Momento “Jurassic Park”: Descoberta nova espécie de formiga predadora fossilizada em âmbar com 16 milhões de anos

Investigadores dizem que a espécie, batizada com o nome Basiceros enana, é a mais pequena desse grupo de formigas e que vem mudar o que até agora se sabe sobre a sua história evolutiva.

Filipe Pimentel Rações

Quando pensamos em formigas, é comum aparecerem na nossa mente imagens de pequenos montículos no solo que jorram minúsculos pontos escuros que se movem rapidamente ou de longas filas apressadas que calcorreiam por entre a vegetação com uma precisão e coordenação surpreendentes.

São mais de 15 mil as espécies e subespécies de formigas que hoje se conhecem, e tantas outras podem, segundo os cientistas, estar ainda por descrever.

Desse total, nove espécies pertencem ao género Basiceros, um grupo de formigas que nos seus corpos têm estruturas especializadas semelhantes a pêlos, conhecidas na gíria científica como “setae”, que servem para acumular solo e pedaços de folhas. Dessa forma, esses pequenos insetos podem esconder-se dos olhares dos predadores.

Agora, uma nova investigação vem revelar uma espécie de Basiceros, já extinta, até agora desconhecida da Ciência. Foi encontrada na República Dominicana, na região das Caraíbas, preservada em âmbar fossilizado com 16 milhões de anos.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, uma equipa de cientistas liderada pelo Instituto de Tecnologia de Nova Jérsia (Estados Unidos da América) batizou a nova espécie com o nome científico Basiceros enana.

Este é o primeiro fóssil de Basiceros a ser encontrado nas Caraíbas, onde terão existido no Miocénico, há entre 23 e 5,3 milhões de anos, antes de terem desaparecido para sempre.

Até agora, pensava-se que as espécies desse género existiam somente nas florestas húmidas das regiões neotropicais, da Costa Rica até ao sul do Brasil, pelo que a localização do fóssil levanta questões acerca da forma como as nove espécies de Basiceros que ainda vivem chegaram aos habitats onde atualmente se encontram. A Costa Rica e a República Dominicana, a título de curiosidade, distam cerca de 1,7 mil quilómetros uma da outra, com o Mar das Caraíbas pelo meio.

“Muitas vezes, as linhagens parecem ter o que parecem ser histórias biogeográficas muito claras. Se encontrarmos um grupo de animais que vive hoje apenas na América do Sul até à Costa Rica, não há realmente razão para esperar que os seus antepassados mais antigos tenham vivido nas Caraíbas”, diz, em comunicado, Phillip Barden, um dos principais autores do artigo.

“Um fóssil como este destaca como a distribuição das espécies vivas podem ocultar a complexa história evolutiva da vida no nosso planeta”, comenta.

Uma hipótese é que, no tempo em que viveram, existiam pontes terrestres que ligavam as Caraíbas ao continente, permitindo às formigas Basiceros fazer uma travessia que agora lhes seria impossível.

A equipa usou técnicas avançadas de imagem para criar uma reconstrução 3D da formiga B. enana, de forma a facilitar o estudo do espécime.

 

“Como o âmbar preserva organismos inteiros em três dimensões, conseguimos extrair imensos dados mesmo de uma formiga minúscula”, afirma Barden.

Com 5,13 milímetros de comprimento, esta espécie é consideravelmente mais pequena do que as suas parentes modernas, que podem chegar aos nove milímetros. Por isso, é a espécie mais pequena de Basiceros até agora documentada, e indica que, em 20 milhões de anos (um piscar de olhos no que toca à evolução), esse grupo de formigas praticamente duplicou o seu tamanho.

Gianpiero Fiorentino, primeiro autor do estudo, explica que se acreditava que os antepassados das Basiceros eram maiores e, com o tempo, foram diminuindo, pelo que a descoberta deste fóssil veio virar essa teoria de cabeça para baixo.

Quanto à razão pela qual desapareceram, os investigadores sugerem que possa estar relacionada com a perda de habitats e de nichos ecológicos ou com a competição com outras espécies.

Fiorentino recorda que nas Caraíbas regista-se uma tendência de perda de diversidade de formigas predadoras e que, desde que este âmbar se formou, mais de um terço dos géneros de formigas documentados na República Dominicana desapareceu.

“Compreender o que levou a este padrão de extinção local é crucial para mitigar extinções modernas provocadas pelos humanos e para proteger a biodiversidade”, destaca o investigador.

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