estatuto de ameaça aliviado de “Em Perigo” para “Pouco Preocupante”.
Os especialistas dizem que isso foi possível graças a décadas de ações de conservação sustentadas, com a população global desses répteis marinhos a aumentar cerca de 28% desde os anos de 1970. Contudo, algumas subpopulações ainda enfrentam ameaças, como a captura ilegal dos seus ovos com fins comerciais, a mortalidade acidental em redes de pesca, a caça e a destruição dos locais de nidificação devido à construção de infraestruturas.
Mais perto de casa, também houve avanços positivos no campo da conservação.
O programa ibérico de reprodução de linces em cativeiro alcançou um número recorde de 62 nascimentos em 2025, nos cinco centros de reprodução em cativeiro do animal que existem em Portugal e Espanha, segundo informou o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.
Em 20 anos de existência, o programa conseguiu o nascimento de 835 crias de lince-ibérico, 640 das quais sobreviveram ao desmame e 424 foram posteriormente libertadas na natureza em diversos pontos da Península Ibérica. Esses esforços permitiram que a espécie deixasse de estar classificada na Lista Vermelha da UICN como “Em Perigo” e passasse a “Vulnerável”.
Ainda por cá, o Governo português aprovou a nova estratégia de conservação do lobo, o Programa Alcateia 2025-2035, e já atualizou os valores pagos aos criadores de gado por ataques de lobos, algo que não acontecia desde 2017.
Numa altura em que a Europa se posiciona favoravelmente quanto a uma redução da proteção legal investida sobre os lobos, Portugal assegura que a conservação do lobo-ibérico continuará a ser uma prioridade, com o atual Executivo a assumir que tal é “um desígnio do Governo”.
Além de tudo isto, 2025 foi mais um ano de incêndios devastadores em Portugal e em muitos outros países, de novos recordes de temperaturas máximas, tendo já sido classificado, a nível global, como um dos três mais quentes de que há registo.
O próximo ano de 2026 será certamente mais um repleto de turbulências, de passo em frente e de recuos, mas poderá também ser um de avanços positivos significativos na proteção do planeta e de todos os que nele vivem. Antecipa-se, por exemplo, a entrada em vigor o tratado do alto-mar já em janeiro e o arranque em Portugal do Sistema de Depósito e Reembolso, em abril.
Muito estará por vir. Veremos o que o novo ano nos reserva.









