Microplásticos encontrados pela primeira vez no estômago de macacos arborícolas na Amazónia

Pequenas partículas de plástico foram detetadas no estômago de macacos-uivadores da espécie Alouatta juara que vivem na Amazónia brasileira. Estas são consideradas as primeiras evidências científicas de ingestão de microplásticos por primatas arborícolas.

Filipe Pimentel Rações

Pequenas partículas de plástico foram detetadas no estômago de macacos-uivadores da espécie Alouatta juara que vivem na Amazónia brasileira. Estas são consideradas as primeiras evidências científicas de ingestão de microplásticos por primatas arborícolas.

Um grupo de investigadores encabeçado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (Brasil) analisou o conteúdo estomacal de 47 macacos A. juara, conhecidos também localmente por guaribas. Os corpos dos animais foram doados aos cientistas por caçadores de subsistência de comunidades locais que os capturaram entre 2002 e 2017 em duas Reservas de Desenvolvimento Sustentável no estado brasileiro do Amazonas: Mamirauá e Amanã.

Nos estômagos de dois dos animais, que viviam em zonas de floresta conhecidas como “várzea”, que é alagada sazonalmente, foram encontradas fibras microscópicas de plástico com menos de cinco milímetros de comprimento. Dizem os investigadores que se assemelhavam a “filamentos provenientes de redes de pesca abandonadas”.

Fibras microscópicas de plástico encontradas nos estômagos de dois macacos da espécie Alouatta juara, na Amazónia. Imagem: Jesus et al., 2025, EcoHealth.

Tratando-se de uma espécie de primatas que vive nas árvores e que se alimenta sobretudo de folhas, encontrar resíduos de artes de pesca no trato gastrointestinal de A. juara foi algo que surpreendeu os cientistas. O grupo avança uma possível explicação: quando a várzea é anualmente inundada pelas águas dos rios os microplásticos infiltraram-se no solo florestal e acabaram por contaminar as plantas de que os macacos se alimentam.

“Encontrar essas partículas de plástico no estômago de guaribas é preocupante”, diz, citada em comunicado, Anamélia de Souza Jesus, primeira autora do artigo.

“Nós já sabemos que a poluição plástica é algo muito difícil de controlar e encontrá-la na fauna silvestre, num ambiente conservado, como o das reservas, acaba por ser mais um alerta. Especialmente quando encontramos essas partículas num animal arborícola, que não vai ter tantas oportunidades de contacto com qualquer resíduo que possa ficar no solo da floresta.”

Aos impactos nos próprios animais somam-se possíveis impactos na saúde humana, uma vez que algumas espécies de primatas, neste caso, são consumidas pelas comunidades locais, e os poluentes, como os microplásticos podem acumular-se em concentrações cada vez maiores à medida que se sobe na cadeia alimentar.

Para esta equipa, os resultados do estudo, publicado na revista ‘EcoHealth‘ tornam clara “a urgência de políticas públicas que reduzam o uso de plásticos descartáveis, promovam materiais alternativos e incentivem o descarte adequado de resíduos, especialmente artigos de pesca”.

“A poluição plástica já não é uma questão apenas em ambientes modificados pela ação humana, mas também em regiões remotas que ainda mantêm florestas bem preservadas.”

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